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The Magic Letter · Jul 19, 2026

"Patricia, será que ela vai lembrar de mim quando ficar mais velha?"

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Patricia Putz · The Magic Letter

Olá, como você está?

Eu estou debulhando em lágrimas enquanto escrevo vou bem.

De verdade, vou bem. As lágrimas são de um coração que ama por inteiro.

“Demais” não existe, mas sim, que ama “tudo” — como falamos em casa.

Muita gente não sabe desta parte da minha história, mas dos meus 13 aos 18 anos nós (eu, minha irmã e minha mãe) fomos morar com minha avó Dirce.

Ahhh, vovó Dirce.

Uma mulher fantástica (palavra que tanto ouvi saindo de sua boca entusiasmada durante uma conversa sobre mais uma de suas aventuras, debruçadas na mesa da copa da cozinha).

De Fevereiro de 1935, filha de um sapateiro italiano com uma curandeira portuguesa, passou a infância na Praça da República, em SP, num “casarão mal-assombrado”, como ela sempre diz.

A terceira de cinco filhos, que sempre cuidou de tudo e de todos, especialmente de si mesma (sempre foi exemplo disso também!). Enquanto minha mãe era uma força da natureza (mais parecendo um tornado ou furacão muitas vezes), minha avó era aquele sol que insistia em nascer mesmo depois de dias difíceis: com um sorriso no rosto e a frase sobre a importância de ‘sempre pensar positivo!’. Ela brilhava e resplandecia amor, acolhimento e esperança. Para todos.

Tem uns anos que, bem, ela vem envelhecendo. E agora, graças ao privilégio do destino, ela e meu avô construíram uma casa deliciosa no interior de São Paulo, que nos recebe vez ou outra para passar uns dias (eu, meu marido, e nossos dois pitucos de 2 e [quase] 4 anos).

E, com isso, tenho a felicidade em estar perto de toda a grandeza dessa mulher que sempre foi tanto para mim. Mas, agora, de um lugar mais maduro.

Sem a impaciência e a braveza da adolescência (que ainda carrego um tanto, confesso). E, o melhor de tudo: podendo ser para ela o que ela foi (e é) para mim.

Hoje ela não acordou bem e pude esquentar uma canja para servi-la. E cortar uma maçã! Descascada! Em quatro pedaços.

Pude segurar sua mão enquanto assistíamos à disputa pelo terceiro lugar na Copa do Mundo.

Pude observá-la de perto, cada traço especial do seu ser, e me aquecer ao mesmo tempo em que me desfaço no constante lembrete de que a vida não é para sempre.

E que uma vida bem vivida, no fim, se resume a ter com quem compartilhá-la. Mesmo aos 91 anos.

Não foram poucas as vezes que minha avó comentou, durante esses dias aqui, que ela tem três anjos (vovó Dirce sempre amou anjinhos, e tem uma [muito nostálgica] coleção deles, em sua mesa de cabeceira):

Minha tia, meu tio, e minha mãe. E, quem possibilitou que esses anjos chegassem até ela, meu avô (que, depois de 29 anos de casados, a deixou por uma mulher mais jovem, e se separou dessa mulher 14 anos atrás para voltar com a minha avó1).

Meu avô tem 90 (quase 91), e tem uma disposição impressionante. Só nos últimos 5 dias que passamos aqui (Itu), fez duas viagens (bate-volta) para São Paulo, para resolver burocracias de cartório e outros documentos.

E é ele quem cuida dela, hoje. Quando ela precisa, mas, muitas vezes, quando não precisa também. Indo ao mercado, esquentando o jantar, trazendo um copo d’água…

Ou seja: o mundo dá voltas. E, no fim, o que importa são sempre, sempre, sempre, as relações que temos.

Minha avó tem uma melhor amiga de infância até hoje, a Lourdes (de 92 anos), e, ainda poucos anos atrás, elas se encontravam semanalmente. Provando que nem só de relações familiares a gente se abastece.

Minha avó paterna (Sueli) fez sua passagem 2 meses depois que meu filho mais novo nasceu (Jul/24). Apesar do amor, nossa relação nunca foi de convívio constante, e em algumas ocasiões minha avó contou o quanto sentia por isso.

