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Retrógrada ✧ · Aug 19, 2026

Que Comecem as Crônicas

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venus edain ✧ · Retrógrada ✧

Algumas histórias nascem simples. Sabem desde o início aonde precisam chegar e seguem, obedientes, o caminho traçado para elas pela mão que as criou. Esta deveria ter sido uma dessas histórias.

O começo estava destinado a ser simples. Era para haver apenas uma jovem dragão, ainda inexperiente, que acabaria entrando na floresta para se aventurar e buscar algo maior do que a pequena vida que levava. Ela teria uma longa e bela trança da cor do fogo, amaria o som que seu arco e flecha fariam pelos ares e adoraria o ritmo dos cascos de seu cavalo contra a vastidão da terra. Ao seu lado, estariam aqueles que a ajudariam a se tornar extraordinária: uma lebre e seu irmão, companheiros destinados a tornar menos árdua a jornada que os aguardava.

Mas não foi assim que aconteceu. A história não se desenrolou como deveria.

O irmão da lebre jamais chegou a existir, e esta nasceu longe demais daquela que deveria ter se tornado sua jovem amiga dragão — seus caminhos sequer se cruzaram. A pequena lebre cresceu em outro lugar, moldada por adversidades que jamais deveriam ter feito parte de sua vida.

Sem aqueles que deveriam acompanhá-la, a jovem dragão também mudou. Obrigada a crescer na ausência daquilo que lhe fora destinado, tornou-se mais dura, menos delicada. Seu fogo se arrefeceu antes mesmo que ela tivesse a chance de descobrir como fazê-lo arder. Ela nunca procurou a floresta, tampouco perseguiu o destino que havia sido escrito originalmente para ela. Até mesmo as coisas que deveria amar permaneceram distantes, como se pertencessem a uma versão de sua existência que jamais chegara verdadeiramente a existir — como lembranças incompletas de uma vida que ela nunca chegou a viver.

Também deveria haver um lobo. Quanto a isso, pelo menos, não restavam dúvidas. O encontro entre os dois havia sido escrito com tanta clareza que ninguém teria motivos para questioná-lo, muito menos para imaginar que poderia acontecer de uma outra forma. Isso, pelo menos, não fora alterado. A história dos dois havia sido escrita para ser daquelas capazes de mudar tudo ao redor. Seria inevitável, arrebatadora, inesquecível.

Mas as histórias, uma vez que começam, nem sempre permanecem fiéis aos próprios começos. Elas se dobram. Ela se quebram. Elas encontram bifurcações e desviam do caminho original. Elas aprendem, de maneiras que nenhum criador poderia prever, a se rebelar contra aquilo que inicialmente havia sido planejado para elas.

Em algum momento, o que um dia fora escrito como apenas mais uma história de amor começou a se transformar em algo completamente diferente — algo muito maior, muito mais caótico e difícil de conter. Já não era mais apenas a história de duas pessoas, mas de muitas. Não falava mais de um laço determinado pelo destino, e sim de vínculos forjados pela escolha, pela perda e pela insistência silenciosa daqueles que, apesar de tudo, se recusaram a abandonar uns aos outros.

O momento em que tudo mudou não veio acompanhado de nenhum grande espetáculo. Não houve sinais, avisos ou qualquer indício de que aquele seria o momento que, mais tarde, alteraria o curso de tudo. Ele chegou em silêncio, quase imperceptível, por meio de uma decisão que não cabia à maldita história ou a seus personagens decidirem.

Era a jovem dragão quem deveria ter entrado na floresta. No fim, porém, não foi ela quem escolheu aquele caminho.

Foi o dragão mais velho. Aquele que veio antes dela.

Esse único desvio de percurso — tão pequeno que, aos olhos de quem observasse de fora, pareceria insignificante — bastou para desfazer tudo o que a história original um dia deveria ter sido.

Às vezes, até mesmo a mão que deu início a uma crônica precisa parar, afrouxar os dedos da caneta e permitir que aquilo que ganhou forma siga por conta própria. Não porque tenha perdido o controle, mas por algo muito mais curioso: porque finalmente compreendeu que o que está se desenrolando diante de seus olhos pode se tornar muito maior do que aquilo que um dia ela já imaginou.

É aqui, portanto, que esta história começa.

Não onde deveria, mas onde escolheu começar.

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