Estamos vivendo um momento crucial da humanidade, mas a maioria das pessoas ainda não se deu conta disso.
Algumas já perceberam mas ainda acham tudo um tanto nebuloso, confuso, sem saber exatamente o que está acontecendo com elas mesmas e com o mundo. Enquanto a vida cotidiana continua aparentemente normal — todas aquelas dificuldades de sempre, aquela correria das manhãs, o cansaço mental, os compromissos, as incertezas e também as pequenas alegrias que nos mantém felizes o bastante para ter fôlego para continuar — tudo isso não mudou praticamente nada nos últimos… 10 ou 20 anos?
No entanto, há uma nova ideia no ar, que já começa a ser introduzida nos nossos celulares, nas nossas redes sociais, nas nossas empresas e, por que não dizer, nos nossos cérebros? Uma ideia louca. Uma ideia insana. Uma ideia que parece saída diretamente de um clássico de ficção científica que você leu na adolescência, achou incrível, mas terminou pensando: graças a Deus isso aqui nunca vai acontecer comigo!
Pois é. Aconteceu. Está acontecendo. A ideia mais maluca de todos os tempos agora se torna realidade bem diante dos nossos olhos e de uma forma mais veloz do que a nossa capacidade intelectual e moral pode internalizar e interpretar. Sequer conseguimos ainda compreender se essa ideia é, em si, boa ou má. Mas há quem diga que é o último erro que nós, humanos, cometeremos.
A ideia — a Grande Ideia — é a seguinte: vamos criar uma máquina capaz de ser mais capaz do que nós. Que tal?
Veja, isso não é uma novidade completa; ninguém está, afinal, reinventando a roda. Essa inovação surge na esteira de muitas outras anteriores que lhe deram forma, contexto, substância e permitiram que ela pudesse se concretizar. Por exemplo, nós já criamos computadores mais capazes do que nós em realizar cálculos. Nós criamos máquinas capazes de plantar e colher com muito mais velocidade e eficiência do que qualquer ser humano. E esse raciocínio pode ser estendido a praticamente todas as áreas de trabalho que você possa imaginar — e nas quais, ao longo dos últimos 200 anos, os seres humanos foram sobrepujados em capacidade pelas máquinas.
Acontece que agora estamos falando de uma outra capacidade: a capacidade mental, cerebral, intelectual. Estamos falando de construir máquinas que “pensam” — ou parecem pensar —, que conseguem acessar milhões, zilhões de dados, informações, conhecimento humano, processar, combinar de formas, se não inteligentes, pelo menos inteligíveis, e que parecem já ser cognitivamente mais capazes do que nós. Mas não são. Ainda não são. E foi por isso que eu disse, no começo desse Petit Journal, que estamos vivendo um momento crucial para a humanidade.
Nós ainda não criamos e nem estamos ameaçados, de fato, por uma superinteligência. Mas estamos na iminência (alguns especialistas dizem que trata-se de uma questão de 3 anos) de conviver de forma absolutamente imprevisível com esses “seres”. O que vai acontecer se esse limite entre a inteligência humana e a inteligência artificial foi rompido a ponto de esta se tornar infinitamente maior do que aquela, não sabemos. É impossível prever.
Temos, portanto, diante de nós uma escolha que talvez só os gregos tenham tido diante da batalha de Termópilas, que decidiu o futuro da civilização ocidental na guerra entre gregos e persas, ou os ancestrais dos espanhóis e portugueses diante dos mouros na Analuzia: lutar pelo que construímos até aqui ou ser aniquilados para todo o sempre, dando lugar a um outro povo, a uma outra forma de pensar e de viver no planeta.
E é importante pensarmos sobre isso, estudarmos a história e entendermos como os padrões se repetem, porque, apesar de agora estarmos disputando espaço e poder com algo que não é humano (vem, meteoro!!!!), essas máquinas estão sendo construídas e programadas por nós (por enquanto). E isso significa que elas vão agir, pelo menos durante um tempo, conforme os conhecimentos, comportamentos e diretrizes humanas que lhes foram implantadas. Depois que conseguirem se autoaperfeiçoar e criar umas às outras, aí realmente nós não sabemos que tipo de raciocínio e de decisões elas irão tomar.
