Uma frase improvisada sobre a Guerra do Paraguai de 1864 reacendeu uma ferida histórica no país vizinho, e o tamanho da reação em Assunção diz muito sobre o problema que a nova direita regional está preparando para o Brasil.
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Boa leitura!
Durante uma visita à Avibras, fabricante de equipamentos de defesa em Jacareí, Lula defendia mais investimento na indústria militar brasileira quando recorreu a um exemplo histórico que lhe pareceu conveniente. “A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina”, afirmou. Para uma plateia brasileira, aquilo funcionava como um argumento corriqueiro sobre a importância de manter as Forças Armadas equipadas, e teria se dissolvido no noticiário comum se, do outro lado da fronteira, o mesmo episódio não fosse tratado como matéria-prima da própria identidade nacional.
A resposta paraguaia veio rápida e num tamanho que superava em muito o da frase. A Câmara dos Deputados de Assunção aprovou por unanimidade uma nota de repúdio acusando o presidente brasileiro de distorcer e minimizar a dimensão histórica da Guerra da Tríplice Aliança, e alguns parlamentares aproveitaram para cobrar de novo a devolução do canhão “Cristiano” e de outros troféus levados pelo Brasil no século XIX. O chanceler Rubén Ramírez Lezcano convocou o embaixador brasileiro, José Antônio Marcondes de Carvalho, para receber uma nota oficial de protesto nesta sexta-feira 31, em reunião com a presença do vice-presidente Pedro Alliana. Santiago Peña, por sua vez, telefonou pessoalmente para Lula para tratar do assunto. Considerando que tudo nasceu de um improviso dito dentro de uma fábrica de armas, a máquina diplomática acionada em Assunção chama bastante atenção, e é justamente essa desproporção que interessa analisar.
O que a história de fato registra
Convém começar reconhecendo o óbvio: Lula não inventou a invasão. Francisco Solano López realmente iniciou as hostilidades. Depois que o Brasil invadiu o Uruguai em 1864 para derrubar o governo dos Blancos e instalar no poder os Colorados de Venancio Flores, López apreendeu no rio Paraguai o vapor brasileiro Marquês de Olinda, que levava a bordo o novo presidente da província de Mato Grosso, e em dezembro daquele ano lançou suas tropas sobre o território mato-grossense, tomando o Forte de Coimbra e ocupando Corumbá. No ano seguinte pediu passagem pela província argentina de Corrientes para atingir o Rio Grande do Sul, teve o pedido negado por Bartolomé Mitre e mesmo assim invadiu Corrientes em abril de 1865, o que arrastou a Argentina para a guerra e resultou no Tratado da Tríplice Aliança, assinado em 1º de maio daquele ano por Brasil, Argentina e o Uruguai já sob comando colorado.
Até aqui, a fala presidencial encontra respaldo documental. O problema está no que ela apaga e no que ela inverte. A frase descreve um Paraguai que teria acordado belicoso “um belo dia”, como se o conflito brotasse do nada e da vontade isolada de um vizinho agressivo, quando toda a historiografia séria das últimas décadas localiza as origens da guerra na disputa pelo controle da Bacia do Prata. Em Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai, hoje a principal referência acadêmica sobre o tema, Francisco Doratioto demonstra que a política externa expansiva de López aproximou Assunção do Partido Blanco uruguaio exatamente contra os interesses de Brasil e Argentina, e que foi a intervenção militar brasileira no Uruguai, alterando o equilíbrio regional, que empurrou o líder paraguaio para a ofensiva. Luiz Alberto Moniz Bandeira já havia mostrado, em O expansionismo brasileiro, como a diplomacia imperial cultivava desde os tempos coloniais um projeto de projeção sobre o Prata, disputando com Buenos Aires a hegemonia sobre os territórios que gravitavam em torno dos rios Paraná e Paraguai. Ler a guerra por essa chave permite enxergar o Brasil como uma das potências regionais que ajudaram a montar o barril de pólvora, ao intervir militarmente em Montevidéu meses antes de qualquer tiro paraguaio, o que dissolve a imagem cômoda de um país apenas arrastado a contragosto para um conflito alheio.
