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Noites Húngaras · Aug 21, 2026

Perito de Dark Horse admite que não sabe destino final do dinheiro de Vorcaro

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Paulo Motoryn · Noites Húngaras

Nesta quinta-feira (20), Flávio Bolsonaro voltou a dizer que não deve mais explicações sobre 23 milhões de dólares negociados com Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, filme sobre a trajetória de seu pai, Jair Bolsonaro.

“Da nossa parte, está tudo página virada”, disse o candidato do PL à Presidência durante uma agenda de campanha em São Paulo.

Questionado sobre a cobrança para detalhar os gastos do longa, Flávio afirmou que a prestação de contas já havia sido feita. Boa parte da imprensa repercutiu a declaração sem desconfiar.

A prestação de contas à qual ele se refere é uma perícia privada sobre os gastos de Dark Horse. O documento, produzido a pedido da defesa da responsável pela produtora GoUp Entertainment, foi anexado a um inquérito da Polícia Civil de São Paulo e acabou chegando à imprensa há cerca de dois meses.

O problema é que a história está longe de ser uma “página virada”. Horas depois da declaração de Flávio, conversei longamente com o professor Castelo Branco, presidente do Instituto de Perícia Investigativa e responsável pelo laudo. A entrevista exclusiva ajuda a entender não apenas o que a perícia conseguiu demonstrar, mas, principalmente, tudo aquilo que ela não investigou.

Castelo Branco disse ter provas de que todo o dinheiro recebido pelo fundo ligado a Eduardo Bolsonaro no Texas foi enviado para a produtora – sendo que 9,6 milhões de dólares foram gastos nos Estados Unidos. Ele afirmou que não apresenta os comprovantes para não violar o sigilo bancário dos fornecedores.

Mas fez duas admissões que considero centrais.

  1. A perícia não analisou se os preços pagos pela produção de Dark Horse eram compatíveis com aqueles praticados pelo mercado cinematográfico.

  2. O trabalho não permite saber o que as empresas contratadas pela produção fizeram com o dinheiro depois que o receberam. Em outras palavras, a perícia acompanha parte do caminho do dinheiro, mas não consegue descartar que recursos tenham sido posteriormente enviados para terceiros.

Há ainda uma novidade.

Castelo Branco me revelou que a Polícia Federal já intimou os responsáveis pela perícia a fornecer informações mais detalhadas sobre os gastos de Dark Horse. Segundo ele, a requisição envolve transferências, despesas operacionais e custos do filme. A equipe pediu à PF que esclareça como deseja receber os dados e se prepara para elaborar um laudo complementar.

Ou seja: enquanto Flávio declara publicamente que o assunto está encerrado, a Polícia Federal pede mais documentos.

Perdoem-me, designers, mas essa imagem foi criada com auxílio de inteligência artificial. Espero, em breve, ter recursos para contratá-los!

Em determinado momento da nossa conversa, perguntei a Castelo Branco algo bastante básico. O filme sobre Jair Bolsonaro consumiu, segundo o próprio trabalho assinado por ele, dezenas de milhões de reais. Mas o professor nunca havia feito uma perícia de uma produção cinematográfica.

Perguntei: “O senhor, uma última dúvida que surgiu agora. Não seria adequado chamar alguém com experiência em cinema, mercado audiovisual, para apoiar o senhor? Porque me chama a atenção que o senhor nunca tinha trabalhado numa produção cinematográfica.”

Castelo Branco respondeu que a formação de peritos nas áreas de administração e contabilidade seria suficiente para analisar empresas de diferentes setores.

“Nós que somos peritos e temos uma formação técnica na área de administração e na área de contabilidade estamos aptos e treinados para fazer esse trabalho de qualquer nicho de negócio. Seja uma empresa cinematográfica, seja um hospital, seja uma igreja, seja do governo”, respondeu.

A resposta me levou à questão que realmente importava. “E essa análise, se os custos do Dark Horse estavam compatíveis com preços de mercado, não foi feita então?”

