Quantas vezes, ultimamente, você se pegou temendo o futuro por causa de todas as mudanças trazidas pela Inteligência Artificial? Se você tem pensado sobre o que vai acontecer com o seu trabalho, com a sua empresa ou com a sua profissão, saiba que você não está sozinho.
Absolutamente todas as pessoas conectadas a uma rede de internet estão, neste exato momento, pensando sobre isso (ou, pelo menos, deveriam estar).
E aqueles dentre nós que são pais e mães têm uma preocupação adicional: “o que será dos meus filhos nesse novo mundo do trabalho? Será que a profissão que eles escolherem hoje ainda vai existir daqui a 5 anos? Será que eles deveriam estudar programação, medicina, administração ou empreendedorismo? Alguma dessas tem mais chances de permanecer como nós a conhecemos pelos próximos 20 ou 30 anos? Ou será que tudo, sem exceção, será transformado a ponto de nós não termos ideia do que está por vir com os avanços tecnológicos?”
E aí eu te pergunto: será que vale a pena se preparar melhor para algo que nós desconhecemos tão largamente? Aliás, será que existe um jeito de se preparar melhor?
Se você tem matriculado as crianças e adolescentes em aulas de programação, de robótica e de idiomas desde a primeira infância, cuidado, você pode estar correndo uma corrida que já nasceu perdida. O mercado técnico e o sistema tradicional de ensino são focados em criar excelentes executores de tarefas repetitivas: exatamente o que a inteligência artificial executa com custo zero e perfeição matemática.
Se você educar o seu filho só para ser um bom programador ou processador de informações, ele vai ser substituído por uma máquina antes mesmo de ter qualquer chance de mostrar o próprio valor para o mundo. Na minha visão, o verdadeiro diferencial do amanhã não será técnico, mas sim radicalmente humano.
Na mesa de jantar, no aconchego do lar, no ambiente de trabalho, nas redes sociais, as habilidades que você precisa desenvolver em si mesmo e nos seus filho são as virtudes clássicas.
A fortaleza para lidar com frustrações sem o sequestro das telas, o cultivo da imaginação por meio da grande literatura, a firmeza de caráter, o equilíbrio emocional, a responsabilidade, a integração da vida, não a fragmentação.
Se você quer aprender a desenvolver em si essas virtudes para formar seres humanos inteiros dentro do seu lar, então leia este Petit Journal até o fim porque ele foi feito para te entregar um caminho seguro para os anos que estão por vir. O que quero com esta edição do PJ é te mostrar quais são as habilidades e os conhecimentos mais importantes para que você e seus filhos se tornem insubstituíveis na era da IA.
Faço minhas as palavras do autor Piero Franceschi em seu livro O trabalho do ser humano: “Mais do que adivinhar quais serão as profissões do futuro, precisamos decidir qual tipo de humanos devemos ser a partir de agora. O futuro do trabalho dependerá de líderes corajosos, que resgatem toda nossa potência para nos tornarmos, novamente, insubstituíveis.”
Será que a humanidade está realmente progredindo?
Vivemos em uma época marcada por um verdadeiro culto à tecnologia.
Mas todos nós sabemos que o avanço vertiginoso da inteligência artificial — alterando profundamente a forma como pensamos, escrevemos e aprendemos — abre uma espécie de caixa de Pandora, trazendo consigo consequências difíceis de prever e capazes de provocar profundas transformações sociais. Ainda assim, quase não há esforços para conter ou sequer moderar a velocidade desse desenvolvimento.
Criamos uma cultura em que expandir continuamente o poder tecnológico parece ter se tornado um fim em si mesmo, mesmo quando isso exige sacrificar outros bens igualmente — ou até mais — importantes.
Em termos platônicos, uma civilização orientada por essa concepção de “progresso” — medido principalmente pelo aumento da riqueza material e pela crescente capacidade humana de controlar a natureza — assume um caráter oligárquico. Ela pode prosperar exteriormente durante algum tempo, acumulando riqueza, poder e eficiência, mas Platão advertia que uma sociedade organizada segundo essa lógica carrega dentro de si as sementes de sua própria decadência.