Então, claro, as coisas são diferentes.

Eu não senti a dor da sua ausência porque não tive o prazer da sua presença.
Mas eu senti o seu amor, e sigo sentindo-o.

Numa madrugada, ninando e amamentando meu filho ao mesmo tempo, pude receber o auxílio de sua presença colocando uma mão sobre meu ombro.

Tantas vezes, nesses momentos, sentia minha avó junto da brisa ou do barulho do vento, me ajudando a continuar o árduo trabalho que ela sempre fez com maestria (ser mãe).

Enquanto minha avó Dirce era meu ícone de bon vivant, minha avó Sueli era minha visão do pilar matriarcal tradicional. Mesmo cercada por 3 homens (seu marido e dois filhos), a palavra final era dela. O que meu avô trazia financeiramente era dela e para usufruto dela (ou, como ela preferisse)2.

E não é que eu não tenha certeza que minha avó Dirce vai estar sempre comigo assim como minha avó Sueli segue, mas…

É impensável que o mundo continue igual depois que o Sol se apague, sabe?
Talvez por isso que ele vá dimming com o tempo (a velhice faz isso).

Hoje, minha avó, que está com muitos desconfortos estomacais, me disse “não sei o que tem de errado com meu estômago!”.3

Ela não está com febre nem nada específico, já consultamos o médico homeopata da família (sobrinho dela, e um gênio da medicina), e eu apenas respondi “é, vó, acho que é por ser um estômago que já fez 91 anos!”.

Imagina.
Imagina carregar os mesmos ossos por noventa e um anos. Ou, os mesmos ossos te carregarem por esse tempo.

Imagina, a mesma pele. PQP, que privilégio, sabe. Enrugar. Envelhecer.

Tendo filhos pequenos, com aquela pele macia e lisiiiinha, ver que é essa mesma pele que segue com a gente para sempre… É de se bater palmas para o nosso corpo.

E não é de se estranhar que esses mesmos órgãos estejam… cansados.

Aqui em Itu, ouvi pela primeira vez uma série de frases que me marcou.

Precisei ir dormir chorando muito para processar tudo isso. E escrever esse texto chorando muito.

“Patricia, será que ela vai lembrar de mim quando ficar mais velha?”

— Minha avó sobre a Mali, no dia em que chegamos.

Minha resposta: “é claro, vó!”
Nem que eu tenha que garantir para ela que você continue viva em suas lembranças, pensei.

minha avó e a Mali, em 2022

“Patricia, o que eles acreditam que acontece quando alguém morre?”

— Minha avó, a respeito dos meus filhos, dois dias depois de chegarmos.

Minha resposta: “que nós vamos para o céu e viramos estrelinha.”
E que estamos sempre presentes, esqueci de completar.

“Patricia, como você acha que é a morte?”

— Minha avó, sabendo que sou muito ‘espiritualizada’ mas não religiosa.

Minha resposta: contei sobre um sonho impressionante que tive, com meu falecido sogro, onde ele me contou como era. Foi em 2018 e ainda me lembro em detalhes.
P.S.: minha sogra teve o mesmo sonho, na mesma noite. Tirem suas conclusões.

“Acho que meu tempo está chegando.”

(não respondi, só tenho aceitação sobre isso)

“Ele se foi dormindo… Eu quero ir assim. Se eu puder escolher, ir dormindo seria a minha escolha. Tão pacífico, você nem percebe.”

Fui dormir rezando para Deus para que seja assim.
Porque, nesse dia, minha avó também contou que reza para todos os seus irmãos que já se foram (e a que está aqui), e seus pais, para que sigam tendo uma vida e um ‘pós vida’ lindo — e pensei que o mínimo que posso fazer é propagar isso por ela aqui também.

as quatro gerações de mulheres, em 2023

Citei meus filhos algumas vezes, e vejo que o envelhecer 90+ tem sido muito similar ao crescer 1+:

Você precisa de ajuda para andar. Algum apoio, outros braços, outras mãos.
Pode ser que acorde de madrugada, ou que tenha mais dificuldade para dormir.
E, o mais surreal (e full circle) de tudo: em um mês você observa diferenças sutis.
Mas em um ano, as mudanças são intensas.

em 1995 (ou 96), minha avó comigo em X em 2025, agora bisa, com meu filho Villas

No início de 2025 fomos para a praia de Guaecá, onde passei meus verões, crescendo. Eu, meus filhos, meus avós e meus tios aproveitamos um dia lá, que está a apenas uma balsa e alguns minutos de Ilhabela.