Há ainda um detalhe que torna a fala especialmente infeliz, e vale destacá-lo porque ilustra como a memória oficial brasileira acostumou-se a contar essa história pela metade. Ao afirmar que o Paraguai “invadiu o Uruguai”, Lula troca as posições de agressor e agredido no único ponto em que o Brasil foi o interventor. Quem cruzou a fronteira uruguaia em 1864 foram as tropas imperiais brasileiras, e foi essa intervenção que desmontou o eventual aliado de López e disparou o efeito dominó. A historiografia que Doratioto ajudou a consolidar faz questão de recuperar aquilo que a tradição imperial preferia esquecer, isto é, o protagonismo argentino na vitória e as críticas duras à condução de comandantes brasileiros. Repetir hoje a versão simplificada, em que o Paraguai é o único culpado e os vizinhos apenas se defenderam, significa reproduzir uma narrativa que serviu à monarquia e que a própria academia brasileira já superou.
Essa perspectiva ganha ainda mais densidade quando se olha para o que a guerra significou dentro do próprio Brasil, e é aqui que a historiografia crítica brasileira mais tem a contribuir. Wilma Peres Costa, em A espada de Dâmocles, mostra como o esforço de guerra escancarou as disfunções estruturais da ordem monárquica e escravista, forçando a construção apressada de um exército nacional que sairia do conflito profissionalizado, consciente de si e cada vez mais distante da monarquia e da escravidão, num processo que ajuda a explicar a erosão política que desembocaria na proclamação da República em 1889. Ricardo Salles, em Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército, aprofunda o quadro ao analisar como o recrutamento de escravos e libertos para os campos de batalha jogou para o centro da vida imperial a contradição de uma nação que convocava homens negros para morrer por ela enquanto os mantinha cativos. Vale sublinhar que nenhum desses autores precisa recorrer à tese do complô britânico para sustentar uma leitura crítica, porque a responsabilidade do Estado imperial brasileiro, expansionista para fora e escravista para dentro, salta das próprias fontes documentais.
Nada disso obriga a abraçar o extremo oposto, aquele revisionismo que, a partir dos anos 1960, transformou Solano López em herói anti-imperialista e a Tríplice Aliança em mera fantoche dos interesses britânicos, tese que Doratioto desmonta com fontes documentais ao mostrar que a Grã-Bretanha se beneficiou do conflito sem tê-lo provocado. O ponto é mais sóbrio e mais desconfortável para todos os lados. A guerra foi um produto das rivalidades de poder na região, com responsabilidades distribuídas entre López, o Império brasileiro e a Argentina de Mitre, e o resultado foi a maior catástrofe demográfica da história sul-americana.
Uma ferida que não cicatrizou
É essa catástrofe que explica por que uma frase dita em Jacareí produz nota de repúdio unânime em Assunção. As estimativas mais repetidas falam em perda de cerca de 70% da população paraguaia, e a demografia histórica passou décadas discutindo o número. Vera Blinn Reber sustentou, em artigo de 1988 na Hispanic American Historical Review, que as cifras tradicionais estavam enormemente exageradas, enquanto Thomas Whigham e Barbara Potthast, cruzando um recenseamento paraguaio de 1870 redescoberto no fim dos anos 1980, calcularam no estudo The Paraguayan Rosetta Stone, publicado em 1999 na Latin American Research Review, que a população despencou de algo entre 420 mil e 450 mil habitantes antes da guerra para uma faixa de 140 mil a 166 mil, uma perda de 60% a 69% que confirma a dimensão de hecatombe do episódio. Qualquer que seja o percentual exato dentro desse intervalo, o Paraguai emergiu de 1870 arrasado, com sua população masculina devastada e seu projeto de desenvolvimento autônomo interrompido para sempre. Para os paraguaios, aquela guerra funciona como o trauma fundador que organiza boa parte da narrativa nacional, e o Brasil ocupa, nessa memória, o lugar do gigante que ajudou a destruir o vizinho. Pedir que tratem o assunto com o desapego de quem comenta uma batalha encerrada em 1870 seria ignorar como a memória coletiva de um povo funciona.