Mas sabemos que, por hora, esse destino está completa e radicalmente nas nossas mãos. Mas parece que apenas um pequeno número de pessoas está abrindo os olhos para esses perigos civilizacionais. E talvez por isso a analogia dos 300 de Esparta ou do pequeno grupo de cristãos escondidos nas montanhas da Andaluzia — enxergando diante de si a ameaça e a missão que tinham pela frente, e atrás de si a história e a sociedade que precisavam defender — seja mesmo a mais adequada.
Segundo o historiador Victor Davis Hanson em seu livro Por que o Ocidente Venceu – Massacre e Cultura – Da Grécia Antiga ao Vietnã, se os persas tivessem vencido a guerra, teríamos “crônicas do estado real em vez de história; panegíricos em vez de política ou oratória; puxa-sacos em cortes em vez da gritaria das assembléias; orgulho de raça em vez de orgulho na cultura; uma rígida casta sacerdotal em vez de intelectuais livre-pensantes”.
Algo semelhante poderia passar caso os Persas, e não os gregos, tivessem vencido a batalha mais importante do ocidente versus oriente. E, se não fosse por aqueles bravos guerreiros, “iluminados por um ideal”, nós — eu e você — não estaríamos aqui para ler este Petit Journal.
Vale aqui citar, a título de inspiração, a frase que o poeta grego Simônides de Ceos, um dos maiores poetas líricos da Grécia antiga, escreveu a respeito dessa batalha e que foi depois cravada em pedra na passagem onde repousam os corpos dos guerreiros de Esparta:
“Ó estrangeiro, anuncia aos lacedemônios* que aqui jazemos, obedientes às suas palavras.”
*Lacedemônios era o termo usado para “espartanos”
Mas por que, você pode se perguntar, estamos falando sobre Grécia antiga, Península ibérica, cristianismo versus islamismo, se o texto era sobre Inteligência Artificial?
Ora, um questionamento muito justo. Deixe-me explicar.
O que estou fazendo aqui é nada mais do que usar a metalinguagem, ou seja, uma ferramenta da própria linguagem dentro do texto escrito (e lido por você), para provar o meu ponto de que a leitura, a escrita e o discernimento serão as habilidades fundamentais que nos salvarão de um destino apocalíptico (ou, pelo menos, de um destino apocalíptico criado por nós mesmos, antes do Juízo Final).
Em um mundo novo, dominado por tecnologias super inteligentes que conseguem processar e ressignificar o conhecimento trilhões de vezes mais rápido do que nossos cérebros humanos, a grande maioria será tentada a delegar para essas máquinas a sua capacidade de ler, compreender, discernir, escrever, decidir, expressar ideias e, em última análise, gerar valor a partir da sua própria massa encefálica.
Ou seja: a maior parte da humanidade vai simplesmente ser substituída mesmo, ou por voluntariamente entregar à inteligência artificial essas tarefas, ou por se tornar muito inferior em sua própria habilidade de inteligir e, portanto, de se fazer relevante no mundo. Se você não consegue mais ler bem, se não consegue sequer prestar atenção por tempo suficiente em um texto para compreender ideias, se não consegue raciocinar sobre o que está lendo, nem muito menos escrever (ou seja, colocar em palavras) o que você pensou e descobriu a respeito daquelas informações, bem… então você realmente está com os dias contados.
Isso significa que você vai morrer porque não sabe ler e escrever mais? E as pessoas que não sabem ler e escrever e sempre existiram, viveram, casaram, tiveram filhos e foram dignas? Bom, elas certamente sabiam PENSAR. Mesmo sem saber ler e escrever, elas usavam seu cérebro e seu discernimento, sua consciência, sua visão de mundo, sua ética, para raciocinar, tomar decisões e prosperar na vida.
Mas o que está acontecendo agora é bem diferente disso: além de as pessoas estarem perdendo a capacidade de ler e escrever, elas estão perdendo também a capacidade de raciocinar e, portanto, de discernir. E, veja, não se iluda. Se você não consegue pensar por conta própria, alguém vai pensar e decidir por você. Ahh, sim. Alguém vai. E quem será essa pessoa? Ora! Sequer será uma pessoa!!! Será uma máquina!
