Passados três meses das primeiras revelações da série Vaza Flávio, tenho a impressão de que o caso começa, pouco a pouco, a desaparecer do debate público e, sobretudo, do debate eleitoral. Perguntas importantes sobre a relação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro e sobre o financiamento do filme Dark Horse continuam sem respostas, enquanto outros assuntos passam a ocupar o noticiário e a campanha.
Na esfera policial, o ritmo também tem sido lento. O inquérito da Polícia Federal destinado a investigar os repasses de Vorcaro, sob relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, só foi formalmente aberto em 23 de julho, mais de dois meses depois das primeiras revelações.
A investigação foi autorizada após parecer favorável da Procuradoria-Geral da República. Até aqui, porém, são poucos os desdobramentos públicos conhecidos da apuração. É por isso que considero importante continuar revisitando os documentos que deram origem à reportagem mais importante da eleição presidencial de 2026.
Antes de entrar nos detalhes, uma explicação sobre a origem das informações que publico hoje: esta reportagem é baseada no mesmo conjunto de mensagens entre Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e outros personagens que obtive e revelei, junto com a equipe do Intercept Brasil, em maio deste ano, na série Vaza Flávio. Após minha saída do Intercept, obtive novamente esse material junto a uma fonte e passei a analisá-lo de forma independente. Não se trata, portanto, de um novo vazamento nem de um novo lote de documentos.
Mas, ao voltar a esse material, encontrei algo que considero importante para dimensionar a relação entre Flávio e Vorcaro: as ligações telefônicas entre os dois.
Os registros das conversas por telefone aparecem em meio às mensagens e aos áudios trocados pelo WhatsApp e ajudam a reconstruir momentos importantes dessa relação.
A reportagem traz detalhes até agora INÉDITOS sobre esses contatos: quem procurou quem em cada ligação, quanto tempo durou cada conversa e em que contexto elas aconteceram. Vamos aos fatos!
Os registros das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro mostram que a relação entre os dois não ficou restrita às mensagens de texto e aos áudios enviados pelo WhatsApp. Em setembro de 2025, o senador e o banqueiro falaram ao telefone ao menos cinco vezes, em chamadas que somaram 6 minutos e 20 segundos.
A ligação mais longa registrada ocorreu em 8 de setembro de 2025 e durou 2 minutos e 38 segundos. Ela aconteceu instantes depois de Flávio enviar a Vorcaro o famoso áudio de 1 minuto e 31 segundos, às 22h11 daquela segunda-feira, cobrando uma posição sobre os recursos destinados ao filme Dark Horse.
Enquanto o áudio virou até música da genial Amanda Magalhães, o que se deu nos minutos seguintes teve quase nenhuma visibilidade nas reportagens sobre o caso. Depois de enviar a mensagem de voz, Flávio ainda escreveu: “Preferi te mandar um áudio pra vc ouvir com calma aí, mermao! abs!”.
Vorcaro, então, respondeu: “Fala irmão”. “Te peço desculpas, semana passada foi muito difícil pra mim”. Em seguida, ainda às 22h12, prometeu: “Eu vou resolver amanhã”.
A promessa não foi suficiente para acalmar Flávio. No mesmo minuto da resposta de Vorcaro, ainda às 22h12, o senador fez uma ligação para o banqueiro. Os dois conversaram por 2 minutos e 38 segundos. O conteúdo dessa conversa não aparece no vazamento.
Oito dias depois, em 16 de setembro, houve uma nova conversa telefônica. Às 11h07, Vorcaro procurou Flávio: “Opa. Tudo bem?”. Às 11h45, Flávio respondeu: “Fala mermao” e, logo depois, “Retornei”. A mensagem indica que, nesse intervalo, Vorcaro havia tentado falar com o senador por telefone. Nem essa primeira chamada nem o aparente retorno de Flávio aparecem registrados na conversa do WhatsApp, o que sugere que tenham sido feitos pela rede telefônica convencional.
Dois minutos depois, às 11h47, Vorcaro ligou para Flávio — desta vez pelo WhatsApp, como mostra o registro preservado no vazamento. A conversa durou 42 segundos.