Foi justamente esse perigo que J.R.R. Tolkien percebeu no mundo que se formava diante de seus olhos há cerca de um século. E essa tensão entre poder, técnica, domínio e aquilo que verdadeiramente merece ser preservado está no coração de sua grande obra, O Senhor dos Anéis.
Retirem os celulares e devolvam as aventuras às crianças
E por falar em histórias sobre jovens corajosos para jovens corajosos, cada vez mais os psicólogos e cientistas têm denunciado os danos da tecnologia excessiva nas nossas vidas cotidianas. Os jovens de hoje passam tempo demais olhando para telas e isso está reprogramando suas mentes.
O matemático e filósofo da ciência John Lennox, participando recentemente de um dos podcasts mais famosos do mundo, o Diary of a CEO, de Steven Barlett, declarou:
“Tire os smartphones das mãos das crianças por uma semana e veja o que acontece com elas.
As crianças que experimentaram isso não voltam as mesmas. Elas redescobrem a natureza.
O que é humano em nós não vem através de uma tela. A Inteligência Artificial é uma máquina.
Ela não está conectada aos nossos cinco sentidos. Nós precisamos de consciência.”
E eu completo dizendo que a tecnologia excessiva nas nossas mãos e nas mãos das nossas crianças está nos afastando da nossa consciência e, consequentemente, nos tornando menos humanos.
O resultado é uma epidemia do automatismo, que nos faz desperdiçar horas e horas dos nossos dias, ou seja, da nossa preciosa e limitada VIDA, interagindo não com outros seres humanos em carne e osso, não com a natureza, mas com celulares, com algoritmos, com inteligências que, como o nome já diz, são totalmente artificiais.
E o grande problema é que a IA está avançando muito mais rápido do que a discussão ética necessária que seria necessária para controla-la. A respeito dessa discussão, sugiro a leitura do livro Gênesis: Inteligência Artificial, esperança e o espírito humano, do maior diplomata da nossa era, Henry Kissinger, em co-autoria com dois ex-executivos do Vale do Silício, Eric Schmidt e Craig Mundie.
O problema não é a máquina se assemelhar ao humano. O problema é o humano se assemelhar a uma máquina.
O psiquiatra Ian McGilchrist, autor do best seller The Matter of Things (não encontrei tradução da obra para o português), passou a vida se dedicando a entender como funcionam os dois hemisférios do cérebro humano e agora está preocupado com a forma como estamos sendo afetados pelo avanço da revolução tecnológica. Em seu discurso no Ralston College este ano, ele fez o seguinte alerta, que serve para todos nós:
“Meu maior medo não é que as máquinas se tornem como os seres humanos. Meu medo é que os seres humanos se tornem como máquinas.
Isso já está começando a acontecer, a partir da necessidade de adaptarmos nossa maneira de estar no mundo às máquinas com as quais somos obrigados a desperdiçar tanto do nosso tempo — ainda que as máquinas altamente especializadas e sofisticadas dos magnatas lhes poupem tempo e dinheiro.
Para eles, tempo é dinheiro. Para nós, nosso tempo é nada menos que a própria vida.
Eles estão desperdiçando o nosso tempo; as máquinas estão consumindo nossas vidas.
O primeiro passo no caminho para nos tornarmos máquinas é acreditar que, em essência, não somos nada além de máquinas.
Isso me traz de volta à questão de como prestamos atenção ao mundo e a nós mesmos, uma vez que é essa forma de atenção que determina aquilo que acreditamos encontrar tanto no mundo quanto em nós.
A representação do hemisfério esquerdo (do cérebro) é teórica, bidimensional, em preto e branco, rígida e inflexível. Se conseguirmos, diante de tudo isso, nos manter fiéis àquilo que o hemisfério direito vê e conhece, tudo poderá voltar ter quatro dimensões e poderemos recuperar a verdade, a bondade e a beleza — e, mais uma vez, amar aquilo que vemos.”
Na era da IA, a humanidade permanece insubstituível: soluções simples e clássicas para um mundo novo
Diante desse cenário incerto, nossa reação natural é o medo e a paralisia. Não sabemos exatamente o que pensar, o que fazer e ainda somos bombardeados o tempo inteiro por todo tipo de opiniões e especialistas nos dizendo qual é a próxima inteligência artificial que devemos aprender a usar, como usar, quanto usar, quanto dinheiro gastar, etc.
