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O Que Faz Falta · May 12, 2026

O Espelho da Nossa Corrupção

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Susana Marques · O Que Faz Falta

É algo que só acontece lá em cima, em São Bento, longe das nossas mãos de povo trabalhador. É uma mentira confortável. Achamos que a corrupção é uma coisa alta, distante, uma transação de milhões, enquanto o que nós fazemos — a cunha, o favor ao primo — é apenas "sobrevivência". Mentira. É corrupção, apenas com menos zeros na conta, mas com o mesmo efeito corrosivo. Em Portugal, a corrupção não é o que nos fazem. É o que somos.

​O país está podre, repetimos. Num inquérito, 96% dos inquiridos em Portugal consideraram que a corrupção é comum (generalizada) no país. Este valor representa um aumento face aos 93% registados no inquérito anterior e coloca-nos no segundo lugar Europeu. Mas o lodo não se faz só de malas em offshores; faz-se da rede de favores que batizámos de "desenrascanço" para não confessarmos o crime. O problema desta nossa "chico-esperteza" é que ela assenta numa falácia perigosa: a de que o jeitinho não prejudica ninguém.

Quando dás o "toque" ao conhecido que trabalha na admissão do hospital para passares à frente na lista de espera, não estás apenas a ser um "pai preocupado" ou um "filho extremoso". Estás a roubar a alguém. A vítima pode ser aquela senhora anónima, sem contactos no SNS, que viu a sua cirurgia ser adiada mais um mês porque tu achaste que a tua dor era mais importante que a regra. A vítima é o jovem brilhante, sem apelidos sonantes, que emigra porque o lugar na empresa ou no concurso público já estava reservado para o afilhado do diretor antes mesmo de o anúncio sair. A cada cunha que metes, matas a esperança de alguém que acredita no mérito. O que é que isto faz ao país? Expulsa os melhores. Limpa o talento das nossas instituições e deixa-nos com uma gestão de compadrio, de gente que não está lá por saber fazer, mas por saber a quem ligar. E depois perguntamos: "Porque é que nada funciona?". Não funciona porque a engrenagem está cheia de areia. A areia que nós próprios lá pusemos com cada pequeno favor. Porque a corrupção não se mede apenas em euros desviados; mede-se em talentos expulsos, em diagnósticos tardios e numa descrença que se torna hereditária.

Vivemos a roubar o Comum para alimentar o "EU" imediato. É o contrassenso de querermos hospitais públicos enquanto perguntamos ao mecânico "quanto fica sem fatura?". Não roubamos só o Estado - um conceito abstrato, um caixote onde despejamos culpas, enquanto nos queixamos dele na rede social. Esta "esperteza" é roubar a escola onde o teu filho estuda e o hospital onde a tua mãe vai ser tratada. Queixamo-nos da degradação dos serviços públicos enquanto, em surdina, retiramos os tijolos que os deviam sustentar.

​Porquê tu achas que as regras são para os parvos que não têm contactos? Depois queixamo-nos de que tudo está um caos. Pois está. Está um caos porque o transformámos num mercado de favores onde a ética foi trocada pela agenda de contactos do telemóvel e o nosso ódio ao grande corrupto é inveja mal disfarçada!

Não nos ofende o ato; ofende-nos não termos nós acesso ao pote. Reparem que o chico-esperto não é um pária, é comumente um herói de bairro que a tribo admira e até elege e reelege, mesmo com cadastro, desde que lhe alcatroe o quintal.

Erradicar o compadrio não é só limpar São Bento, é limpar a alma patrimonialista que habita em cada junta de freguesia, em cada IPSS e em cada condomínio.
É a "atenção" à professora, que começou com a dúzia de ovos da avó e hoje é o voucher ou a mala de marca angariada no grupo de WhatsApp dos pais, tudo para garantir que o nosso catraio é olhado com "outros olhos".É o atestado médico forjado para prolongar a ponte, a morada fiscal falsa para entrar na "escola boa" do centro, ou o fundo de desemprego acumulado com o trabalho "por fora" enquanto quem se levanta às seis da manhã paga a conta.
​E o que fazemos quando somos confrontados com este inventário? Sacamos da carta da sobrevivência. "Só o faço porque os impostos asfixiam", como se o crime do magnata se tornasse o salvo-conduto moral para o desfalque ao colectivo.

​A farsa atinge o auge no partido que promete limpar o sistema. O homem que vocifera contra o sistema é o mesmo consultor que, nos bastidores da Finpartner, ajudava a engenharia fiscal das offshores e dos Vistos Gold para que os grandes pagassem menos ao fisco que ele diz defender. O justiceiro das massas é o facilitador de bastidores.

​E no fim, a ironia. O discurso que aponta o dedo ao imigrante por "viver de subsídios". Se um imigrante chegasse e aprendesse a usar a cunha, a contornar a lei e a viver no "jeitinho", não devíamos deportá-lo. Nao sejam hipócritas, devíamos dar-lhe a nacionalidade. Ao dominar o chico-espertismo, ele provaria que já é, de corpo e alma um tuga, que assimilou a cultura.

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Read the original on oquefazfalta.substack.com

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