Há muitos anos, surgiu cabeça da Venus de quatorze anos uma protagonista de história muito original: uma garota ruiva, branquela, azeda e habilidosa com arco e flecha.
Revolucionário, eu sei.
Ela morava num reino chamado Deeverland, tinha um cavalo chamado Apolo, um príncipe de cabelos negros como interesse amoroso e dois irmãos que funcionavam mais ou menos como seus sidekicks. Talvez houvesse uma profecia. Provavelmente existia algum tipo de “floresta amaldiçoada”. Não lembro. A verdade é que não havia um grande conceito por trás daquilo, apenas um amontoado de clichês de fantasia morando gratuitamente na cabeça de uma menina que gostava muito de contar e ler histórias.
Durante muito tempo, foi só isso. Uma ideia. Um rascunho esquisito abandonado em um Word, com algumas cenas desconexas e personagens que existiam sem saber exatamente o que deveriam fazer. E uma escrita que, para dizer com delicadeza, ainda precisava viver algumas vidas antes de estar pronta.
Mas a história não foi embora.
Enquanto eu crescia, estudava, fazia cursos e workshops, praticava minha escrita e inevitavelmente vivia todas as experiências terríveis que transformam alguém em escritora, aqueles personagens continuaram me acompanhando. Alguns conceitos mudaram completamente. Outros permaneceram comigo durante anos, esperando que eu finalmente soubesse o que fazer com eles.
Até que, em 2020, eu soube.
Ou, pelo menos, achei que sabia o suficiente para começar.
Naquele ano, sentei para transformar aquela ideia simples em alguma coisa que realmente pudesse chamar de universo. Foi assim que nasceu Epona: uma terra gêmea do nosso planeta Terra, atravessada por magia, máquinas, mitos esquecidos e conflitos muito humanos.
Criei um sistema de magia e seis grandes nações. Criei também suas culturas, religiões, estruturas sociais e disputas políticas. Criei o bioma, as criaturas, as espécies mágicas e as relações de poder que determinariam quem poderia viver livremente naquele mundo… e quem seria perseguido apenas por existir.
A protagonista clichê também mudou. Anika deixou de ser uma garota ruiva, magrela, branquela, mal-humorada e armada com um arco. Mudei sua aparência física e dei a ela contradições, medos, desejos, privilégios, feridas e falhas. Construí a história por trás de sua história. Encontrei maneiras de falar sobre preconceito, pertencimento, identidade, poder e inclusão sem transformar meus personagens em meros veículos para uma mensagem.
Eu queria ter alguma coisa a contar com o meu livro. Acho que, em algum momento, comecei a ter.
A arte imita a vida, afinal. Mesmo quando a arte se passa em outro planeta e envolve cavalos mágicos, tecnomagia e pessoas tomando decisões políticas absolutamente questionáveis.
Passei anos construindo Epona. O trabalho de worldbuilding só terminou, na medida em que algum universo realmente termina, em 2025.
Então comecei a escrever o livro em si.
Não existe maneira elegante de dizer isso.
Quando terminei o primeiro manuscrito, ainda em 2025, entreguei-o para Laetia, colega autora que conheci no Substack e que aceitou ser minha primeira leitora. (Laetia, querida, se você estiver lendo isso, saiba que você mudou a minha vida. Falo sério. Obrigada. OBRIGADA. Por tudo.)
Aquela versão tinha buracos no enredo, tramas frágeis, problemas estruturais e todas as cicatrizes naturais de um primeiro draft. Laetia teve acesso à história antes que o livro soubesse direito o que queria ser. Ainda assim, ela enxergou alguma coisa ali. Sua leitura foi essencial não apenas para que eu identificasse tudo o que precisava consertar, mas para que entendesse que, debaixo daquela bagunça, existia uma história boa. Uma história com potencial. Uma história que merecia uma versão melhor.
Depois das primeiras mudanças, Laetia se tornou uma das minhas beta readers, ao lado de Ana Rosa (sim, aquela Ana Rosa, que já apareceu duas vezes na coluna Cartografia do Desafeto e cujo nome na vida real não é verdadeiramente Ana Rosa). As duas foram fundamentais para que eu encontrasse as últimas peças que faltavam, aprofundasse os personagens e percebesse quais mudanças a trama ainda exigia de mim.