No entanto, isso tudo não passa de uma grande e redonda distração. O que nós precisamos mesmo, mais urgentemente do que nunca, para sobreviver aos novos tempos e nos tornar insubstituíveis na era da IA, é resgatar nossa humanidade.
Depois dessa contextualização, vamos à parte teórico-prática da nossa newsletter, porque eu sempre me desafio a trazer algo concreto que você consiga implementar e que melhore a sua vida a partir do que você leu aqui. Vamos, então, à minha lista das verdadeiras habilidades em que você deveria focar para garantir que vai navegar com tranquilidade os mares nunca dantes navegados do novo mundo.
Usar o lado direito do cérebro
Como diria o gênio Dostoiévski, “a beleza salvará o mundo”. É justamente o lado direito no nosso cérebro, ou melhor, a nossa porção mais ligada ao transcendente e menos ao mundo material e utilitário, que vai nos elevar ao posto de seres humanos e nos afastar do risco da pasteurização que a IA vai submeter a quem delegar a ela sua capacidade de pensar, de contemplar e de viver.
Ficará cada vez mais evidente a importância da intuição, da beleza, do maravilhamento, das emoções e da experiência de vida para cumprirmos nosso papel como seres humanos, não como máquinas ou engrenagens dispensáveis de um sistema social e produtivo tecnológico e dominador.
Existem inúmeras maneiras de desenvolver seu lado contemplativo, poético, curioso e todas essas habilidades que são próprias de um ser humano que fortaleceu seu lado direito do cérebro.
Vamos começar pela escrita e pela leitura, duas habilidades fundamentais que moldaram não só o pensamento, mas a própria existência humana.
Saber escrever
“Se as pessoas não sabem escrever bem, também não conseguem pensar bem, e se não conseguem pensar bem, outros pensarão por elas.” (George Orwell) Nada mais atual, não é? Se você não escreve bem, outras pessoas pensarão por você. Simples assim.
Portanto, o maior risco que estamos correndo atualmente é o de delegar às máquinas não só nossa capacidade de escrita, mas também nossa capacidade de raciocinar, de chegar às melhores conclusões, de decidir por conta própria e de pensar com clareza. Além disso, ao delegar a escrita, delegamos algo que nos torna essencialmente humanos e nos diferencia dos animais: nossa capacidade de imaginação.
O ser humano, ao contrário dos animais, é capaz de transcender suas circunstancias imediatas e imaginar outros cenários, outras galáxias, outras épocas, outras vidas, outras coisas que jamais existiram perto de si. Se perdermos essa capacidade, estaremos perdendo a capacidade de ser humanos e nos tornando ainda piores que as máquinas.
Justamente por isso o Papa Leão XIV, em discurso recente aos escritores, conclamou:
“Nós precisamos da sua imaginação. Escrever é um ato de verdade, de revelação, porque mostra quem nós somos, no que acreditamos e pelo que esperamos, o mundo que desejamos construir e o futuro com o qual sonhamos.
Escrever é um ato de humanidade. Quando vocês escrevem histórias e desenvolvem seus personagens, identificam-se com eles. Vocês retratam seus pontos de vista, suas emoções, seus sentimentos, suas atitudes... isso nos ajuda a descobrir diferentes perspectivas, a evitar tratar as nossas visões como absolutas e a colocar junto, quase como em um mosaico, a resultante da verdade que sempre nos transcende.”
Escrever, portanto, nos aproxima da verdade, coloca as ideias em perspectiva e ajuda a nos compreendermos mutuamente, o que será sempre necessário para aplacar as diferenças e garantir a convivência pacífica da humanidade (e das máquinas).
Escrever à mão
Além de escrever, dizem os especialistas que ainda mais importante é escrever à mão.
A escrita à mão precisa voltar a ocupar um lugar central na sala de aula. Exames minuciososmostram que, durante a escrita à mão, toda a rede cerebral se ilumina como uma árvore de Natal, enquanto, durante a digitação, fica escura como um porão. O processo físico de escrever à mão parece superar a facilidade da digitação em todos os indicadores cognitivos.
Além disso, a escrita à mão é pessoal. A caligrafia de uma criança cria uma conexão entre ela e o assunto sobre o qual está escrevendo. O mesmo vale para a escrita à mão de um professor em um trabalho entregue pelo aluno. Receber um feedback pessoal, e não algo gerado de maneira robótica, é essencial para manter a motivação.