Não, eu não fiz esse tipo de análise.” E ele continuou: “A análise que eu fiz foi essa que eu te falei: verificar se houve transferência de dinheiro público, mostrar quanto foram os custos da produção nacional, os custos da produção internacional, mas eu não julgo se os custos são altos ou se são baixos. Tá claro? Não é meu papel.”

Castelo Branco explicou ainda que, caso tivesse sido contratado para avaliar se os valores desembolsados estavam de acordo com os preços do mercado cinematográfico, buscaria ajuda especializada.

“Se me chamasse para dar um parecer sobre isso, eu daria esse parecer, mas eu me cercaria, sim, de outros colegas, de outros profissionais para fazer as pesquisas necessárias, comparações, pedir os relatórios, verificar.”

Isso é importante porque o laudo vinha sendo usado politicamente como uma resposta às suspeitas envolvendo o financiamento de Dark Horse. Mas há uma diferença considerável entre verificar que um pagamento foi registrado contabilmente e determinar se aquele pagamento corresponde a um custo razoável e efetivamente relacionado à produção. A perícia fez a primeira coisa. Não fez a segunda.

Há outra limitação talvez ainda mais relevante. Desde que revelamos a negociação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, uma questão acompanha o caso: todo o dinheiro obtido com o banqueiro foi realmente usado no filme?

Uma das hipóteses investigadas é a possibilidade de parte dos recursos ter servido a outras finalidades. Entre as suspeitas que chegaram à Polícia Federal está a eventual utilização de dinheiro para financiar a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Perguntei isso diretamente a Castelo Branco.

“Qual é a teoria colocada em cima disso tudo? Que uma parte dos recursos negociados pelo Flávio com o Vorcaro teria sido utilizada para algo que não o filme. Então, por exemplo, que tenha ficado lá com o Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O senhor tem essa resposta?”

Não consigo controlar o que acontece da terceira camada para trás”. Depois, apontou o caminho que, em sua avaliação, deveria ser seguido por quem pretende investigar o destino posterior dos valores: “Se você quiser saber se tem alguma coisa que pode ter, você tem que ir no prestador de serviço dessas empresas.”

E deu um exemplo: “Eu paguei R$ 10 mil para uma empresa que prestou um serviço por R$ 10 mil e o preço de mercado é R$ 10 mil. Se ela pegou esse dinheiro que recebeu e deu para alguém, isso eu não posso, digamos assim, controlar. Porque eu não controlo o que acontece nas empresas que recebem dinheiro.”

É uma lacuna essencial. A perícia pode dizer que determinada empresa recebeu dinheiro. Não pode dizer, a partir daí, o que essa empresa fez com os recursos. E é justamente nessa camada posterior que uma investigação sobre eventual desvio para terceiros precisaria avançar.

Há ainda uma contradição curiosa na explicação do professor. No exemplo usado durante a entrevista, Castelo Branco disse que seria capaz de afirmar que uma empresa foi contratada e paga “a preço de mercado”. Mais adiante, porém, quando perguntei especificamente sobre Dark Horse, ele reconheceu que não fez a análise destinada a determinar se os custos do filme estavam ou não de acordo com os preços do mercado audiovisual.

A entrevista também tratou sobre um ponto importante: a origem do dinheiro. Castelo Branco afirmou ter em mãos registros das transferências realizadas pelo fundo Havengate Development LP para a GoUp Entertainment.

Perguntei: “O senhor tem as notas fiscais que indicam que o fundo Havengate transferiu aqueles US$ 12,3 milhões para a GoUp?”

“Sim. Eu tenho documentos registrados de todas as transferências feitas do fundo Havengate para a GoUp. Eu tenho. De todas. É fracionado. São vários pagamentos de datas diferentes. Porque existia um contrato, um contrato deles lá firmado entre eles. E aí tem todos os pagamentos da Havengate para a GoUp.”

Perguntei quanto essas transferências somavam. “Aí você me pegou. Não tenho esse número exato. Posso até levantar e te passar.” Então fiz outra pergunta. O laudo aponta um custo total próximo de US$ 13,4 milhões. Esse dinheiro teria vindo integralmente do Havengate?