Dei um belo tapa na história. Ela não está terminada no sentido definitivo da palavra — suspeito que nenhum escritor já tenha olhado para o próprio livro e pensado “pronto, não alteraria mais absolutamente nada” sem estar mentindo. Mas chegou o momento em que continuar escondendo Epona dentro das minhas pastas deixou de parecer cuidado e começou a parecer medo.
Eu finalmente queria que outras pessoas lessem. Só havia uma pequena questão: como fazer as pessoas lerem um livro de fantasia escrito por uma autora brasileira desconhecida?
Ser escritor no Brasil já não é exatamente uma decisão conhecida por trazer estabilidade financeira, serenidade ou plano odontológico. Para uma autora de fantasia, então, o cenário consegue ser ainda mais simpático.
Não basta escrever um bom livro. Você precisa ter uma carreira consolidada, dinheiro para investir na publicação, um agente literário, uma comunidade enorme ou disposição para se transformar em influenciadora e convencer o algoritmo do TikTok de que sua existência merece ser descoberta. E, mesmo quando consegue chamar a atenção de uma editora, encontra uma crença bastante conhecida no mercado editorial: fantasia nacional não vende.
Fantasia vende quando vem de fora, preferencialmente depois de já ter se tornado um fenômeno lá fora. Para publicar uma fantasia nacional, o conselho é não inventar uma saga, não escrever um livro muito grande e tentar condensar tudo em um volume único de, no máximo, 240 ou 300 páginas. Foi isso que ouvi de um editor, pelo menos.
Isso mesmo, caro leitor. Você não leu errado. Um editor-chefe de uma editora nacional falou isso na minha cara.
Foi aí que eu fiquei me perguntando: que história de fantasia cabe confortavelmente nisso? Como apresentar um mundo inteiro, suas nações, povos, conflitos políticos, sistemas de magia e personagens em duzentas páginas, e ainda contar uma história que tenha tempo de respirar?
Talvez até seja possível, mas não era essa a história que eu queria contar. Então pensei: se o segredo é ir para a gringa, vou escrever essa porra em inglês e tentar minha sorte lá fora.
A versão em inglês de As Crônicas de Epona encontrou cerca de trinta beta readers: vinte e sete nos Estados Unidos, dois na Austrália e um no Canadá. Esses leitores foram fundamentais para que eu percebesse até onde poderia levar o enredo, quais partes do universo precisavam de mais espaço e quais emoções já conseguiam atravessar fronteiras sem precisar de tradução. Mais do que leitores, encontrei os primeiros fãs de TCOE — apelido carinhoso que deram a The Chronicles of Epona.
Essas pessoas se apegaram aos meus personagens. Criaram teorias, torceram por Anika e seus amigos, sofreram, fizeram perguntas e guardaram aquelas vidas inventadas dentro delas. Essas pessoas me mostraram que eu havia conseguido tocar alguém com uma história que nem sequer tinha sido publicada oficialmente. Eu sempre serei grata a cada um deles por isso.
Essa trajetória também explica uma escolha que provavelmente renderá perguntas: os nomes dos personagens, nesta saga, vêm de origens muito diferentes. Em Epona, você encontrará um Jonathan, uma Maria, uma Himari e vários outros nomes que talvez não pareçam pertencer ao mesmo lugar.
E não parecem porque Epona não é um país. É outro planeta, formado por povos, culturas e nações diferentes. Essa diversidade é proposital. Não existe uma única convenção linguística capaz de representar um mundo inteiro, e eu não tenho o menor interesse em fingir que existe. Portanto, já adianto: eu sei, caro leitor. Sim, eu pensei nisso. Foi de propósito. E eu não me importo nem um pouco se vierem críticas com relação a isso. Beijo, me liga.
Por algum tempo, tentei publicar TCOE como uma webnovel em inglês. Nas principais plataformas, como Royal Road e Webnovel, no entanto, encontrei um nicho ainda bastante dominado por LitRPG, por protagonistas masculinos construídos como fantasias de poder e, em determinados espaços, por uma hostilidade impressionante a qualquer história que ouse incluir mulheres complexas, pessoas queer, discussões sobre racismo ou basicamente qualquer minoria existindo sem pedir desculpas. Ou seja: tudo aquilo que constitui a essência de As Crônicas de Epona parecia ser exatamente o que parte daquele público não queria encontrar.
