Entrei na livraria sem procurar nada em específico. Fui para as estantes de contemporâneos e folheei alguns livros aleatórios. O livreiro perguntou se eu queria ajuda. Bati um papo, falei do meu interesse pela literatura latino-americana. Ele, então, puxou alguém que eu não conhecia: Laura Alcoba.
Dei uma olhada no volume. Me chamou a atenção ser um romance de uma autora argentina traduzida para o espanhol a partir do francês. Gostei do que vi. Fiquei com o livro, que li naquela mesma noite num quarto de hotel em Buenos Aires. Não lembro quando foi, mas recordo que tomava uma garrafa de Manos Negras, bom pinot noir da Patagônia. A autora seria publicada aqui no Brasil alguns anos depois.
Laura nasceu em La Plata, cidade a pouco mais de 50 quilômetros de Buenos Aires. Filha de guerrilheiros, já na infância soube o que é levar uma vida à sombra. Criança, após o pai ser preso, foi morar com a mãe na França, onde vive até hoje. Trago aspectos biográficos de Laura porque essas pinceladas podem ser essenciais para compreendermos a sua literatura.
Laura escreve em francês, mas, pelo menos em parte de sua obra, apresenta um olhar profundamente voltado para seu país de origem e para a vida como exilada. É difícil marcá-la com apenas uma etiqueta, deixá-la em uma única caixinha. A arte da escritora não se limita a uma bandeira. As histórias contadas por Laura oscilam entre a América Latina esmagada pelo coturno de militares e a Europa que serviu de refúgio para tanta gente desta parte do mundo.
Sua forma está mesmo mais próxima da autoficção que voltou a ganhar vigor por aqui graças a franceses como Édouard Louis e, sobretudo, Annie Ernaux. Não espere encontrar nesta Laura que apresento o insólito de matizes inventivas, marca de autoras argentinas contemporâneas como Samanta Schweblin e Mariana Enriquez.
No entanto, na epígrafe de “O Azul das Abelhas“, (Paris de Histórias, tradução de Natália Bravo), encontramos um traço recorrente na atual literatura latino-americana: a reverência a Clarice Lispector. Laura pescou numa das crônicas de “A Descoberta do Mundo”: “Para vermos o azul, olhamos para o céu. A terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de nostalgia?”.
“O Azul das Abelhas” é o segundo livro da trilogia “A Casa dos Coelhos“, iniciada com o romance que dá nome à série - o livro que comprei e li em Buenos Aires. Nesse título inicial, mais impressionante, acompanhamos pelo olhar ingênuo de uma criança a aterradora clandestinidade junto a integrantes dos Montoneros, grupo armado de resistência à ditadura argentina. Fecha a série “A Dança da Aranha”, recém-publicado no Brasil e pendurado na minha pilha de leituras.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.