Esbocei um time com escritores de diferentes épocas e países em uma das cartas que troquei com o camarada Ricardo Viel durante a Copa. Ficou assim:
Camus no gol, pois com goleiro não dá para arriscar. Borges, mesmo sem acertar passes, na lateral direita. Gabo desafiando o real na lateral esquerda. Uma dupla de peso forma a zaga: Tolstói e Dostoiévski. Homero é a base do time com a cinco, Cervantes revoluciona o meio de campo com a oito e Dante merece a dez pela classe, graça e inventividade. Escalei com dois pontas: Machado vai garrinchar sobre os adversários com a 7, enquanto Shakespeare inventa suas tramas pelo outro lado com a 11. Camões, com a 9, é a referência no ataque. Técnico: Erich Auerbach. Assessor de imprensa: Heródoto. Kafka ficou de fora porque se enrolou com a burocracia.
Lembrei que fiz graça semelhante na Copa do Qatar, quando escalei uma seleção de autoras argentinas. Eis aquele 4-3-1-2: Mariana Enriquez; Natalia Litvinova, Selva Almada, Hinde Pomeraniec e Laura Alcoba; Ariana Harwicz, Beatriz Sarlo e Sylvia Molloy; Samanta Schweblin; Gabriela Cabezón Cámara e Camila Sosa Villada.
Não poderia ser diferente. Com a taça em mãos, agora é a vez da Espanha, país convidado da Bienal do Livro de São Paulo deste ano, ganhar uma equipe de autores escalada por mim. Montei a seleção apenas com contemporâneos. É um time que pode fazer bonito diante de qualquer adversário. Vejam só.
No gol, toda ajuda é bem-vinda. Javier Cercas veste as luvas não só pelo estofo e pela admirável trajetória. Protegerá a meta também por ter bons contatos que o aproximam do divino caso esse tal divino exista mesmo1.
Sara Mesa com seus silêncios e mistérios de uma região rural cuidará da lateral direita2. No miolo estão Javier Peña e Eva Baltasar. Ele, pelo vasto conhecimento da vida de outros autores3; ela, por personagens com uma força que transparece até em título de livro4. Corre pela esquerda Antonio Altarriba, pois nem os quadrinhos nem os traumas da Guerra Civil Espanhola podem ser esquecidos5.
Usando a cinco que eu também uso, Irene Vallejo, que dará sustentação para o meio de campo carregando consigo toda a história dessa maravilha que veneramos: o livro6. Enrique Vila-Matas, homem de ficções metaliterárias7, vai de segundo volante.
Sim, a opção é pelo 4-4-2, formação que soa ultrapassada. Paciência. Não são modismos que regem o meu time. Penso em como os talentos que tenho em mãos poderão brilhar dentro das quatro linhas.
Jorge Carrión é ficcionista e ensaísta, crítico e criador, alguém profundamente interessado no passado e no futuro, nos museus, nas livrarias e no avanço da tecnologia8. Caberá a ele ser o principal articulador entre a defesa e o ataque. Dividirá a criação das jogadas com a craque Irene Solà, nossa camisa dez, dona de livros belos e ousados, que sabe domar ecos mitológicos e tapear pequenos demônios9.
Na frente, jogando pelas pontas, Juan Gomez Bárcena deixa a defesa adversária incrédula ao desafiar a construção do tempo - como um Juan que persegue outro Juan, também poderá voltar para ajudar na marcação do lateral adversário10. Completa o time Rosa Montero por conta de livros em que ensaio e ficção ombreiam11.
Pode vir, Lamine Yamal. Pode vir, Rodri. Pode vir, Nico Williams. Podem vir, Merino, Cubarsí e Cucurella. Minha seleção espanhola está formada!
(Indico livros dos autores nas notas de rodapé, lá no final da edição).
Está definida a programação do segundo semestre do Clube de Leitura Página Cinco. Os encontros acontecem sempre às 20h, via Meet. Eis o que e quando leremos:
Dia 17 de agosto: “Louças de Família”, de Eliane Marques (Autêntica Contemporânea)
Dia 21 de setembro: “Assim na Terra Como Embaixo da Terra”, de Ana Paula Maia (Record)
Dia 19 de outubro: “Relato de um Certo Oriente”, de Milton Hatoum (Cia das Letras)
Dia 23 de novembro: “Os Imortais”, de Paulliny Tort (Fósforo)
Dia 14 de dezembro: “Voltar a Quando”, de Maria Elena Morán (Biblioteca Azul)
“Podem me chamar de mau-humorado ou antiquado, mas sempre achei uma xaropada isso de meia dúzia de pessoas anunciarem, decidirem o que está devemos fazer, consumir, ver, visitar; e, agora, ler.
Então quer dizer que pode ser que em cinco anos eu encontre na mesma Folha uma matéria com especialistas a dizerem que ler passou a ser considerada uma atividade de extremo mau-gosto? ‘Ser visto com um livro é sinal de cafonice e provincianismo’, dirão os especialistas” - do Ricardo Viel
“A leitura é outra coisa. Não é quantificável monetariamente, não pode ser mercantilizada; o hábito de ler não se compra com dinheiro, se constrói com bastante esforço e paciência” - mais do Ricardo Viel
“Nascido por volta de 756, provavelmente na região do atual Irã, Abû Nuwâs viveu quase toda a sua vida em Bagdá. Era um poeta refinado, conhecedor da língua árabe, da tradição literária e da cultura de seu tempo. Frequentava a corte dos califas, mas também as tavernas. Convivia com intelectuais, músicos e artistas, ao mesmo tempo em que cultivava a fama de irreverente. Sua poesia transitava entre o erudito e o provocador, tornando-o uma das vozes mais originais da literatura árabe clássica” - do Rogério Felício
“O Louco de Deus no Fim do Mundo” (Record, tradução de Joca Reiners Terrón)
“Um Amor” (Autêntica Contemporânea, tradução de Silvia Massiminix Felix)
“Tinta Invisível” (Instante, tradução de Marina Waquil)
“Boulder” (Dublinense, tradução de be rgb e Meritxell Hernando Marsal)
“Asa Quebrada” (Veneta, arte de Kim e tradução de Marcelo Barbão)
“O Infinito em um Junco” (Intrínseca, tradução de Ari Roitman e Pauline Wacht)
“Bartleby e Companhia” (Companhia das Letras, tradução de Josely Vianna Baptista e Maria Carolina de Araújo)
“Livrarias” (Bazar do Tempo, tradução de Silvia Massiminix Felix) e “Membrana” (Relicário, tradução de Michelle Strzoda)
“Canto Eu e a Montanha Dança” e “Te Dei Olhos e Olhaste as Trevas” (Mundaréu, tradução de Luis Reyes Gil)
“Nem Mesmo os Mortos” (DBA, tradução de Silvia Massiminix Felix)
“O Perigo de Estar Lúcida” (Todavia, tradução de Mariana Sanchez)
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