Eu poderia modificar a história para caber naquele mercado, mas não quis. Mais uma vez, fiquei sem saber onde colocá-la.
Enquanto isso, voltei a escrever outras coisas em português. Criei minhas colunas no Substack, publiquei crônicas, artigos, comecei a falar de minhas desventuras amorosas, opiniões, surtos e análises extensas de acontecimentos que talvez não merecessem tantas palavras.
E então, Retrógrada cresceu.
No momento em que escrevo este texto, somos mais de 620 pessoas por aqui. Entre elas, quatro decidiram apoiar financeiramente meu trabalho — não porque eram obrigadas, mas porque encontraram algum valor no que escrevo. E foi aí que percebi que se eu finalmente mostraria Epona para alguém, deveria começar pelas pessoas que já escolheram acreditar na minha escrita.
Foi assim que TCOE atravessou idiomas, plataformas, rascunhos, leitores e continentes até vir parar aqui.
Na internet. De novo. Mas, desta vez, em casa.
Tenho. Pra caralho. A diferença é que hoje eu não permito mais que esse medo mantenha minha história trancada.
No Brasil, uma obra intelectual é protegida pelo direito autoral desde a sua criação; o registro não é obrigatório para que essa proteção exista. A lei protege a forma concreta da obra — seu texto, seus personagens desenvolvidos, suas cenas e a construção original daquele universo —, e não apenas uma ideia abstrata como “uma garota ruiva com arco e flecha”. O registro formal é facultativo, mas pode servir como uma prova importante de autoria e titularidade.
Além disso, tenho anos de documentação: versões do manuscrito, fichas de personagens, arquivos de worldbuilding, históricos de edição, leituras enviadas a outras pessoas e documentos datados muito antes desta postagem. Cada capítulo publicado aqui também passa a ter uma data pública associada a ele. Isso não torna plágio impossível, é óbvio. Mas torna muito difícil alguém fingir que criou antes de mim uma história cujo processo inteiro eu consigo reconstruir documentalmente.
Em termos menos jurídicos: se alguém copiar meus personagens, meu texto ou meu universo e tentar publicá-los como se fossem seus, vai tomar no cu bonito arrumar um problema do tamanho de Epona.
A partir de agora, os capítulos de As Crônicas de Epona serão publicados gradualmente aqui em Retrógrada e ficarão disponíveis para assinantes pagos.
A assinatura custa R$ 5 no plano mensal ou R$ 30 no anual.
Além de apoiar diretamente meu trabalho como escritora independente, os assinantes terão acesso à saga e poderão acompanhar a história enquanto ela ganha vida — comentando, criando teorias, escolhendo seus personagens favoritos e provavelmente desenvolvendo algum ódio pessoal por personagens que causarão dor de cabeça sem sequer aparecerem diretamente até o capítulo 30.
Mas quero deixar uma coisa muito clara: esta newsletter é gratuita e continuará sendo.
Ninguém é obrigado a assinar nada. Além da coluna Cartografia do Desafeto, as minhas crônicas, artigos, reviews e principais textos continuarão disponíveis gratuitamente. A única seção protegida pela assinatura será As Crônicas de Epona, por ser minha obra literária mais extensa, ambiciosa e preciosa.
Se vocês quiserem embarcar nessa jornada comigo, ficarei imensamente feliz em ter vocês entre os primeiros leitores da saga. Se não puderem ou simplesmente não quiserem se tornar assinantes pagos, tudo bem também. Vocês todos continuarão sendo muito bem-vindos por aqui.
Peço apenas um pouco de paciência com os elementos visuais da história. Tudo o que vocês verão em As Crônicas de Epona será produzido por artistas de verdade.
Eu me recuso a usar IA generativa (que NÃO é arte de verdade, e um belo de um vai tomar no cu para todo mundo que discordar) para criar meus personagens, minhas ilustrações ou o mapa de Epona. A arte visual da saga está sendo desenvolvida por Mavi Fonseca, minha prima, designer e uma das maiores apoiadoras deste projeto desde o princípio. O processo leva tempo justamente porque existe uma pessoa real do outro lado pesquisando, desenhando, testando, refazendo e transformando em imagem um mundo que, até agora, só existia nas minhas palavras.
