Olá,
Em 2019, os Estados Unidos cortaram a China do acesso aos chips mais avançados do planeta. Era pra ser o golpe fatal.
A lógica era simples e brutal: sem chip de ponta, não tem 5G, não tem inteligência artificial, não tem futuro. Você trava o adversário na base da cadeia e assiste ele definhar. Foi assim que o Ocidente imaginou o final da história. E no papel faz sentido, porque chip avançado é a coisa mais difícil de fabricar que a humanidade já inventou. Ninguém sobe essa escada no susto.
Só que a China não leu o roteiro. Diante da sanção, ela fez a única coisa que um país sério faz quando o mundo tenta trancar a porta: começou a construir a própria chave.
E aqui entra o contraste que devia estar em toda capa de jornal do Brasil, mas não está.
Quando os americanos fecharam a torneira, o governo chinês despejou bilhões de dólares de dinheiro público num esforço nacional pra fabricar chip próprio. Não foi discurso, foi política industrial no osso: dinheiro público, encomenda garantida, estatal e privada empurrando junto na mesma direção.
E o resultado apareceu rápido demais pra quem apostava no fracasso. A China entregou um chip de 7 nanômetros com tecnologia nacional, num nível que o Ocidente jurava que ela só ia alcançar dali a uma década. Não é o chip mais avançado do mundo. Mas é a prova de que ela subiu um degrau que ninguém apostava que ela subiria debaixo de bloqueio.
O ponto não é o nanômetro. O ponto é a decisão. A China olhou pra sanção e enxergou uma ordem de serviço.
A gente também teve empresa de tecnologia. A gente também botou dinheiro público pra construir capacidade produtiva em setor complexo. E, num belo dia, a gente decidiu que aquilo era peso, não ativo.
Vendeu. Trocou capacidade produtiva por caixa de curto prazo. E chamou isso de eficiência.
Repara na assimetria, porque ela é o retrato do país. A China respondeu à agressão de fora construindo o que não tinha. O Brasil respondeu à própria burocracia demolindo o que já tinha. Um verticalizou sob fogo. O outro leiloou em tempo de paz. Eu brinco que a gente é o único país que descobre uma mina e vende a picareta.
E o mais duro nem é o prejuízo contábil. É o que foi junto: engenheiro formado, cadeia de fornecedor, conhecimento acumulado, o direito de estar na sala onde o futuro é fabricado. Isso não volta com uma canetada. Capacidade produtiva é que nem músculo: a gente leva vinte anos pra construir e seis meses pra atrofiar.
Quem olhou a estatal brasileira só pela planilha viu prejuízo e vendeu. Quem olha a mesma coisa pela lente da complexidade econômica vê uma história completamente diferente: vê um degrau na escada tecnológica, um ponto de apoio pra subir. A China vê chip como território. A gente via chip como despesa.
O analista convencional olhou aquela estatal e viu uma planilha no vermelho. Fim da análise. Quem enxerga pela lente da complexidade econômica olhou a mesma empresa e viu um degrau na escada tecnológica, capacidade produtiva que leva vinte anos pra construir. Mesma empresa, duas leituras, dois países diferentes no fim da história. A diferença não está nos dados. Está em quem sabe ler os dados.
O Ha-Joon Chang, professor de Cambridge, tem um livro chamado Chutando a Escada que é leitura obrigatória aqui. A tese dele é que os países ricos subiram a escada tecnológica e depois chutaram a escada pra ninguém subir atrás. O detalhe tragicômico do Brasil é que ninguém precisou chutar a nossa escada. A gente serrou os degraus por conta própria e vendeu no ferro-velho.
Você quer o resultado prático dessas duas lentes ao longo de trinta anos? Olha pra sua cozinha.
Um país continental, com engenheiro, com universidade, com mercado interno gigante, e a gente compra pronto quase tudo que tem chip, tela ou algum grau de sofisticação de verdade dentro. Aí, quando a gente não fabrica o complexo, sobra exportar o simples: minério, soja, o que a natureza dá e a inteligência não precisa tocar.
Não é que o brasileiro trabalhe menos que o coreano ou o chinês. É que a gente escolheu, decisão após decisão, ficar na base da escada. A China escolheu subir. E a diferença de renda entre os dois não é sorte, não é clima, não é caráter. É estrutura produtiva, construída ou demolida de propósito.
Se o buraco foi cavado por decisão, ele também se tapa por decisão. Não tem lei da física que condene o Brasil a comprar pronto o que é complexo pra sempre.
Mas isso exige inverter a lente antes de inverter a política. Enquanto a gente tratar indústria complexa como gasto e commodity barata como vocação, vai repetir 2019 do lado errado toda década. A China provou que dá pra reagir. Provou que o degrau existe. O que sobra é a gente olhar pra própria escada e finalmente decidir subir, em vez de vender os degraus no ferro-velho.
E a boa notícia é que essa lente se aprende. Aprendeu, muda tudo que você lê sobre o Brasil depois.
P.S.: Você reparou que a diferença entre a China e a gente não foi dinheiro nem engenheiro? Foi a lente. Eu mergulho exatamente nisso na Aula 6 do meu curso gratuito “A Lente da Complexidade”, onde eu mostro por que os países ricos escondem que o segredo nunca foi abrir a economia e rezar, e sim aprender a produzir o complexo. São 10 aulas com mergulhos profundos, uma por dia, de graça, que mudam o jeito como você lê o Brasil. Mais de 6.000 pessoas já viraram essa chave. Começa aqui: http://leiaobrasilcerto.com
Abraços,
Paulo Gala
Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10,000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3,000,000,000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.
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