O artigo discutido essa semana (Human health risk assessment on the consumption of fruits and vegetables containing residual pesticides: A cancer and non-cancer risk/benefit perspective) representa uma contribuição importante à literatura sobre avaliação de risco-benefício do consumo de frutas e vegetais contendo resíduos de agrotóxicos, mas apresenta limitações metodológicas e conceituais que merecem análise crítica e uma certa dose de reflexão.
Não sei como é a realidade de vocês, mas por aqui, particularmente, tenho percebido justificativas sugerindo que a presença de defensivos agrícolas (leia aqui agrotóxicos mesmo, afinal, não temos lobby com o agro) pode representar um risco quanto ao consumo de frutas e vegetais. Perceba a linha do raciocínio…. Em uma população que consome frutas e vegetais de forma insuficiente, considerar a possibilidade de reduzir ainda mais essa ingestão traria um impacto positivo ou negativo do ponto de vista da saúde? Uma vez feita a provocação, vamos ao estudo:
O objetivo do estudo foi avaliar o risco e o benefício à saúde associados ao consumo crônico de frutas e vegetais contendo resíduos de agrotóxicos na província de Quebec, Canadá. Foram mais de 4 mil indivíduos participantes e 169 ingredientes ativos de agrotóxicos, sendo que 135 tinham valores toxicológicos de referência (TRV) disponíveis.
O risco total de câncer ao longo da vida foi estimado em 3,3×10⁻⁵ (aproximadamente 3 casos adicionais de câncer por 100.000 pessoas expostas).
Análise risco-benefício: Para cada caso estimado de câncer desencadeado pela exposição a agrotóxicos, pelo menos 88 casos foram considerados prevenidos pelas mesmas frutas e vegetais consumidos.
Os autores concluíram que os riscos crônicos à saúde investigados são baixos e os benefícios à saúde associados ao consumo de frutas e vegetais superam amplamente os riscos relacionados aos agrotóxicos. No entanto, as estimativas de risco não são negligenciáveis e incertezas permanecem.
Financiamento
O estudo foi financiado pelo Institut National de Santé Publique du Québec (INSPQ), uma instituição pública de saúde da província de Quebec, Canadá. Trata-se de um órgão governamental de saúde pública, não uma entidade privada ou da indústria.
Conflitos de interesse
Os autores declararam não ter conflitos de interesse. Não há menção de financiamento ou vínculos com a indústria de agrotóxicos, agricultura ou alimentação.
É evidente que temos que lutar para que nossa alimentação tenha a menor influência possível de agentes externos. No entanto, fora da utopia do mundo ideal, precisamos viver a realidade e entender que estamos inseridos nesse lugar. Hoje (neste exato momento) a demanda da população se dá pela baixa ingestão de frutas e vegetais. Desencorajar o consumo com base na justificativa do agrotóxico certamente só trará mais prejuízo para a saúde de todos. Destaco que isso pode mudar muito rapidamente…. precisamos conhecer melhor quais defensivos são mais nocivos e principalmente quais meios existem para que nossa alimentação esteja ainda mais segura. Em um próximo momento vamos discutir um pouco mais sobre orgânicos para que tenhamos a possibilidade de refletir ainda mais sobre a temática.

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