Você pode conhecer o trabalho da designer de TCOE no Instagram: @maraviilhosa_.
Agora, depois de todos esses anos, surtos com diferentes versões, lágrimas, noites maldormidas, cursos, oficinas, crises, leitores enchendo meu saco (com razão), continentes criados e desfeitos e documentos perdidos nas profundezas do Google Drive… acho que finalmente posso apresentar Epona.
A seguir, você encontrará a sinopse, as principais informações sobre a saga e tudo o que precisa saber antes de entrar nesse mundo.
Os portais estão abertos.
Quando um império constrói seu poder sobre sangue e silêncio, sempre chega o dia em que alguém ateia fogo às cinzas. Esse alguém é Anika Ashton.
Em Epona, um mundo dividido entre clãs mágicos e os impérios que tentam controlá-los, Anika é uma jovem de vinte anos, marcada por cicatrizes e considerada Mundana. Sobrevivendo como uma ladra nas ruas industriais da cidade de Vestigia, ela carrega um segredo que ainda não compreende.
Tudo o que ela deseja é encontrar seu pai, que está desaparecido. Em vez disso, sua busca a arrasta para uma aliança obscura entre governantes implacáveis e um clã elemental poderoso o suficiente para derrubar nações. À medida que descobre por que seu pai foi silenciado, Anika desperta um poder ancestral capaz de incendiar reinos.
Entre rebeldes, assassinos e párias, ela encontra uma família pela qual vale a pena morrer. Cercada por inimigos e traidores, Anika precisa escolher: sobreviver em silêncio ou reduzir um império a chamas.
Uma protagonista feminina em uma jornada épica de fantasia sombria.
Tropo found family: um vínculo incomum forjado entre rebeldes e assassinos, todos unidos pela sobrevivência.
Progressão lenta (slow burn): esta não é uma história de ritmo acelerado. As tramas de poder, subtramas romance e revelações de enredo se desenvolvem gradualmente. Se você não tiver paciência para uma longa jornada, este livro não é para você.
Múltiplos POVs: a história é contada por um narrador onisciente em terceira pessoa. Embora cerca de 70% a 80% da narrativa acompanhe a perspectiva de Anika, em determinados momentos também mergulharemos nos pontos de vista de outros personagens importantes.
Subtramas românticas: embora o romance em si não seja o enredo principal, diversas relações intensas (incluindo as da protagonista) serão exploradas ao longo da história. Isso inclui dinâmicas LGBTQIA+ (yuri) e um triângulo amoroso entre dois homens e uma mulher.
Avisos de gatilho: Esta história contém cenas de sexo explícito (smut), mas esse não é o foco do livro. A trama é, acima de tudo, sobre fantasia, aventura e relacionamentos. No entanto, como se trata de uma história adulta com romance, quero deixar claro desde o início que essas cenas estarão presentes. Ao longo do caminho, vocês também poderão encontrar alguns momentos levemente picantes. Além disso, a história contém violência gráfica, sangue e morte. Nada além do que se esperaria de uma fantasia sombria, mas as batalhas são descritas em detalhes e algumas mortes são retratadas de maneira explícita. Prefiro deixar o aviso aqui a pegar alguém desprevenido.
Se você curte Mistborn (rebelião contra impérios e uma protagonista descobrindo o próprio poder), Fullmetal Alchemist (magia proibida, segredos sombrios e tropo found family) ou Arcane (estética steampunk, intrigas políticas e vínculos improváveis), provavelmente se sentirá em casa aqui.
A história também apresenta um triângulo amoroso inspirado pela profundidade emocional de Herongraystairs, de As Peças Infernais, no qual devoção e conflito se entrelaçam sem cair em clichês.
Comece a leitura por aqui:
✦ As Crônicas de Epona ✦
Que Comecem as Crônicas
·
Aug 19
Algumas histórias nascem simples. Sabem desde o início aonde precisam chegar e seguem, obedientes, o caminho traçado para elas pela mão que as criou. Esta deveria ter sido uma dessas histórias.

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