“Eu diria que, se não 100%, muito próximo disso. Eu diria que a maior parte mesmo é oriunda do Havengate”, declarou.

A resposta ajuda a estabelecer algo importante: segundo o próprio responsável pela perícia, o fundo americano esteve na origem da imensa maioria — possivelmente da totalidade — dos recursos identificados como usados para bancar o projeto.

Mas o fato de o dinheiro ter chegado do Havengate à GoUp não encerra a investigação. Na realidade, é justamente a partir daí que começam algumas das perguntas ainda sem resposta.

Quem recebeu da GoUp? Quanto recebeu? Pelo quê? Os preços eram compatíveis com o mercado? E, depois que o dinheiro chegou a esses fornecedores, para onde foi? A perícia que Flávio usa para declarar “página virada” não responde integralmente a essas questões.

Talvez por isso a própria Polícia Federal tenha decidido pedir mais informações. Durante a entrevista, Castelo Branco revelou que recebeu um ofício da PF solicitando dados referentes ao trabalho.

Segundo ele, porém, o pedido foi formulado de maneira ampla. “O que acontece: eles [a Polícia Federal] fizeram um ofício um pouco genérico. Não especificaram como é que eles querem essa informação.” Ele contou que respondeu rapidamente ao documento, mas pediu esclarecimentos.

“Muitas coisas que você está aqui perguntando talvez eu até tenha mesmo que responder por conta do ofício da Polícia Federal, de uma forma mais clara. O que nós fizemos? Acusamos recebimento do ofício, respondemos ao delegado da Polícia Federal e pedimos que ele apenas clarificasse todos os dados que ele quer esclarecidos de forma mais clara. Porque não estava muito claro para nós como eles querem essa resposta”, disse ele.

Perguntei se entre os documentos requisitados estaria justamente o registro da transferência do Havengate para a produtora. “Com certeza está. Com certeza está.”

O professor afirmou que uma das preocupações é preservar dados protegidos por sigilo bancário. “O nosso cuidado é o nome das pessoas e o sigilo bancário das pessoas. Agora, se um ministro do Supremo determina que eu tenho que fornecer assim, aí é ele que está quebrando o sigilo das pessoas, não somos nós.”

Na sequência, deixou claro que possui informações que não apareceram no documento divulgado até agora. “Nós não temos nenhum problema em dar os nomes das pessoas, quem foi, quem recebeu.”

Essa declaração ajuda a explicar uma das principais críticas feitas desde que a perícia veio a público. O documento informa valores gerais, separa gastos nacionais e internacionais e apresenta categorias de despesas. Mas não traz, de maneira individualizada, todos os fornecedores, pagamentos e documentos fiscais que permitiriam reconstruir o fluxo integral do dinheiro.

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Castelo Branco fez questão, durante a conversa, de negar qualquer alinhamento político com Flávio ou com o bolsonarismo. Perguntei sobre sua participação em um programa da Revista Oeste e sobre sua relação profissional de aproximadamente dez anos com Ricardo Sayeg, advogado conhecido por posições públicas à direita.

Ele respondeu: “Eu não me considero uma pessoa nem de esquerda, nem de direita. Bem claramente. Se você me viu na Revista Oeste, eu falei coisas técnicas ali. Em nenhum momento eu defendi espectro político. Eu sei que lá o pessoal realmente é de direita, em nenhum momento eu me posicionei contra o governo A, o governo B.”

E acrescentou: “Meu trabalho sempre será técnico. Não sou candidato a nada. Não serei candidato a nada. Não tenho interesse nenhum em ser candidato a nada.”

Talvez a melhor síntese da entrevista esteja na diferença entre duas frases pronunciadas nesta quinta-feira. Flávio Bolsonaro diz: “Página virada.” O responsável pela perícia diz: “Pode ser que agora a gente tenha que fazer um outro tipo de prestação de conta.” Parece que ainda há algumas páginas para ler.

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