Justamente por isso a fala foi um erro, e um erro tanto mais grave por partir de um governo que se apresenta como defensor da integração regional e do respeito aos países menores do continente. Um presidente que faz da autonomia latino-americana bandeira de política externa não pode se dar ao luxo de reciclar, mesmo que por descuido retórico, a versão imperial de uma guerra que ainda dói do outro lado da fronteira.
O que a “crise” esconde
E aqui chegamos ao que realmente importa nesta história, porque a distância entre o tamanho da gafe e o tamanho da reação não se explica só pela sensibilidade histórica dos paraguaios. Ela se explica pelo momento político do continente. Basta olhar o estado concreto das relações entre os dois países para perceber que a suposta crise flutua sobre uma base de cooperação profunda e antiga. O Brasil é o principal parceiro comercial do Paraguai e a maior origem de investimento estrangeiro no país. Os dois Estados administram juntos Itaipu, a hidrelétrica binacional que responde por cerca de 8,6% de toda a energia consumida em território brasileiro, e estão em plena renegociação do Anexo C do tratado de 1973, um acerto bilionário que, a partir de 2027, deve reduzir a tarifa cobrada do consumidor brasileiro para algo entre dez e doze dólares por quilowatt e liberar o excedente paraguaio para o mercado livre do Brasil. Foi Lula, aliás, quem retomou essas negociações depois que elas emperraram por causa das denúncias de espionagem da Abin contra autoridades paraguaias durante o governo Bolsonaro.
A relação pessoal entre os dois presidentes reforça o contraste. Em junho, na cúpula do Mercosul em Assunção, o próprio Peña creditou a Lula o papel decisivo no fechamento do acordo entre o bloco e a União Europeia e o descreveu como um dos líderes globais mais importantes da atualidade. Peña é um economista de direita, próximo do ex-presidente Horacio Cartes, alinhado à agenda de mercado que hoje domina boa parte do continente, e ainda assim escolheu, ao longo de dois anos, tratar o Brasil de Lula como parceiro estratégico. Nada nesse histórico sugeria uma ruptura, e nada na estrutura econômica que une os dois países justifica transformar um deslize verbal em incidente de Estado.
O que mudou foi o entorno. A América do Sul de 2026 é um território em que a esquerda perdeu terreno de forma acelerada e no qual uma nova direita, sintonizada com o trumpismo, ocupa cada vez mais palácios presidenciais. Javier Milei governa a Argentina prometendo tirar o país do Mercosul e transformou cada cúpula do bloco em palco de ataques a Lula. Em março, José Antonio Kast tomou posse no Chile como o presidente mais à direita desde a ditadura de Pinochet, numa cerimônia que reuniu Milei, o boliviano Rodrigo Paz, o equatoriano Daniel Noboa, o subsecretário de Estado norte-americano Christopher Landau e a venezuelana María Corina Machado, com Flávio Bolsonaro na plateia. Some-se a isso o Equador de Noboa e a Bolívia que virou à direita, e o mapa que se desenha ao redor do Brasil é o de um continente onde a agenda progressista de integração regional foi ficando ilhada. Analistas já falam abertamente em isolamento de Lula na vizinhança, e o próprio presidente reconheceu o problema quando, na abertura daquela cúpula, afirmou que os países latino-americanos não devem se alinhar automaticamente, numa referência transparente ao avanço da extrema direita.
É nesse tabuleiro que a fala sobre a Guerra do Paraguai deixa de ser um episódio historiográfico e se converte em munição. Setores da oposição paraguaia e da direita brasileira encontraram na gafe um presente, uma oportunidade de retratar Lula como um governante descuidado que transforma improvisos em crises internacionais e, de quebra, de abrir mais uma frente de atrito com Brasília. Do lado de cá, essa dinâmica se soma à ofensiva mais ampla que venho acompanhando nesta newsletter, a das tarifas de Trump atreladas ao julgamento de Bolsonaro, a da investigação da Seção 301 mirando o Pix, e até a do consulado norte-americano em São Paulo mobilizando influenciadores anti-Lula. A briga em torno de 1864 é uma peça pequena de um esforço coordenado e muito maior, cujo objetivo é enfraquecer o Brasil como polo de um projeto autônomo para a região e alinhar a América do Sul aos interesses de Washington.
