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Radar do Desenvolvimento - Paulo Gala · Aug 17, 2026

A gente já soube fazer isso

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Paulo Gala · Radar do Desenvolvimento - Paulo Gala

Olá!

Em 1953 o Brasil abriu um processo que levou cinquenta anos para dar resultado.

E eu não estou falando por figura de linguagem. Foi literalmente isso: o Estado criou uma empresa, a empresa formou geólogo, o geólogo aprendeu a operar em água rasa, depois em água profunda, depois em ultraprofunda. E aí, meio século depois, achou o pré-sal.

Deu certo. Foi um dos projetos mais bem-sucedidos da história econômica deste país.

E a gente nunca mais abriu outro.

Repara na sequência: formou, aprendeu, achou. Nessa ordem.

Ninguém acha o que não sabe procurar. A camada do pré-sal está lá embaixo há milhões de anos, debaixo de quilômetros de água, de rocha e de uma capa de sal que atrapalha até a leitura sísmica do que tem por baixo dela. Enquanto não existiu no Brasil gente capaz de enxergar através daquilo e de furar aquilo, aquele petróleo não era petróleo. Era pedra.

Isso é complexidade econômica na veia, e é a coisa mais mal compreendida do debate brasileiro. Recurso natural não é o que está debaixo do seu chão. É o que você sabe tirar de lá. A jazida não vale nada sem a capacidade, e a capacidade demora décadas e é cara, e é por isso que quase nenhum país constrói.

O Brasil construiu. Uma vez.

Vale lembrar de uma coisa que hoje ninguém lembra: nenhuma das grandes petroleiras internacionais achava que existia petróleo relevante no Brasil. Elas não investiram aqui. Não era conspiração nem sabotagem, era avaliação técnica delas. Elas olharam, acharam que não valia a pena e foram embora.

Getúlio criou a Petrobras assim mesmo, com “O petróleo é nosso” e o país inteiro brigando por causa disso.

O ponto que eu faço é o seguinte: se a decisão dependesse do cálculo de retorno de quem entendia do assunto, o Brasil não tinha entrado nesse negócio. O mercado fez a conta certa com a informação que tinha, e a conta deu não. A decisão de entrar assim mesmo foi política. E olha onde a gente chegou.

Repara no tamanho do que isso significa. A capacidade que a gente tem hoje só existe porque alguém, uma vez, teve autoridade para contrariar o consenso técnico do próprio setor.

Agora o teste que separa a conversa séria da conversa de boteco.

A Coreia do Sul não tem petróleo. Nenhum poço, nenhuma reserva, nada no subsolo. Importa cada gota que queima. E é mais rica que a gente, com uma das indústrias mais sofisticadas do planeta.

A Venezuela está sentada na maior reserva provada de petróleo do mundo. A maior. E quebrou.

Então quando alguém te disser que o problema do Brasil é falta de recurso, você já tem os dois contraexemplos na mão. Um país sem nada que ficou rico e um país com tudo que ficou pobre. A variável que explica os dois não está no subsolo, está no que cada um aprendeu a fabricar.

É a estrutura produtiva. Sempre foi.

Tem uma pergunta honesta que aparece aqui: por que só o Estado faz esse tipo de coisa?

Não é porque empresário é ruim ou porque estatal é boa. É aritmética de prazo. Entre criar a Petrobras e produzir no pré-sal passaram mais de cinquenta anos de formar geólogo, errar poço, montar centro de pesquisa, financiar tese de doutorado na Coppe, obrigar fornecedor a se sofisticar por causa de conteúdo local, e depois montar uma cadeia inteira de válvula, sonda, plataforma e software embarcado que hoje exporta engenharia.

Nenhum trimestre paga essa conta. Nenhum acionista aprova. Não existe empresa privada no mundo que financie cinquenta anos de aprendizado sem produto no fim de cada ano, e ela estaria certa em não financiar, porque não é essa a função dela.

Aprendizado tecnológico é uma externalidade. Quem paga não é quem embolsa. O engenheiro que a Petrobras formou vai trabalhar depois num fornecedor, o fornecedor exporta, e o país fica com uma capacidade que não estava no balanço de ninguém. É exatamente o tipo de coisa que o mercado sozinho não produz, e é exatamente o tipo de coisa que decide se um país é rico ou pobre.

Coreia fez isso com chip e navio. A gente fez com petróleo em água ultraprofunda. Funciona.

Então a pergunta não é se o Brasil é capaz. Isso está respondido, e está respondido com quarenta anos de engenharia offshore documentada.

A pergunta é: o que a gente encomendou desde então?

Porque a Petrobras foi uma encomenda. Alguém sentou, olhou pra frente cinquenta anos e disse: eu quero que este país saiba tirar petróleo do fundo do mar. E aí montou empresa, centro de pesquisa, universidade e regra de compra para fabricar essa capacidade do zero.

De lá pra cá, o que a gente encomendou nessa escala? Quase nada. A gente ficou discutindo produtividade, discutindo carga tributária, discutindo o tamanho do Estado, e não discute a única coisa que muda o jogo, que é o que o país está aprendendo a fazer agora e não sabia fazer dez anos atrás.

O método existe. Está escrito, está documentado, e funcionou.

O problema é que a gente tratou o resultado como sorte. E quem acha que ganhou na loteria não guarda o bilhete premiado: guarda a lembrança de ter ganhado.

P.S.: Se você chegou até aqui com aquela sensação de que a história do “país rico em recursos naturais” nunca fechou direito, é porque ela não fecha mesmo. Na Aula 2 do meu curso gratuito “A Lente da Complexidade” eu mergulho exatamente nisso: por que soja não vira riqueza, e por que ter o recurso é a parte fácil. São 10 aulas com mergulhos profundos, em formato de e-mail, uma por dia, e já passaram mais de 6.000 alunos por elas. Não custa nada e muda a lente com que você lê o Brasil: http://leiaobrasilcerto.com

Abraços,

Paulo Gala

Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10,000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3,000,000,000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.

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Read the original on paulogala.substack.com

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