É algo que só acontece lá em cima, em São Bento, longe das nossas mãos de povo trabalhador. É uma mentira confortável. Achamos que a corrupção é uma coisa alta, distante, uma transação de milhões, enquanto o que nós fazemos — a cunha, o favor ao primo — é apenas "sobrevivência". Mentira. É corrupção, apenas com menos zeros na conta, mas com o mesmo efeito corrosivo. Em Portugal, a corrupção não é o que nos fazem. É o que somos.
O país está podre, repetimos. Num inquérito, 96% dos inquiridos em Portugal consideraram que a corrupção é comum (generalizada) no país. Este valor representa um aumento face aos 93% registados no inquérito anterior e coloca-nos no segundo lugar Europeu. Mas o lodo não se faz só de malas em offshores; faz-se da rede de favores que batizámos de "desenrascanço" para não confessarmos o crime. O problema desta nossa "chico-esperteza" é que ela assenta numa falácia perigosa: a de que o jeitinho não prejudica ninguém.
Quando dás o "toque" ao conhecido que trabalha na admissão do hospital para passares à frente na lista de espera, não estás apenas a ser um "pai preocupado" ou um "filho extremoso". Estás a roubar a alguém. A vítima pode ser aquela senhora anónima, sem contactos no SNS, que viu a sua cirurgia ser adiada mais um mês porque tu achaste que a tua dor era mais importante que a regra. A vítima é o jovem brilhante, sem apelidos sonantes, que emigra porque o lugar na empresa ou no concurso público já estava reservado para o afilhado do diretor antes mesmo de o anúncio sair. A cada cunha que metes, matas a esperança de alguém que acredita no mérito. O que é que isto faz ao país? Expulsa os melhores. Limpa o talento das nossas instituições e deixa-nos com uma gestão de compadrio, de gente que não está lá por saber fazer, mas por saber a quem ligar. E depois perguntamos: "Porque é que nada funciona?". Não funciona porque a engrenagem está cheia de areia. A areia que nós próprios lá pusemos com cada pequeno favor. Porque a corrupção não se mede apenas em euros desviados; mede-se em talentos expulsos, em diagnósticos tardios e numa descrença que se torna hereditária.
Vivemos a roubar o Comum para alimentar o "EU" imediato. É o contrassenso de querermos hospitais públicos enquanto perguntamos ao mecânico "quanto fica sem fatura?". Não roubamos só o Estado - um conceito abstrato, um caixote onde despejamos culpas, enquanto nos queixamos dele na rede social. Esta "esperteza" é roubar a escola onde o teu filho estuda e o hospital onde a tua mãe vai ser tratada. Queixamo-nos da degradação dos serviços públicos enquanto, em surdina, retiramos os tijolos que os deviam sustentar.
Porquê tu achas que as regras são para os parvos que não têm contactos? Depois queixamo-nos de que tudo está um caos. Pois está. Está um caos porque o transformámos num mercado de favores onde a ética foi trocada pela agenda de contactos do telemóvel e o nosso ódio ao grande corrupto é inveja mal disfarçada!
Não nos ofende o ato; ofende-nos não termos nós acesso ao pote. Reparem que o chico-esperto não é um pária, é comumente um herói de bairro que a tribo admira e até elege e reelege, mesmo com cadastro, desde que lhe alcatroe o quintal.
Erradicar o compadrio não é só limpar São Bento, é limpar a alma patrimonialista que habita em cada junta de freguesia, em cada IPSS e em cada condomínio.
É a "atenção" à professora, que começou com a dúzia de ovos da avó e hoje é o voucher ou a mala de marca angariada no grupo de WhatsApp dos pais, tudo para garantir que o nosso catraio é olhado com "outros olhos".É o atestado médico forjado para prolongar a ponte, a morada fiscal falsa para entrar na "escola boa" do centro, ou o fundo de desemprego acumulado com o trabalho "por fora" enquanto quem se levanta às seis da manhã paga a conta.
E o que fazemos quando somos confrontados com este inventário? Sacamos da carta da sobrevivência. "Só o faço porque os impostos asfixiam", como se o crime do magnata se tornasse o salvo-conduto moral para o desfalque ao colectivo.
A farsa atinge o auge no partido que promete limpar o sistema. O homem que vocifera contra o sistema é o mesmo consultor que, nos bastidores da Finpartner, ajudava a engenharia fiscal das offshores e dos Vistos Gold para que os grandes pagassem menos ao fisco que ele diz defender. O justiceiro das massas é o facilitador de bastidores.
E no fim, a ironia. O discurso que aponta o dedo ao imigrante por "viver de subsídios". Se um imigrante chegasse e aprendesse a usar a cunha, a contornar a lei e a viver no "jeitinho", não devíamos deportá-lo. Nao sejam hipócritas, devíamos dar-lhe a nacionalidade. Ao dominar o chico-espertismo, ele provaria que já é, de corpo e alma um tuga, que assimilou a cultura.
O Que Faz Falta continua gratuito e independente graças a quem escolhe contribuir. Se este tipo de conversa te faz sentido, podes tornar-te Mecenas e ajudar a garantir tempo, rigor e liberdade para continuar. Considera apoiar com 2€ por mês — o preço de um café ou de uma cerveja. Para ti é um valor simbólico, mas para nós é o que permite que este projeto continue a existir.
Torna-te Mecenas (Apoio Recorrente): Assiste em Direto e Lançamentos Antecipados. Desde 2€/Mês - AQUI ou Paga-me um café (Apoio Único) AQUI
Subscreve no Substack: Apenas a partir de 4€/Mês, ajudas a manter este trabalho a crescer. AQUI
Subscreve no Patreon: A partir de 4€/Mês ajudas a manter este trabalho a crescer. AQUI

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.