houve um tempo em que eu pensei em desistir da poesia. quando eu olhava pra janela, e via só janela, até que apareciam as nuvens se movendo e eu acaba me movendo junto com elas por horas e horas mesmo continuando deitada paralisada na cama.
e logo lembrei de quando Adélia prado disse no seu poema ‘Paixão’:
‘De vez em quando Deus me tira a poesia. / Olho pedra, vejo pedra mesmo.’
mas as nuvens parecendo peixes nadam no céu. e de repente me vejo saindo do risco de me afogar. eu começo a nadar com eles.
os peixes me levam até a palavra.
a palavra que por vezes pode ser encontrada caindo do céu, mas em outras vezes precisamos buscá-la incansavelmente dentro de gavetas, escondida nas entrelinhas em cadernos empoeirados. a palavra que precisa ser pescada ou descamada, feito peixe que pode escapar rapidamente das nossas mãos.
meu pai nunca aprendeu a nadar, mas ama comer peixe com arroz, peixe com baião, peixe com farofa, peixe com tapioca. peixe assado, cozido, ao molho.
minha mãe querendo agradá-lo passava horas limpando e descamando os peixes. passava uma manhã inteira na cozinha reclamando que peixe é muito difícil pra limpar, que é preciso ter cuidado pra ele não se desmanchar todo na panela e que, até depois de fazer a comida, ainda é muito trabalho pra limpar tudo na cozinha. minha mãe dizia
‘Carlos, traz o filé de peixe pronto, descamar leva muito tempo’.
e eu ficava me perguntando quanto tempo leva até ter a palavra em mãos. quanta atenção é necessário ter pra que ela não se perca entre os dedos? eu não sei dizer o quanto tudo isso toma espaço por toda a casa.
mas pensei novamente não quero mais pensar em poesia, ruminei me importar tanto com algo que ninguém liga.
pensei muito nas palavras que morrem assim que são escritas, e nos poemas que são ciclos infinitos de morte e vida. e nos livros de poemas publicados que poucas pessoas leem.
lembrei então do conselho tão doloroso que ouvi ‘se você quiser ser lida, escreva prosa, poesia não vende no Brasil. veja os autores de prosa, eles vendem muito mais do que os de poemas. quem escreve poesia não ganha dinheiro nem fama’. e eu pensei que nunca tinha nem pensado nisso. que loucura
mas eu quero escrever pra ganhar dinheiro e fama ou quero continuar escrevendo simplesmente porque preciso escrever independente do que vier em troca?
aliás, eu quero escrever ou isso sempre acaba se tornando uma necessidade que vai além do meu querer na rotina?
eu dei o primeiro passo na poesia quando foi? foi quando eu tinha que me apresentar na escola com alguma performance, canção ou peça, e escolhi simplesmente ler um poema de vinícius de Moraes pra uma plateia de crianças de 7 anos e adultos?
‘De tudo, ao meu amor serei atento / Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto / Que mesmo em face do maior encanto / Dele se encante mais meu pensamento.’
ou eu li Drummond dizendo ‘Mundo, mundo, vasto mundo, / mais vasto é meu coração’.
eu lembro que quando acabei de ler nem olhei pra ver se alguém ouviu ou prestou atenção, porque ler em voz alta esses versos me tocou tanto, que por dentro já fez todo o sentido recitá-los.
eu fechei os olhos e senti que ter lido e ouvido aquelas palavras já era mais do que suficiente pra mim. os versos me tiraram o medo da plateia. de repente era só eu e a poesia. foi como descobrir um novo mundo.
talvez eu tenha dado o primeiro passo tal como o louco no tarot com um fiel cachorro ao lado e um abismo logo à frente quando eu podia escrever pra concorrer a um prêmio na escola e recebi a premiação de melhor poesia aos 9 anos. tão perto da morte da minha vó, logo a pessoa que me inspirou desde cedo a aprender com as flores, a amar os jardins, a dar voltas com as linhas, a amar os chás antes de dormir e a ouvir o canto dos pássaros ao amanhecer.
‘Bem-te-vi, você ouve, Priscilla? Bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi aqui perto’. agora minha cabeça parece girar até desaparecer com todas essas lembranças.
‘E assim, quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama’
até que tive um sonho que eu chegava em um cais e precisava tomar sopa. eu não queria sopa. não queria andar de barco. só queria sair daquele lugar tão sombrio, mas não sabia nem onde estava e muito menos pra onde ir.
um senhor de barbas brancas muito longas e cabelos brancos esvoaçantes me disse ‘beba a sopa pra você aguentar a viagem’. mas eu disse ‘que sopa? aqui só tem água e ossos, eu não vou tomar ossos, não quero.’ e ele enfatizou que eu iria precisar.
‘tome, a viagem será longa, ou você toma a sopa chupando o sabor desses ossos ou não aguentará atravessar o caminho’. eu tive que tomar.
era um gosto amargo, uma água pálida e fria. mas mais frias estavam minhas mãos. e mais fria ainda a terra pisada sob meus pés. lembrei da minha mãe dizendo que carne e frango sem ossos fica sem gosto na panela. ‘é o osso que dá o gosto, ela dizia’. até que senti a garganta esquentar e entrei no barco.
um senhor que não pude ver o rosto remava levando outras pessoas também. eram muitos barcos sendo guiados nesse lugar que parece nunca ter visto o dia. a extensão da água era tão grande que eu não conseguia ver nada além de nuvens de tempestade se formando.
e vem Adélia prado de novo me lembrando que
‘A morte deixa retratos, peças de roupa, / remédios pela metade, insetos desorientados / no mar de flores que recobre o corpo. / Este poema visgou-se. Não se despega de mim.’
as ondas que se quebram dentro dos meus olhos continuam trazendo as dores e a beleza da vida em versos, como flores e insetos que dormem e acordam juntos.
vejo uma flor de dente de leão se agarrar à espada de são Jorge que deixei pegando vento na janela.
a casa da minha vó era cheia dessas flores, e lembro da voz dela dizendo ‘pegue, faça um desejo e sopre, o desejo vai se realizar na sua vida’.
eu pego essa florzinha que mais parece um algodão estrelado, olho a lua minguando no céu e a memória da minha vó transborda em mim. sopro com toda a força.
o sol nasceu outra vez, ainda não será hoje que desistirei da poesia.
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.