Esse detalhe impõe uma ressalva importante aos próprios números desta reportagem. Se Flávio e Vorcaro também faziam chamadas fora do WhatsApp, podem ter ocorrido outras ligações entre os dois que simplesmente não são visíveis no material obtido. Por isso, os cinco telefonemas identificados representam um número mínimo, e não necessariamente a totalidade das conversas telefônicas entre eles.
As três últimas chamadas identificadas ocorreram em 24 de setembro de 2025. Naquele dia, Flávio e Vorcaro falaram por telefone três vezes: às 13h38, por 45 segundos; às 17h46, por 25 segundos; e às 22h, por 1 minuto e 50 segundos. Somadas, as três ligações duraram exatos três minutos. Em todas elas, o responsável por fazer a ligação foi Flávio Bolsonaro.
O contexto da terceira e última chamada do dia chama atenção porque indica uma articulação para um possível encontro presencial. Às 21h25, Vorcaro escreveu que precisaria permanecer em São Paulo e perguntou se os dois poderiam se encontrar na terça ou na quarta-feira seguinte, em Brasília. “Fala irmão, veja o que for melhor pra vc. Vou estar aqui a semana toda”, respondeu Flávio. Às 21h59, Vorcaro propôs: “Quarta 14:30?”. Um minuto depois, às 22h, os dois começaram a ligação de 1 minuto e 50 segundos.
Não é possível afirmar, a partir dos registros, que o encontro chegou a acontecer. A sequência das mensagens, porém, mostra que a chamada ocorreu imediatamente depois de os dois discutirem data e horário para se encontrar pessoalmente em Brasília entre o fim de setembro e o início de outubro de 2025.
Até o momento, o único encontro presencial de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro confirmado pelo candidato do PL à Presidência da República ocorreu em novembro daquele ano, quando o dono do Banco Master já havia sido preso e estava com tornozeleira eletrônica, em São Paulo.
Essas ligações têm importância porque o vazamento original publicado pelo Intercept permitia cravar que US$ 10,6 milhões haviam sido enviados por Daniel Vorcaro ao Texas. Mas um relatório do Coaf obtido posteriormente pela Piauí mostrou que o valor total transferido chegou a US$ 12,3 milhões — uma diferença de US$ 1,7 milhão.
Ou seja: depois da cobrança de Flávio, da promessa de Vorcaro de que resolveria a situação “amanhã” e das chamadas telefônicas entre os dois, mais dinheiro chegou ao Texas. Os registros disponíveis não permitem afirmar que os contatos telefônicos destravaram diretamente essa parcela final.
Mas a sequência dos fatos indica que a pressão de Flávio surtiu efeito e torna inevitável uma pergunta: o que foi discutido nas ligações e qual foi seu papel na liberação dos recursos que ainda faltavam?
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As ligações, de todo modo, reforçam a necessidade de respostas sobre uma relação que foi além de mensagens e áudios. E há uma pergunta ainda mais importante que continua sem resposta: onde estão as notas fiscais do Dark Horse? São esses documentos que permitiriam uma prestação de contas minimamente adequada sobre o destino do dinheiro destinado ao filme — quanto foi efetivamente gasto, com quem, em quais serviços e para onde foram os recursos.
Enquanto essas notas não forem apresentadas, continuará faltando uma peça fundamental para saber o que, afinal, foi feito com o dinheiro colocado no projeto. E essa é uma pergunta que não deveria desaparecer do debate público apenas porque o caso começou a perder espaço no noticiário.
Procurei a assessoria de Flávio Bolsonaro antes da publicação desta reportagem. Perguntei ao senador sobre o contexto e o teor das ligações mantidas com Daniel Vorcaro em setembro de 2025 e também se ele poderia apresentar as notas fiscais e demais documentos de prestação de contas relativos aos recursos destinados ao Dark Horse. Até a publicação deste texto, não recebi resposta. Em caso de retorno posterior, ele será adicionada à reportagem.
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Obrigado pela leitura e até a próxima!
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