Talvez uma das poucas coisas que ainda me tragam paz seja a solitude das madrugadas de sábado.
Ainda hoje, elas possuem algo que me acalma.
O quarto escuro, a luz da televisão acesa, algum jogo aberto, um filme qualquer passando enquanto o resto da cidade dorme.
E pela primeira vez no dia, parece que eu não preciso provar nada pra ninguém.
Eu posso simplesmente existir por algumas horas.
Quando era mais novo, ficava até umas 3h ou 4h da manhã jogando videogame.
A casa em silêncio, um quarto aconchegante e a sensação de calmaria que só a madrugada proporcionava.
Hoje já não consigo estender por tanto tempo assim. Por volta de 1h ou no máximo 2h da manhã meus olhos já estão completamente pregados.
Mas é como se esse breve período de tempo fosse uma nostalgia que consigo reviver todo final de semana.
Não é algo preso somente nas minhas memórias.
Ainda existe vivo ali.
Como se por algumas horas eu voltasse a enxergar a vida sem toda a pressa que o mundo adulto colocou em cima dela.
A madrugada de sábado tem esse efeito estranho.
Ela desacelera tudo.
Não existe aquela sensação constante de que você deveria estar correndo atrás de alguma coisa.
Existe apenas o silêncio.
E talvez seja isso que torne essas horas tão confortáveis.
Durante o dia inteiro somos esmagados por estímulos:
Mensagens.
Vídeos.
Notícias.
Expectativas.
Mas depois da meia-noite… o mundo parece finalmente cansado demais para continuar gritando.
Eu posso simplesmente ir pra sala, ligar a TV e assistir um bom filme, enquanto todo o restante permanece quieto.
Enquanto fico sentado no escuro jogando ou reassistindo um filme que já vi dezenas de vezes, sinto como se uma parte mais simples da minha vida ainda tivesse sobrevivido em algum lugar.
Como se o garoto que passava madrugadas inteiras acordado ainda estivesse ali, escondido entre a luz azul da televisão e o silêncio da casa.
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E quando você acha o filme certeiro, tudo parece ainda mais mágico.
Esses dias, numa madrugada de sábado, fui assistir Drive. Talvez seja uma das fotografias mais bonitas para se ver depois da meia-noite.
Na verdade, parece que o filme foi feito exatamente para esse horário.
O silêncio, as luzes de Los Angeles cortando a escuridão, a trilha sonora que te leva para outro plano.
O protagonista quase não fala, e mesmo assim você entende tudo.
Escute a música da abertura e veja se você sente a sensação que quero te passar.
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E o filme começa numa pancada só.
Nos é mostrado Los Angeles a noite. O brilho das luzes da cidade contrastando com essa música enquanto o protagonista aparece sem dizer nada por pelo menos 10 minutos.
Dá vontade de entrar num carro e simplesmente dirigir sem destino nenhum.
Esse é o tipo de sensação que só alguns hobbies conseguem proporcionar.
Não é exatamente sobre o horário.
É sobre o que você faz nele.
Percebi que não é a madrugada em si que me traz paz. É o estado que certas coisas me colocam durante ela.
Jogar videogame.
Assistir um filme.
Olhar pras estrelas na escuridão.
Uma balada, por exemplo, nunca me proporcionaria isso. Porque não é sobre distração, é sobre silêncio interno.
É sobre você estar consigo mesmo.
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