O pesquisador da área de educação John Jerrim conduziu um extenso experimento no qual três mil alunos realizaram testes do PISA em matemática, ciências e leitura. Metade dos estudantes fez todo o trabalho no papel; a outra metade, no computador.
O grupo que realizou as atividades no papel obteve uma pontuação vinte pontos maior — o equivalente a seis meses adicionais de escolarização.
Escrever à mão nos torna mais inteligentes e mais humanos.
Saber ler
Em relação ao poder da leitura para a formação humana, não acho que as pessoas realmente compreendam o quão desesperadora é a nossa situação.
Professores universitários americanos estão dizendo agora que não conseguem ensinar História porque é por meio da leitura de livros extensos e de longas passagens que uma pessoa aprende essa disciplina. E os estudantes universitários são incapazes de ler mais do que algumas páginas.
Algumas disciplinas já nem sequer exigem qualquer leitura — apenas aulas expositivas.
Existe, entre aqueles que estão administrando esse declínio, a suposição de que a leitura é apenas uma forma de receber informação. Não é. A leitura propriamente dita é a maneira pela qual desenvolvemos a musculatura mental necessária para sintetizar ideias e avaliá-las.
Se o declínio catastrófico da leitura e da alfabetização não for enfrentado agora, corremos o risco de perder tudo.
A civilização ocidental não pode sobreviver à morte da leitura, porque foi construída por pessoas que possuíam o tipo de profundidade cognitiva que uma cultura de leitura profunda proporciona: raciocínio complexo, diálogo interior prolongado, capacidade de sustentar ideias opostas em tensão.
Nossos sistemas e instituições são complexos e exigem mentes bem ordenadas para mantê-los. A leitura forma a mente, e o Ocidente foi construído por algumas das mentes mais ricas da história.
Precisamos continuar formando novas mentes segundo esse mesmo modelo se quisermos preservá-lo.
Ler literatura
Dentro da “habilidade fundamental” leitura, existe um tipo que contribui mais do que qualquer outra para a nossa formação humana integral, ou seja, para a formação do imaginário, do repertório que vai sustentar as boas decisões na vida e para a compreensão das virtudes e dos vícios: a literatura (e, mais especificamente ainda, os clássicos).
Se você não acredita, veja só o que acontece dentro da sua mente quando você lê grandes obras da literatura:
A maioria das pessoas não percebe isso, mas seu cérebro não trata grandes livros como entretenimento. Ele os trata como experiência. Quando você lê uma ficção profunda, complexa e emocionalmente rica, sua mente ativa as mesmas redes que utiliza para sentir, perceber, julgar, lembrar e imaginar o próprio futuro.
Você não está observando uma história. Você está vivendo outra vida.
Dentro do cérebro, a leitura não é uma simples “tarefa de linguagem”. É uma simulação em grande escala.
Descrições de movimento ativam o córtex motor. Descrições de toque e cheiro ativam o córtex sensorial. Descrições de dor ativam centros emocionais relacionados ao sofrimento. O cérebro responde a acontecimentos imaginados de maneira muito semelhante àquela com que responde aos acontecimentos reais.
É por isso que a grande literatura é tão diferente de ficar rolando o feed, assistir à televisão ou consumir conteúdo passivamente. Seu cérebro precisa construir o mundo. Cada cena, cada imagem, cada emoção é construída internamente. Você se torna, ao mesmo tempo, leitor e criador, executando uma simulação particular com uma fidelidade impressionante.
É o mais próximo que os seres humanos têm de uma realidade virtual mental. Essa simulação tem um propósito. Durante a maior parte da história humana, as histórias eram a maneira pela qual aprendíamos sem precisar morrer. Você podia testemunhar uma traição sem ser traído. Podia sentir o preço do orgulho sem arruinar a própria vida. Podia explorar o amor, a guerra, a ambição, o ciúme, a tragédia — tudo isso por meio dos erros de outra pessoa. Os livros, portanto, se tornaram um ensaio para a realidade. Mas a grande literatura vai além. Ela obriga você a compreender outras mentes. Não caricaturas.