Ideia insana. Maluca. Completamente fora do normal.
Como foi, meu Deus do Céu, que nós viemos parar aqui? E como é que vamos sair dessa encruzilhada do destino?
Amigos, vamos, não se enganem!! Quem não lê bem, não pensa bem. E quem não pensa bem, permite que os outros pensem por ele. Não fui em quem disse isso, foi o genial George Orwell, autor de uma das mais impactantes distopias futuristas já escritas, o clássico 1984.
Aliás, se você está acompanhando meu raciocínio e entendendo o quão grave é a situação, sugiro que comece agora mesmo a reverter esse feitiço lendo o já citado 1984, Admirável Mundo, de Huxley ou Farenheit 911. Todos eles obras primas da escrita, do raciocínio e da imaginação humanas, e grandes e atualíssimos alertas para os dias que estamos vivendo hoje.
Inclusive, caso você não faca parte do pequeno grupo de guerreiros que estão se informando e acompanhando as notícias tenebrosas sobre os perigos do desenvolvimento (e da falta de regulamentação) da IA, tenho uma péssima para te contar: uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, a Anthropic, que está por trás do Claude e cuja co-fundadora é (pasme!), formada em literatura inglesa, foi processada no final de 2025 pelo seu projeto secreto “Panama”, que pretendia escanear todos os livros do mundo (nas palavras do próprio fundador).
Até aí, zero problema, certo? Errado. O problema é que a forma mais barata de adquirir todo o conhecimento da humanidade é comprando os livros, cortando fora a sua lombada, escaneando e queimando-os depois. Estamos falando não só dos livros ruins, mas também de livros raros e importantíssimos para o patrimônio histórico, intelectual e cultural da humanidade. Estamos falando de uma empresa particular, cujos lucros beneficiam um pequeno grupo de pessoas, apropriar-se de uma infinidade de livros que antes estavam disponíveis de forma democrática e generalizada, gravar seu conteúdo de forma privativa e depois destrui-lo, impedindo que qualquer pessoa o acesse a partir daquele momento, a não ser pagando pela assinatura anual de uma inteligência artificial.
Nada mais Farenheit 911.
Ideia maluca. Tenebrosa. Perigosa.
Se você e eu, meu querido amigo ou amiga, não começarmos agora mesmo a voltar os olhos para os nossos livros da estante; se nós não entendermos hoje que esse mesmo conhecimento que as empresas de tecnologia estão dispostas a adquirir, transformar em IA e depois revender para o público, ainda está acessível para nós; se nós não reaprendermos a ler textos bons, clássicos, textos modernos, textos de jornais, de newsletters, textos longos, textos inteligentes… e se nós não aprendermos a escrever sobre as nossas ideias e opiniões para nos comunicarmos com outros seres humanos como sempre fizemos… se nós nos deixarmos levar pela aparente facilidade de que uma máquina pesquise, leia, pense e escreva por nós… simplesmente teremos deixado de ser humanos.
E, nesse caso, é bem plausível que uma nova raça, uma nova civilização, ainda que fria e robótica, venha nos liquidar e silenciar de vez as nossas vozes, as nossas mentes e os nossos corações.
Se você leu até aqui, você está no caminho certo.
Resta saber quem serão os outros “300 de Esparta” que lutarão ao nosso lado.
Mande esse texto para alguém que você gostaria que continuasse pensando e vivendo como um ser humano nos próximos anos.
E se você está se sentindo um pouco solitário nessa aventura de navegar os mares do novo mundo, saiba que você não está sozinho.
Justamente para reunir pessoas que pensam como nós e que querem continuar com a sua soberania mental na era da IA, nós criamos a Conferência dos Insubstituíveis.
Será um evento online e totalmente gratuito que vai acontecer no dia 19 de setembro e você e seus amigos estão super convidados! Venha pensar junto com a gente nesse futuro brilhante que ainda está nas nossas mãos.
A humanidade permanece insubstituível.
Conto com você! Faça sua inscrição aqui.
Pensando bem, Leticia.
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