O recado para 2027
Tudo isso ajuda a enxergar algo que a agenda eleitoral brasileira tende a subestimar. Mesmo que Lula vença a reeleição em 2026, e mesmo que consiga recompor a economia e neutralizar as pressões internas, ele governará a partir de 2027 uma América do Sul substancialmente mais hostil do que a que encontrou em seus mandatos anteriores. O petista construiu boa parte de seu capital internacional na imagem de articulador regional, o homem capaz de sentar líderes divergentes à mesma mesa e costurar consensos, e foi assim que ajudou a fechar o acordo Mercosul-União Europeia. Só que a matéria-prima desse ofício, a existência de interlocutores dispostos à integração, está se esgotando à medida que Milei, Kast e seus pares transformam o multilateralismo em alvo preferencial de seus discursos.
O episódio com o Paraguai, visto por essa lente, funciona como um ensaio geral. Uma frase que em outro momento teria rendido no máximo uma correção diplomática discreta ganha status de crise porque há, agora, atores com interesse ativo em fabricá-la. Se um governo genuinamente amistoso como o de Peña, ligado ao Brasil por Itaipu, pelo comércio e por dois anos de convivência cordial, se vê pressionado a convocar embaixador e aprovar moções de repúdio, imagine o que espera Lula no trato com adversários declarados.
A lição que fica é dura e pouco animadora para quem aposta na integração latino-americana, porque ela indica que o próximo mandato, caso venha, será menos sobre avançar uma agenda progressista para a região e mais sobre defendê-la de um cerco que se fecha por todos os lados. Cabe ao governo brasileiro, no mínimo, parar de entregar de graça a seus adversários o pretexto para apertá-lo, e isso começa por não repetir, num palanque qualquer, as narrativas imperiais que a própria história já se encarregou de desmentir.
Fontes:
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O expansionismo brasileiro: o papel do Brasil na Bacia do Prata, da colonização ao Império. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1985.
BRASIL DE FATO. “Cúpula do Mercosul: Lula vai ao encontro no Paraguai na disputa por manter integração regional” (29/06/2026) e “Lula observa avanço da extrema direita e busca construir consensos no Mercosul” (01/07/2026).
CARTA CAPITAL. “José Antonio Kast, de ultradireita, toma posse como presidente do Chile” (11/03/2026).
CNN BRASIL. “Após meio século, Brasil e Paraguai fecham novo acordo por energia de Itaipu”.
CORREIO BRAZILIENSE. “Paraguai reage à fala de Lula e convoca embaixador brasileiro” (30/07/2026).
COSTA, Wilma Peres. A espada de Dâmocles: o exército, a Guerra do Paraguai e a crise do Império. São Paulo: Hucitec; Campinas: Editora da Unicamp, 1996.
DF MOBILIDADE. “Lula, Paraguai e Milei: Mercosul vira palanque eleitoral”.
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
METRÓPOLES. “Guerra do Paraguai: o que Lula disse e por que paraguaios se irritaram” e “Após fala de Lula sobre guerra, Paraguai convoca embaixador brasileiro” (30/07/2026).
O TEMPO. “Fala de Lula sobre Guerra do Paraguai gera tensão com o país vizinho” (30/07/2026).
PODER360. “Presidente do Paraguai credita Lula por acordo Mercosul-UE” (30/06/2026), “Peña liga para Lula e Paraguai convoca embaixador brasileiro” (30/07/2026) e “José Antonio Kast toma posse como presidente do Chile” (11/03/2026).
REBER, Vera Blinn. “The Demographics of Paraguay: A Reinterpretation of the Great War, 1864–1870”. Hispanic American Historical Review, v. 68, n. 2, 1988.
REVISTA BRASILEIRA DE POLÍTICA INTERNACIONAL (RBPI/SciELO). Resenha de “Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai”. SALLES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
WHIGHAM, Thomas; POTTHAST, Barbara. “The Paraguayan Rosetta Stone: New Insights into the Demographics of the Paraguayan War, 1864–1870”. Latin American Research Review, v. 34, n. 1, 1999.
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