Não estereótipos. Pessoas plenamente desenvolvidas, com motivações, contradições, feridas e desejos. Os pesquisadores chamam isso de “Teoria da Mente”: a capacidade de inferir o que outras pessoas estão pensando e sentindo. Ler ficção literária fortalece essa capacidade. Você se torna melhor em compreender as pessoas porque pratica a compreensão dos personagens. Isso é algo que as redes sociais não podem lhe oferecer.
As plataformas recompensam julgamentos instantâneos. Os romances recompensam a paciência e a capacidade de fazer inferências. Quando você lê literatura de verdade, expande a parte da sua mente capaz de compreender a complexidade, em vez de reduzi-la.
A grande literatura também treina a atenção em uma época que está perdendo essa capacidade.
Um parágrafo denso obriga você a manter múltiplas ideias na memória de trabalho. Uma cena longa exige que você sustente o foco. Uma metáfora com várias camadas obriga seu cérebro a lidar com a ambiguidade. Isso é um treinamento de resistência mental. Um grande romance é uma academia para a sua capacidade de pensar com clareza.
E o mais interessante é o quanto os personagens e a história continuam vivendo dentro de você: seu cérebro carrega vestígios de um livro muito tempo depois de você fechá-lo. Estudos de ressonância magnética funcional (fMRI) mostram que certas redes neurais permanecem ativadas por dias depois da leitura — uma espécie de resplendor cognitivo. A história continua ecoando em sua mente. Seu cérebro continua reprocessando as lições.
A leitura constrói você de maneiras que você não consegue perceber no momento. Ao longo de uma vida, esses vestígios se acumulam. Cenas tornam-se pontos de referência. Personagens tornam-se vozes interiores. Passagens literárias tornam-se ferramentas para compreender a própria vida. Você constrói uma biblioteca interior — um conselho dos mortos — que molda suas decisões e sua identidade.
É por isso que leitores pensam de maneira diferente de pessoas que nunca tocam em livros. A grande literatura modifica a própria textura da mente. Ela aguça a atenção, aprofunda a empatia, fortalece a memória, expande a imaginação e treina seu narrador interior a pensar por meio de uma linguagem mais clara e mais rica.
Essas não são apenas “habilidades escolares”. São habilidades para a vida. Elas determinam a qualidade de seus relacionamentos, de suas ideias, de seu autocontrole e de seu futuro.
Seu sistema nervoso está sempre sendo moldado por alguma coisa. A maioria das pessoas permite que ele seja moldado pelo ruído. Algumas permitem que ele seja moldado por grandes livros. Essas pessoas pensam de maneira diferente. Enxergam de maneira diferente. Sentem de maneira diferente.
E fazem escolhas melhores.
Este é o verdadeiro segredo: ler grandes obras da literatura não é um hobby. É uma forma de transformação de si mesmo. A leitura torna você maior por dentro.
Sua tarefa é simples:
Escolha livros melhores.
Leia com mais profundidade.
Deixe que as palavras certas moldem você.
Seu eu do futuro reconhecerá a diferença.
Eterno aprendiz
Uma das habilidades mais cruciais para te tornar insubstituível na era da IA será, sem dúvidas, a capacidade de se tornar um eterno aprendiz.
Toda vez que você adquire um novo conhecimento e o aplica na prática, sua mente forma ligações inéditas e passa por mudanças estruturais. Esse princípio ficou conhecido como Lei de Hebb: “células cerebrais que se ativam em conjunto se reforçam em conjunto”.
O cérebro humano possui aproximadamente 86 bilhões de neurônios em pleno funcionamento e permanece em constante construção, ajustando-se e ficando mais forte de acordo com as suas ações diárias.
Esse fenômeno tem um nome conhecido: neuroplasticidade.
O mais interessante é pensar que a sua mente está sendo moldada, dia após dia, por aquilo que você aprende.
Se você passa a não aprender porque simplesmente procura todas as respostas na barra de perguntas de uma inteligência artificial, você dá fim ao processo mais complexo e maravilhoso que existe na natureza!
Deveria ser terminantemente proibido fazer isso e, principalmente, permitir que nossos filhos e jovens parem de aprender na fase mais frutífera de suas vidas e comecem a congelar seus cérebros em tempo real diante de uma máquina que vai, aos poucos, se tornando mais inteligente do que eles mesmos.
