Olá! Antes de tudo, feliz ano novo! Que bom que chegamos até aqui. Desejo que esse ano seja tranquilo e de boas colheitas para a gente. Estava com saudades de compartilhar em como as vivências e estudos dos últimos tempos andam reverberando por aqui. Eu gostaria de falar sobre paisagem, devaneio, arte, sobre como os lugares que eu conheci estão se conectando comigo e entre si e como isso está se transformando por aqui. A carta de hoje é um ensaio, vamos dizer assim, do que anda se construindo e é apenas a primeira parte desse pensamento.
Julguei importante começar pelo devaneio, que já é um ‘objeto’ de meu interesse há muito tempo e pelo qual tenho muita atração e curiosidade. Por tantos anos neguei como se fosse um defeito, mas a verdade é que eu amo essa ‘sonharia’. Sinto-me confortável quando posso me conectar com alguma outra coisa além do que estamos sentindo com um dos 5 sentidos, mas que também não é um sexto sentido. Essa forma de ‘estar-no-mundo’ intensificou minha relação com o território e para com a paisagem, principalmente depois da minha mudança para a França, em 2016. Viver em outras terras nos faz nos questionar quem somos e qual nosso lugar nesse novo lugar. Dei-me conta que de onde eu venho também sou eu e isso é muito forte.
Em francês, a palavra equivalente ao devaneio é rêverie e vem da palavra rêve, que em português literal é sonho. Esse conceito, tanto o da rêverie, quanto do devaneio podem ser entendidos como um sonho acordado. É uma espaço de tempo que se escapa da realidade, mas ainda em estado consciente. Segundo Bachelard, (um dos meus autores preferidos) o devaneio é o elo entre pensamentos, lembranças e sonhos, e devanear é estar em situação de onirismo, mas como o fazemos acordamos, podemos de certa forma, controlá-los, guiá-los.
Bachelard cita no livro ‘A chama da vela’ um exemplo da imagem da rêverie que eu acho maravilhoso:
‘Só, à noite, com um livro iluminado por uma vela
-livro e vela, dupla ilha de luz, contra as duplas trevas do espírito e da noite.
Eu estudo! Sou apenas o sujeito do verbo estudar.
Não ouso pensar.
Antes de pensar, é preciso estudar.
Só os filósofos pensam antes de estudar.
Mas a vela se apagará antes que o difícil livro seja compreendido. É preciso não perder nada do tempo de luz da vela, grandes horas da vida estudiosa.
Se levanto os olhos do livro para olhar a vela, em vez de estudar, sonho.’ 2
Imagem 1: La lampe sur la fenêtre | 2021 | guache sobre papel | 42x29cm
Esse ‘fenômeno’ me acontece com frequência quando estou em movimento, que é toda a minha vida nos últimos 2 anos na estrada. Durante os deslocamentos uma das poucas coisas que eu posso fazer, além de conversar, é poder me concentrar nas paisagens que correm pela janela. E às vezes, por mais que eu não esteja atenta no que está se passando, sou capturada por alguma ‘substância’ desse lugar e sonho. Como se pudesse ser outra vida, sou tomada por uma surpresa ao me dar conta de onde estou, de quem sou, do que acabei de sonhar. É como se o próprio devaneio me trouxesse a noção da realidade. É preciso sonhar para estar no agora. E a partir desse momento, imagens se constroem, ideias vão germinando e eu me sinto cada vez mais os lugares que percorro.
Imagem 2: Fotografia Corpo nu e cru. Salinas del Bebedero, Argentina, 2023
As secas paisagens argentinas me proporcionaram devaneios profundos. Enquanto observava a paisagem que atravessamos, constatei que o que mais me fascina e assusta é que eu vejo uma extensão de mim, é como ver minha própria imagem refletida na aspereza e austeridade desses lugares. Tudo o que eu não conheço está alí e eu espio por uma fresta, à mim mesma, através dessas falhas geológicas. Um dia me chegou a imagem de um espelho, onde observo demoradamente e não me reconheço. Vasculho alí nas estranhezas e busco por alguma revelação, mas tudo segue em silêncio. Uma epifania também chega nas horas de descuido, né? Mas tudo é vasto demais, sinto-me nua, à mercê dos infinitos horizontes, da falta de limites, da grandeza das montanhas. Esta viagem é um eterno reconhecer para desconhecer-se, talvez a vida toda seja assim. E nisso eu vou desejando habitar esses lugares, me apropriar deles, me fundir de alguma forma, sê-los, transformá-los, assim como eles me transformam sem se dar conta. Fico com vontade de levar chuva, cor, vida para esses mundos tão desidratados. Seria isso tudo na verdade uma tentativa narcísica de ver meu reflexo como eu gostaria?
