Depois de dois anos e meio pelo Brasil, voltamos para o ponto de partida. Há quase dois meses estou na França novamente. Essa news vai ser uma atualização dos últimos tempos, das criações, das experiências, descobertas, visitas etc.. beijos!
1- PINTURA COMO COR
No mês de maio em Brasília participei da exposição coletiva organizada pela Gisel Carriconde e pelo Pedro Gandra no deCurators. Para mim foi uma grande alegria concretizar esse projeto que eu e Pedro já vínhamos conversando há pelo menos 2 anos. A exposição ‘PINTURA COMO COR Vermelho Laranja Amarelo Verde Azul Anil Violeta’, fez parte do 3º módulo do ciclo de pintura do deCuratos, que começou em 2023 e já teve temas como Pintura como objeto e Pintura e narrativa. Nesse módulo, a cor era o tema central da expo e eu fiz parte com dois trabalhos, uma pintura sobre tela e o protótipo de pintura ativa que vocês já conhecem de edições passadas dessa newsletter.
1. Sem título, 2024
acrílica sobre tela
30x20cm
2. Protótipo pintura - paisagem, 2023
Papel paraná pintado e recortado, arame de metal e fita
36x22cm
Residência
No mês de junho passei 10 dias em Paris para uma residência na Yellow Cube Gallery e a Superette du quotidien, localizados no 13ème arrondissement. Durante os 3 meses de primavera a galeria recebeu diversos artistas para o desenvolvimento de seus projetos artísticos. Ao longo da residência tivemos ricas trocas com a curadora Roxanne Hemery e com as artistas residentes Safia (francesa) e Waxin (chinesa) e com Patrick (francês). Esta foi minha primeira experiência em residência, e apesar de curta foi muito proveitosa para mim. Ter um espaço exclusivo para a criação e construção de um projeto, sem falar das trocas e novos contatos.
Eu achei oportuno aproveitar a residência para desenvolver algumas ideias que eu já tinha de pinturas ativas, também chamadas pelas mais variadas pessoas de ‘móbiles’. Eu entendo o termo, as referências de Calder etc., mas eu os considero mesmo pinturas ativas, como foi desde o início, porém, não me incomoda chamá-las de móbiles, só para constar.
3- Je suis ici
Eu tinha três rascunhos no meu caderno e o primeiro deles que saiu do papel se chama "Je suis ici" / "Eu estou aqui". Esse corpo, impõe de certa forma sua presença de forma relevante, impossível de ser ignorada. O rosa quase flutuante, gira em torno de si mesmo, nunca se abstendo muito tempo na mesma posição. A peça sempre está produzindo uma expressão singular, única e efêmera. Esta cor, que muitas vezes carrega conotações sociais negativas, sendo comumente associada a um feminino frágil, fútil e infantil, foi intencionalmente escolhida para provocar uma nova experiência, primeiramente em mim mesma.
A obra é composta por dez peças iguais, com quatro variações de tamanho que vão do maior ao menor, convergindo para o centro. A disposição das peças cria um efeito de espelhamento, onde dois opostos iguais se encontram. Todas as peças foram pintadas no mesmo tom de rosa, importante detalhe, pois conforme a peça se movimenta no ambiente e é afetada pela luz e sombra, a tonalidade parece mudar completamente, dando a impressão de que cada lado tem uma cor diferente. Essa ilusão é o que mais me fascina, muita gente me perguntando se tem vários tons.
A música ‘Um corpo no mundo’ da Luedji Luna fala sobre imigração, sobre esse corpo que está aqui, desse outro lado do oceano, com toda sua bagagem histórica, social e se depara com esse novo lugar. ‘Je suis ici, ainda que não queiram não…’
Estudos e processo de criação
Je suis ici, 2024
Papel paraná pintado, nylon e argola metálica
1,23mx45cm
3- Été.Hiver | Inverno.Verão
Os opostos e a dualidade são elementos recorrentes no meu trabalho. Viver um inverno enquanto é verão no outro extremo, para mim, um símbolo poderoso de que duas coisas tão opostas podem coexistir. Embora eu não as viva simultaneamente, se pudesse escolher, não enfrentaria os invernos em janeiro e fevereiro enquanto todos no Brasil esbanjam fotos da Bahia e do carnaval no Rio de Janeiro. Não há lareira aconchegante que me faça preferir alguns meses de frio ao calor o ano inteiro…
Neste trabalho, a peça começa do maior para o menor, do centro para as extremidades, seguindo um degradê em três tons diferentes de cada cor, totalizando seis cores. Confesso que ainda acho estranho ver esses objetos no 'cubo branco' da galeria. Há algo de purista que nos permite ver sua essência, com sombras limpas nas superfícies das paredes e do piso, o que é bem interessante, mas, para mim, falta influências exteriores.
Fotos no atelier.
Été.Hiver, 2024
Papel paraná pintado, nylon e argola metálica
1,23mx45cm
4- A realidade é um alívio / La réalité est un soulagement
Essa pintura ativa era o principal objeto que eu gostaria de desenvolver na residência. Eu me propus o desafio de fazer uma pintura sobre tela que dialogasse com este objeto e assim exporem os dois juntos. Já adianto que não funcionou. Depois de três dias fazendo diversos estudos de cor e composição, entendi que são processos pictóricos diferentes e que naquele momento, daquele jeito, não ia sair o que eu desejava. Deixei pra lá e tomei a decisão de abrir mão da pintura e focar no objeto.
O interessante do processo é que, embora as pinturas ativas sejam corpos que se movimentam, afetam e são afetados, eu as imagino inicialmente como desenhos. Penso, desenho, pinto e, assim, transformo em algo diferente. Meu primeiro croqui desta peça foi imaginado ainda na Bolívia, provavelmente enquanto esperávamos a Kombi Capivara ficar pronta (para quem não lembra, ou não sabem foi o maior perrengue de viagem, mas já tô com saudades).
Complexifiquei a composição adicionando outras formas geométricas em relação ao croqui inicial, o que me deu trabalho em relação ao diálogo entre as cores que queria usar. Nenhuma forma geométrica se repete; elas são derivações umas das outras, se encaixam, e diferentemente dos objetos anteriores, não é um objeto único linear. Uma haste de metal de 1 metro de largura suspende três módulos, que chegam a 90 centímetros de comprimento.
Por mais que eu tente antecipar como será a obra, nunca será possível prever o que realmente ela virá à ser. A agonia de imaginar, de desenhar e redesenhar 300x, não poderá predizer a realidade. No momento em que a suspendi e vi o jogo de sombras duplas, triplas dançando na parede, eu entendi que a pintura ia dar conta disso e fiquei em paz com minha desistencia. A pintura é ativa e cada contexto em que ela for inserida um fenômeno diferente irá acontecer. Então, a realidade é um alívio!
A realidade é um alívio, 2024
Papel paraná pintado, nylon e argola metálica
1mx90cm
Obrigada por chegarem até aqui, em breve compartilho um pouco mais sobre algumas exposições que vi por aqui.
Abraços, Pamela
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