Estávamos nos despedindo da casa que foi dos meus avós quando minha mãe era criança, ficou para minha avó no divórcio, depois passou para o meu tio — e ele estava prestes a demoli-la, para construir uma nova.

Esses dias aqui, apareceu uma memória no meu celular, dessa viagem.

Fotos da minha avó de maiô, sentada na areia com meus filhos. Caminhando com eles, de mãos dadas, enquanto minha mais velha chutava água no rasinho do mar.

Outra memória, de um almoço com meus avós visitando a Ilha. Eu, crianças, e eles em um restaurante que eu adoro.

Se fôssemos recriar essas ocasiões hoje, seria tudo tão diferente…

Pouco mais de um ano de diferença.

Uma vida de descobertas e possibilidades novas, para meus filhos. E uma vida longa e de mais algumas limitações, para meus avós.

P.S.: Comecei a primeira versão desse texto enquanto ouvia minha avó contar, para a minha filha, o mesmo tipo de historinha que ela contava para mim (cena no vídeo acima). A magia se propaga de tantas formas…

Termino de escrever no escritório do meu avô. Cercada por fotos dos meus antepassados nas paredes, olhando para o computador do vovô Percy e lembrando da última vez em que estivemos aqui, onde ele mostrou um vídeo (vídeo!) dele bebê. E outros de peripécias da família que o precedeu.

Termino cercada pelas memórias dos que vieram antes de mim. Das bênçãos e dores e fullness of lives que vieram antes da minha. E com a certeza de que o ser humano precisa disso. Precisa de origem.

Nada é tão difícil quando um se conecta com a sua.

Seja por memórias vivas (como meus avós e sua casa-museu), seja por intenção e energia.

Mas, é, o freaking privilégio. De se viver. De se amar.

termino cheia de lágrimas escorrendo. e um agradecimento sincero a você que me leu, porque eu precisava dar vazão a tudo isso que se remexe dentro do meu peito.

E por último: na minha primeira noite aqui, quando eu estava segurando muito o choro para colocar meus filhos para dormir, me perguntei como?, por quê?, de que forma eu poderia lidar com isso?

A resposta veio assim que meus filhos fizeram algo gracioso/engraçado, e eu saí da tristeza para a alegria.

— A vida continuando.

(take it as you will)

1

Ela sempre conta a história: sofreu demais na separação, mas depois de dois anos decidiu fazer aquilo que mais amava — viajar o mundo. Deu a volta ao mundo de navio 2x (e 1x de avião!), esteve no Tibete e Nepal (seus preferidos), em cada cruzeiro paradisíaco pelo Caribe e tantos mais por lugares turísticos e os nada turísticos 30-40 anos atrás. Nisso, numa viagem à China, um místico leu sua mão e disse que ela continuaria solteira e viajando (ela teve dois namoros sérios, ambos americanos chamados “Bob”[!]), e que, aos 70+ anos de idade, o marido retornaria. E, caberia a ela aceitá-lo ou não. Depois de muito ponderar (e com o spoiler que já dei aqui), ela o aceitou. E o mais legal: se casam mês que vem (o divórcio dele com a segunda esposa saiu, e estão fazendo um casamento oficial em cartório aqui na casa deles, para celebrar);

2

Longe de romantizar as coisas. Uma vez minha avó me contou uma história dela recém casada, e foi uma tragédia. Esse ‘reinado matriarcal’ foi conquistado com muito, muito empenho, lágrimas, renúncias e, por fim, veio a valorização.

3

Revisando essa news antes do envio, venho comunicar que hoje, o dia seguinte de quando escrevi, minha avó já acordou muito melhor. Era mesmo “só” um estômago que tem seus noventa e um anos.

Read the original on patiputz.substack.com

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