Acho importante suscitar que o entendimento que temos hoje de paisagem, é uma noção ocidental (euro centralizada) que foi conceitualizada entre os séculos XV e XVII, quando a noção de perspectiva foi concebida, fazendo compreender os territórios de forma bem cartesiana. A ‘natureza’ podia ser projetada, manipulada e sobretudo controlada, tornando-se então, paisagem. Logo, nós, humanos somos elementos distintos da paisagem pois somos superiores à ela. Em contraponto, há na Ásia oriental o conceito shanshui que quer dizer ‘fusão cósmica do homem e do universo’, não havendo essa separação entre ser humano e natureza. Também no Brasil, os Guaranis, não possuem esse conceito de ‘paisagem’ em sua cultura, pois não se vêem separados da natureza. O que se encontra é uma continuidade do corpo para com a terra. Ailton Krenak, líder indígena brasileiro do povo Krenak conta em seu livro ‘Ideas para adiar o fim do mundo’, do quanto fomos alienados do organismo terra, como se fossemos duas coisas separadas, citando exemplos sobre relações dos povos originários sul americanos para com as montanhas e os elementos da terra (indico a leitura!)3
Imagem 3: “Duques de Urbino”, de Piero Della Francesca ( 1467–1472). A paisagem ao fundo não representa um lugar real e a cidade vista ao fundo da duquesa é a cidade natal do pintor e não Urbino como pode-se pensar. É possível observar uma paisagem já alterada, delimitada por muralhas e pouca vegetação, sugerindo um território explorado e controlado (agricultura, construções, navegações…). Os duques em primeiro plano, o território em segundo representando também o território sob seus poderes.
Por muitos anos pintei paisagens. Comecei a pintar assim, na verdade, fazendo croquis e representações do que eu via. Em um segundo momento, me pus à reinterpretar esses lugares e à me apropriar do que via, até que e um terceiro momento eu comecei a pintar devaneios. Na ‘linha do tempo’ do meu trabalho é possível perceber essa mudança, que é absolutamente coerente com o que eu estava buscando em cada momento. Apesar de gostar muito da pintura da paisagem (esse ano quero pintar mais esse tema para mim mesma), não faz sentido agora trabalhar esse tema apenas através da pintura, já que meu propósito não é somente contemplá-las, ou representá-las, mas também ocupá-las e ser parte dela. Assim, depois de alguns meses de crise com a pintura, nasceu uma peça, instalação, performance que eu ainda não sei nomear.
A ‘instalação’ chuva. lluvia. pluie nasceu a partir das experiências desérticas, opacas e poeirentas que vivi nos últimos meses. Enquanto o pé resseca por conta do pó, do nariz saem gotas de sangue, a pele enruga e o espírito fica assustado, não se reconhece em nada. Tudo é demasiado, tudo é imenso, tudo é inóspito demais para se estar, porém estou e sou. Estou aqui, logo sou. É necessário que chova, que a água escorra do céu, que inunde as centenas de rios secos, ao menos simbolicamente. E assim, pela primeira vez levei chuva para o deserto do Atacama e para o salar de Uyuni e levarei para onde tiver que levar, ela está sempre comigo.
Imagens 4 e 5 : chuva. lluvia. pluie | 2023/2024 | Papel pintado, fio de nylon, miçanga | Dimensões variadas. | Locação das fotos : Vallecito, San Pedro de Atacama, Chile /Salar de Uyuni
Esse é só o começo pela investigação ‘corpo-paisagem’, ou como a gênia Ana Mandieta chamava ‘Corpo-terra’. Em breve essa temperada da minha viagem pela América do Sul chega ao seu fim e ocuparei outros territórios e continentes. Agradeço você ter chegado até aqui. Na parte II dessa série de posts (eu amo produzir umas séries, né?) falarei mais sobre algumas referências literárias, cinematográficas que nutriram e nutrem meu imaginário paisagístico territorial. Para finalizar, deixo com vocês essa citação de Bachelard !
‘Podíamos outrora achar a água furtada pequena demais, fria no inverno, quente no verão. Mas agora, na lembrança reencontrada pelo devaneio, não se sabe por que sincretismo, a água furtada é pequena e grande, quente e fresca, sempre reconfortante.’ (BACHELARD) 4
Fontes:
1-Alagumas informações deste texto foram retiradas do curso Fenomenologia da Paisagem, ministrado pela Dº Gabriela Brandão, pela PUC-RJ, que frequentei durante os meses de maio à julho, 2023.
2-A chama da vela – Gaston Bachelard
3-Idéias para adiar o fim do mundo – Ailton Krenak
4-A água e os sonhos - Gaston Bachelard
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