Na semana passada, assisti ao filme ‘O Convite’ sem saber absolutamente nada sobre o que falaria a narrativa, e essa foi provavelmente a melhor decisão que tomei antes de entrar na sala.
Fui pega de surpresa em vários momentos, e uma das coisas que mais me marcou foi o tanto de risadas que ouvi no cinema. Acho que fazia tempo que eu não ouvia tantas pessoas gargalhando em um filme.
A narrativa ficou comigo depois que saí da sala, e pensei em olhar pra ela através de algumas cartas de tarot, dessa vez focando nos personagens e nas dinâmicas entre eles.
Vale o adendo de que não sou taróloga nem especialista em tarot, estou só no processo de aprender mais sobre as cartas, e pensar nos arcanos ligados a narrativas tem me ajudado bastante nesse caminho.
Antes de prosseguir para os arcanos, veja um trailer do filme (caso ainda não tenha assistido):
Vamos lá!
Enquanto a Angela, interpretado pela Olivia Wilde (atriz e diretora do filme), se prepara com uma certa animação e ansiedade para o jantar, comprando diversos queijos e frios, o seu marido Joe, interpretado pelo ator Seth Rogen, não foi atrás nem de um vinho e deseja cancelar o jantar com os vizinhos convidados poucos minutos antes do horário combinado.
À primeira vista, os anfitriões parecem a personificação do Rei e da Rainha de Copas. Eles recebem os convidados com uma certa simpatia, preocupação e uma disposição para iniciar o jantar. Mas, como acontece com muitos arquétipos do Tarô, basta um pequeno deslocamento para que a luz comece a revelar também a sombra.
Nesse sentido, o Rei de Copas com uma Rainha de Copas surgem como dois naipes emocionais tentando controlar o próprio transbordamento, alguém que quer manter a calma da água e alguém que sente tudo em ondas. É uma dobra da mesma carta, dois jeitos de lidar (ou não lidar) com o transbordar de sentimentos.
Já o casal que chega depois traz uma combinação completamente diferente: uma Rainha de Paus e um Rei de Ouros. Ela entra irradiando a energia do fogo, sendo visivelmente magnética, expansiva e dona de uma confiança que contagia o ambiente.
Interpretada por Penélope Cruz, Piña parece quebrar a solenidade da noite apenas com a própria presença. É espontânea, calorosa, divertida e confortável em ocupar espaço, como a Rainha de Paus.
Ao seu lado, Hawk, que é interpretado por Edward Norton, representa a solidez do Rei de Ouros. Não precisa disputar atenção nem conduzir a conversa para transmitir autoridade. Sua presença é discreta, mas segura; alguém que parece plenamente confortável consigo mesmo independente do que está acontecendo ao seu redor.
Enquanto ela movimenta a energia da sala, ele observa tudo que está acontecendo e continua mantendo a calma, formando um casal que combina entusiasmo e estabilidade.
Logo dá para sentir logo que essa dupla destoa dos anfitriões. Se o casal da casa parece habitar o universo das Copas, das emoções e do transbordar de memórias, os vizinhos chegam trazendo fogo e terra, em um relacionamento menos voltado ao discurso emocional e mais conectado à experiência concreta da vida.
O casal que chega à casa parece caminhar sob o arcano dos Enamorados. Não apenas pelo vínculo amoroso entre os dois, mas pelo que essa carta realmente representa: uma escolha capaz de reorganizar a realidade. A presença deles rompe a estabilidade do apartamento e inaugura uma nova dinâmica.
Já o casal anfitrião parece viver sob a influência do Pendurado. Há neles uma sensação de suspensão, como se estivessem presos a uma mesma visão de mundo, sendo incapazes de seguir adiante sem antes ressignificar aquilo que vivem.
O Pendurado é o arcano da pausa, da entrega e da mudança de perspectiva, um estado que antecede qualquer mudança mais profunda e verdadeira.
É justamente o encontro com os Enamorados que rompe essa estagnação. Aos poucos, o casal da casa parece ser atraído pela mesma energia de escolha e entrega, como se passasse a enxergar uma nova possibilidade de existência.
A partir das trocas, ambos os casais deslizam em direção à Morte. Não como um símbolo de fim, mas como o arcano das metamorfoses inevitáveis: aquilo que precisa morrer para que outra forma de viver possa nascer.
Joe parece viver entre o Cinco de Copas e A Lua. O Cinco de Copas aparece naquilo que ele nunca conseguiu atravessar completamente, como uma ferida que permanece aberta moldando sua forma de existir. Sempre que fica a sós com os próprios pensamentos, é esse luto que o encontra.
Porém, diante dos outros, essa dor nunca se apresenta de forma muito direta. Ela se dissolve na névoa de A Lua, arcano das ambiguidades, das ilusões e das verdades apenas parcialmente reveladas. O que ele sente está sempre encoberto, como se houvesse uma distância entre o real vivido e o que ele demonstra ao mundo.
Angela, por sua vez, transita entre os arcanos O Mago e O Julgamento. Enquanto conduz a noite, organiza os acontecimentos e parece tentar manter cada detalhe sob controle, veste a energia do Mago: a figura que mobiliza recursos, direciona as ações e faz a realidade seguir um determinado curso.
Mas existe uma força que escapa até mesmo ao seu controle. Em certo momento, a condução deixa de bastar e ela é atravessada pelo chamado do Julgamento, que é o arcano do despertar, do acerto de contas com o passado e do instante em que já não é mais possível permanecer na mesma estrutura. É quando o que estava engavetado precisa ser reconhecido, e uma nova revelação vem à tona.
Mais do que uma história sobre dois casais que se encontram para um jantar, o filme parece colocar diferentes arquétipos na mesma mesa e observar o que acontece quando eles passam a interagir entre si.
Assim como o tarot traz diversos arcanos que contam uma história em constante mudança, o cinema em geral costuma mostrar personagens em transformação.
E talvez seja por isso que a carta da Morte seja a que mais ecoa depois que saí da sala. Não pela ideia de fim, mas pela lembrança de que algumas versões de nós precisam desaparecer para que outras possam surgir.
E o que sobra quando o ‘eu’ que conhecemos precisa partir? Como a versão transformada do outro também pode impactar a relação?
Você já viu o filme? Se tiver pensado em outros simbolismos ou quiser que eu fale de algum outro filme, é só comentar aqui. Vou amar saber!
Muito obrigada pela sua companhia :)
Um beijo e até a próxima,
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