Estudar Filosofia
Nos últimos anos, voltei a estudar filosofia. Desde a minha juventude sempre fui curiosa, inquieta e tive uma mente questionadora. Essa é a base de qualquer filosofia e é por isso que as crianças são excelentes filósofas, porque estão sempre se perguntando sobre como e por que as coisas são como são. No entanto, nos últimos meses passei a mergulhar mais fundo nos filósofos clássicos e no humanismo renascentista.
Quando falo de filosofia com as pessoas ao redor, a pergunta que mais escuto é:
“Mas qual é a utilidade prática da filosofia na minha vida?”
Essa dúvida reflete muito bem o momento que estamos vivendo: uma cultura materialista obcecada por utilidade, perfomance, resultados, capaz mesmo de reduzir a dignidade das pessoas que, por alguma limitação temporária ou permanente, não consigam “produzir valor” para a sociedade. Essa é a mentalidade que mata milhares de bebês com síndrome de down no útero de suas mães em países de “primeiro mundo”, e é a mesma mentalidade que vai reduzir a humanidade de todos nós quando as máquinas forem mais inteligentes, mais eficientes e muito mais úteis em todas as áreas do conhecimento e da produtividade humana.
Essa é, portanto, uma mentalidade perigosa que deve ser combatida com toda a nossa “humanidade magnífica” (para usar as palavras certeiras do Papa Leão XIV).
Aliás, grande parte do conhecimento que adquirimos jamais será utilizada de maneira prática. E tudo bem. É isso que justifica que você ame seus filhos imensamente ainda que eles não produzam nada de valor prático ou material para você nas primeiras décadas de suas vidas (ou, como no caso da minha filha Maria Guilhermina, que tem muitas limitações de saúde, talvez nunca produzam nada valioso do ponto de vista material).
Apesar de eu não ter ganhos práticos ou materiais com a minha filha, ser sua mãe me realiza profundamente como ser humano e me transforma, a cada dia em que convivo com ela, em uma pessoa melhor. O simples fato de ela existir e de eu ser a responsável por ela me torna mais realizada como pessoa. Na verdade, a existência dela e nosso relacionamento me entregam sim algo de muito valor prático, na medida em que permitem que eu me torne aquilo que eu fui chamada a ser.
E é exatamente pelo mesmo motivo que estudar filosofia é a habilidade mais prática que você poderia desenvolver hoje. Quando alguém diz que filosofia é impraticável, está confundindo praticidade com imediatismo. Se você procura filosofia esperando resultados em 30 dias, pode parar por aqui. Ela não vende atalhos, não promete milagres e não entrega fórmulas prontas. O que ela oferece é outra coisa — e, para mim, algo muito mais raro: ela treina a mente para pensar.
Sinceramente, não conheço habilidade mais útil na vida do que essa.
Pense na quantidade de estímulos que disputam sua atenção todos os dias: o feed rolando, a notificação vibrando, o algoritmo calculando exatamente o que te prende ali por mais um minuto.
Nesse cenário, a maioria das pessoas apenas reage. Não para para se perguntar por que acredita no que acredita, nem por que age como age. Absorve a narrativa que chega pronta, embarca no fluxo geral e segue vivendo sem direção — no piloto automático.
É exatamente contra esse estado que a filosofia atua. Ela desperta a mente de um sono intelectual que muita gente nem percebe que está vivendo. E, ao fazer isso, ela te ajuda a perceber quais são as melhores escolhas para você — as escolhas das quais sua vida será feita. Entendeu a importância?
Estudar filosofia, então, não é colecionar ideias de autores distantes e não colocar nada em prática. É aprender a usar a razão (essa faculdade propriamente humana), discernir o bem e o mal, escolher entre alternativas que farão diferença na sua vida e na das pessoas ao seu redor, é se lapidar por meio dos hábitos, construindo seu caráter por meio das virtudes e se afastando dos vícios. É, no fim das contas, procurar com todas as forças compreender o Bom, o Belo e o Verdadeiro e agir de acordo com isso, construindo uma vida bem vivida.
