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O estrangeiro · Jun 19, 2026

Felicidade e depressão, eu estou no meio disso

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O Estrangeiro · O estrangeiro

Quando escutei essa frase pela primeira vez, ela me incomodou.

Duas palavras em extremos opostos, e ainda sim, parecem feitas uma para a outra.

Hoje eu não estou deprimido. Mas também não estou eufórico.

Não acordei querendo conquistar o mundo. Mas também não tive vontade de desaparecer dele.

E dizer que estou “neutro” ou “apático” é simplificar demais as coisas.

Acho que descrever esse sentimento é tão difícil quanto seus extremos.

É igual perguntar para uma pessoa o que ela acha de tomar banho com água morna.

Pra quem gosta de abrir o chuveiro e queimar a pele pode ser gelado demais...

Já pra quem prefere o frio polar pode se sentir fervendo dentro de uma panela.

Ou pode simplesmente não ser o ideal, mas também não é ruim.

Só que esse espaço entre felicidade e tristeza é bem vasto.

Bem, bem vasto.

Talvez até maior que os próprios extremos.

Porque a felicidade costuma durar pouco.

Uma viagem, uma conquista, um encontro, uma celebração.

Ela chega, nos visita por alguns instantes e vai embora.

A tristeza profunda também costuma ser passageira. Ainda que pareça eterna quando estamos dentro dela.

Mas esse meio-termo...

Esse lugar onde não estamos nem no fundo do poço nem no topo da montanha...

É aí onde passamos a maior parte da vida.

Talvez seja por isso que não conseguimos descreve-lo. Crescemos vendo histórias sobre pessoas felizes, ou sobre pessoas tristes.

Os livros terminam quando o protagonista finalmente encontra o amor da vida dele.

Os filmes acabam quando o herói vence a batalha.

Mas ninguém conta o que aconteceu na terça-feira seguinte.

Como é a quinta-feira à noite do Homem-Aranha? Será que ele estava lavando seu uniforme? Ou quem sabe estava no Subway comendo um lanche.

Talvez ele estivesse simplesmente olhando pro teto sem fazer nada.

Ou como era o domingo de manhã de Leonardo da Vinci?

Será que ele também acordava sem inspiração às vezes? Será que passava horas sem produzir nada?

Será que já teve dias em que apenas caminhou sem pensar em grandes invenções?

Acho que existe uma tendência de resumirmos a vida das pessoas aos seus momentos mais extraordinários.

Como se a vida de um gênio fosse feita apenas de genialidade.

Como se a vida de um herói fosse feita apenas de heroísmo.

Como se a vida de uma pessoa fosse feita apenas de felicidade (ou tristeza).

Mas a verdade é que até as pessoas mais extraordinárias passaram a maior parte da existência vivendo dias completamente comuns.

Transitando entre enormes vales antes de alcançar um pico.

O ser humano tem dois “eus” diferentes.

Podemos chamar um deles de “eu experiencial”, o eu que vive o instante.

E temos um segundo eu que podemos chamar de “eu projetivo”, ele é o que pensa sobre a vida, olhando para fora do agora.

Em outras palavras, viver e pensar sobre a vida, do ponto de vista psicológico, são duas coisas muito diferentes.

Só que uma coisa não é mais importante do que a outra. Na verdade, o importante é saber compreender as características desses diferentes “eus”.

Afinal, se são diferentes, significa que aquilo que vai fazer o eu experiencial feliz não necessariamente faz o mesmo pelo eu projetivo.

Então o que faz cada um desses nossos diferentes “eus” feliz?

O eu projetivo vive de histórias.

Olhar para o passado é contar uma história do que já foi. Olhar para o futuro é contar uma história do que se acredita que virá a ser.

O que faz essas histórias felizes são os objetivos e as conquistas.

É olhar para o passado e enxergar conquistas de valor; olhar para o futuro e enxergar objetivos de valor.

Tem muita gente que diz:

— Dinheiro não traz felicidade! Conquistas profissionais não trazem felicidade!

É incorreto dizer isso.

Dinheiro e conquistas profissionais são, para muita gente, objetivos importantes, valiosos.

Muita gente olha para o passado e enxerga valor em suas conquistas profissionais e financeiras.

No caso do dinheiro especificamente, quanto mais for usado para comprar experiências e não meramente coisas, maior será o valor percebido pela pessoa.

Afinal, uma experiência é uma história, e o eu projetivo vive de histórias.

Já o que faz o eu experiencial feliz é o engajamento. É viver o mais engajado possível.

Quando estamos em estado flow, perdemos a consciência de nós mesmos.

Perdemos a noção do tempo, mergulhamos na atividade que estamos realizando e só percebemos tudo isso depois que o flow acaba.

Você olha para trás e pensa: “Nossa, eu estava extremamente engajado”.

Por quê? Porque o eu experiencial vive. Não cabe a ele pensar sobre a vida, nem pensar sobre o flow.

Quem vai perceber e pensar a respeito do flow é o eu projetivo.

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Só que nossa sociedade é excelente ao prometer felicidade para o eu projetivo: objetivos, conquistas e significado.

Mas é péssima para nos educar para saborear o presente, aproveitar o instante, viver com a cabeça naquilo que estamos vivendo.

A coisa mais comum é a pessoa acordar na segunda-feira esperando chegar a sexta. Trabalhar ou estudar esperando as férias.

Tem gente que acorda já deitada.

A pessoa abre os olhos, e, antes mesmo de tirar o pé da cama, a primeira coisa que pensa é: “Como eu queria voltar pra debaixo da coberta”.

Essas pessoas estão em trânsito. Sempre aqui, mas com a cabeça em outro lugar.

  • O rapaz é adolescente, mas já sonha em ser adulto. Está no ensino médio, mas não vê a hora de terminar aquela fase e entrar na faculdade

  • Quando finalmente entra na faculdade, descobre que também não era aquilo que imaginava, então passa a desejar um emprego

  • Consegue o emprego, mas pouco tempo depois já está pensando na próxima vaga, na próxima promoção, no próximo degrau.

E assim segue, sempre com os olhos fixos no lugar seguinte, como se a vida estivesse constantemente alguns passos à frente dele.

Esse é o eu projetivo governando a vida.

Mas devíamos evitar viver a vida como uma viagem, esperando o destino e querendo que aquilo que estamos vivendo acabe logo.

Por que não um passeio? Todo passeio tem um destino, é claro.

Mas a diferença é que, ao passear, também aproveitamos e saboreamos o caminho.

Se o destino chegar, ótimo. Se não chegar, pelo menos aproveitamos aquele caminho que percorremos.

Meu eu projetivo quer uma vida extraordinária.

Meu eu experiencial só quer uma noite tranquila, um bom filme e algumas pessoas que ama por perto.

E ultimamente tenho a impressão de que os dois estão tentando negociar um acordo.

💬 E você? Como andam seus sentimentos? Conte sua história, deixe um comentário. Curta ❤️restack 🔁

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