Por isso, a pergunta certa não é se você tem tempo para estudar filosofia. A pergunta é se você pode pagar o preço não fazer isso. A filosofia, com todo o seu prestígio, é simplesmente a ferramenta mais antiga e mais eficaz que a humanidade já criou para ensinar alguém a enxergar e a se tornar melhor.
Somente os seres humanos podem contemplar a beleza, amar e filosofar.
Crescer em Vida interior
Por último, porém, não menos importante, está a habilidade de desenvolver a sua vida interior. A porção transcendente do seu ser, que alguns chamam de alma, outros de espírito, outros de consciência.
Seja qual for o nome ou a natureza dessa nossa porção, o fato é que todo ser humano nasce dotado dessa característica, mas nem todos se empenham em desenvolve-la e usa-la a seu favor e a serviço dos outros. Os que o fazem geralmente alcançam um grau de existência que os gregos chamavam de eudaimonia e que hoje é equivocadamente traduzido como felicidade.
Eudaimonia seria algo mais próximo de plenitude. E é exatamente isso que a vida interior pode fazer por nós: tornar nossa existência mais plena, menos fragmentada.
Um dos sinais mais claros da nossa modernidade é a fragmentação. O homem e a mulher modernos foram ensinados a dividir sua existência em compartimentos: trabalho, família, religião, sociedade. Cada parte da vida parece ser regida por regras específicas que geralmente inviabilizam a integração entre todas elas, como se uma pessoa precisasse escolher entre focar no trabalho ou na família ou na sua relação com Deus.
O resultado dessa divisão é a sensação permanente de desintegração, de falta de sentido, de incompletude, tão características do nosso tempo. E, tratando-se de uma sociedade materialista, a maioria foca nos resultados profissionais em detrimento das outras áreas da vida, o que gera uma frustração sem tamanho e uma desconexão com o que temos de mais próprio do humano: nossa essência que aponta para o Bom, o Belo e o Verdadeiro.
Se focamos no sucesso profissional e isso destrói nosso casamento, obviamente não caminhamos em direção ao Bem. Se focamos na vida pessoal e não realizamos nossa vocação profissional, não estaremos próximos da verdade (daquilo para o qual fomos chamados) e provavelmente seremos frustrados e incompletos. E se cultivamos uma espiritualidade que não se concretiza nas nossas atitudes e comportamentos, tampouco seremos inteiros.
Por isso se faz urgente voltar nosso olhar — e reservar horário nas nossas agendas — para dedicar à nossa vida interior com o mesmo esmero com que nos dedicamos à nossa vida profissional e pessoal. É o pilar interior que terá o maior papel na hora das adversidades, dos problemas, das fraquezas. Sem cultivar nossa fé e nossa espiritualidade, nossas dimensões puramente materiais não serão suficientes para atravessar com dignidade os vales e sombras da vida.
Precisamos levar muito a sério a dimensão que mais nos diferencia das criaturas com as quais dividimos este planeta: os animais e, agora também, as inteligências artificiais. Nenhum deles é capaz de se relacionar com Deus como nós somos. É nessa relação com Deus que encontraremos os critérios para decidir, forças para perseverar e serenidade para enfrentar quaisquer dificuldades.
Em um mundo marcado pela fragmentação, seremos chamados a oferecer o testemunho de uma vida integrada. Em uma cultura que privilegia utilidade em detrimento da dignidade, devemos mostrar que o valor humano está além de qualquer benefício material, que perece e não é eterno.
Em uma sociedade obcecada pelo imediatismo, nossa vida interior nos direciona para o sentido último da nossa experiência humana: a vida eterna.
Em resumo, meus caros, essas são as habilidades que, na minha opinião, serão mais determinantes para nos preparar para o novo mundo que está surgindo.
Tais quais os grandes navegadores da Era dos Descobrimentos, devemos nos lançar ao horizonte desconhecido não sem as armas necessárias para enfrentar seus perigos, mas dotados das embarcações, dos mantimentos, dos conhecimentos e das virtudes que nos levarão, em segurança, por mares nunca dantes navegados.
Na Era da Inteligência Artificial, ao contrário do que diz o senso comum, seremos chamados a ser radicalmente humanos.
Mas nós não pensamos como o senso comum. Nós aprendemos a ler, escrever, pensar, filosofar, rezar e amar.
Bem-vindos ao Novo Mundo, humanos.
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