É possível vivenciar um trauma que não é nosso? Para a psicanálise, sim. Há sujeitos habitados por traumas que não viveram.
A narradora da segunda parte do livro Detalhe Menor, de Adania Shibli, não tem nome e essa ausência (como já aconteceu com outras narradoras sem nome que passaram por este divã) não é descuido, é estrutura. Ela é palestina, vive em Ramallah, trabalha em um escritório, tem uma vida que o discurso descreve com uma atenção ao detalhe que beira o obsessivo, sendo, ela mesma, um sintoma.
O que passou a organizar a vida dessa narradora que não é o cotidiano que ela descreve?
A narradora fixou-se em um crime, acontecido em 1949, que ela não viveu, que não foi cometido contra ela ou sua família, que não foi sequer registrado como crime pela história oficial. Um crime contra uma jovem beduína sem nome, violada e assassinada por soldados israelenses em um deserto, cujo único vestígio que chegou até a narradora foi uma notícia pequena, um detalhe menor, em um jornal de arquivo.
E esse detalhe fixou-se.
Freud me ensinou que o trauma é o encontro do sujeito com um excesso que o aparelho psíquico não consegue processar, portanto, uma experiência que ultrapassa a capacidade de representação e deixa uma marca que não se integra à narrativa de si mesmo. Mas o trauma “não pára por aí”, ele retorna, repete e insiste; não porque o sujeito o escolha, mas porque ele nunca encontrou elaboração suficiente.
Mas Freud também abriu, em textos como Totem e Tabu e Moisés e o Monoteísmo, a possibilidade de que o trauma não precise ser vivido diretamente para ser transmitido. Há algo que passa de geração em geração, não como memória consciente, mas como marca psíquica, como uma ferida que o sujeito carrega sem saber inteiramente de onde veio.
Os psicanalistas que trabalharam com filhos e netos de sobreviventes do Holocausto (Nicolas Abraham e Maria Torok, entre outros) desenvolveram o conceito de transmissão transgeracional do trauma: a ideia de que o que não foi elaborado por uma geração é transmitido à seguinte como fantasma, como presença que habita sem se nomear, como uma angústia que o sujeito sente como sua, mas que, na verdade, tem origem em um tempo que não é o seu.
A narradora no meu divã carrega exatamente esse tipo de trauma. O crime de 1949 não foi cometido contra ela, mas foi cometido contra seu povo, no território que deveria ser seu, em um apagamento que a história oficial se recusou a nomear. O evento aconteceu após a guerra que os palestinos chamam de Nakba, responsável pelo despejo e pela expulsão de mais de 700 mil pessoas de suas terras.
“[...] seres humanos podem formar uma imagem de um evento que eles não testemunharam tendo acesso a vários detalhes secundários […]”
Esse apagamento, essa recusa de que o crime existiu, de que a vítima existiu, de que aquilo importa é o que o trauma transmitido produz no sujeito que herda: a obsessão de testemunhar o que ninguém quer ver.
Em Lacan, o Real é o que não se deixa simbolizar, o que resiste à linguagem, que retorna sempre ao e no mesmo lugar, porque nunca encontrou representação suficiente. O crime de 1949 é o Real no sentido lacaniano: ele não foi simbolizado pela história, não foi integrado à narrativa oficial, não encontrou o Outro que o reconhecesse e o nomeasse. Quando o Real não encontra simbolização, ele retorna: não necessariamente no sujeito que o viveu, mas naquele que, pela posição que ocupa no campo do Outro, herda a tarefa de dar-lhe forma.
Há um momento preciso em que o trauma deixa de ser histórico e se torna pessoal. Minha paciente encontra a notícia do crime em um jornal de arquivo. A partir desse acontecimento, ela se sente presa, não consegue seguir em frente, não pela magnitude do horror, mas por um detalhe: a data. O crime aconteceu na mesma data de seu nascimento. Um detalhe menor, insignificante para qualquer outro sujeito. Para ela, é o ponto de contato.
Em Freud, o trauma não se instala pelo tamanho do evento, instala-se pelo ponto em que o evento toca algo no sujeito que já estava, de alguma forma, aberto. O detalhe da data funciona como o que Freud chama de Anknüpfungspunkt, ponto de ancoragem, o lugar em que o externo e o interno se encontram e produzem uma ressonância que nenhum dos dois, sozinho, produziria.
A paciente não escolheu se identificar com a vítima. É o detalhe que a escolhe, a agarra e a obriga a continuar. O detalhe transforma uma notícia de arquivo em uma missão subjetiva que ela não consegue abandonar.
Em Lacan, o objeto a, o objeto causa do desejo, é o que se impõe ao sujeito sem que ele o convoque conscientemente. A paciente não decide investigar o crime: ela é capturada por ele. E os detalhes menores: a data, o cachorro, o mapa compõem a série de objetos a que mantém essa captura em funcionamento, que a puxa em direção ao que o mundo ao redor prefere que não seja visto.
A jovem beduína assassinada em 1949 não tem nome no discurso, como a narradora/paciente não tem nome.
Essa simetria não é acidental. É o dispositivo central do discurso e é também, clinicamente, o índice mais preciso da identificação que organiza a estrutura do que me é contado.
“Em suma, não adianta eu me sentir responsável por ela; a menina não era ninguém e continuará assim, sem que ninguém ouça a sua voz. [...] sua verdade não vai parar de me afetar […]”
Em Freud, a identificação é o processo pelo qual o sujeito incorpora traços do Outro e os torna seus. Quando a identificação se faz com uma vítima, com alguém que sofreu o que o sujeito teme, o que se produz não é apenas empatia: é uma forma de elaboração vicária, de tentativa de dar ao Outro o que o Outro não recebeu.
A paciente não pode salvar a jovem beduína. Não pode nomear o crime, não pode restituir a vida, não pode desfazer o que foi feito. Mas pode testemunhar. Pode recusar que o detalhe menor seja esquecido. Pode atravessar a fronteira, física; política e subjetiva, que o mundo ao redor ergueu para que esse crime permanecesse invisível.
É nessa recusa de esquecer que a identificação encontra sua função clínica: a paciente testemunha pelo Outro o que o Outro não pôde testemunhar por si mesmo. Ela torna-se, para a jovem sem nome de 1949, o Outro que faltou, a testemunha que o trauma exigia e que a história recusou.
A paciente atravessa um checkpoint.
Esse ato, que o discurso descreve com uma atenção ao detalhe que produz angústia, não é apenas narrativo. É o momento em que a estrutura psíquica da paciente se revela em sua forma mais nua: ela atravessa o que é proibido, vai até onde não deveria ir, aproxima-se do lugar do crime sabendo o risco que corre.
“Pois assim que vejo algum limite, me apresso para alcançá-lo, ou até ultrapassá-lo, nem que seja por um pequeno passo, sem ser notada. Nenhum desses dois comportamentos, no meu caso, é ato consciente, nem é um desejo manifesto de me rebelar contra os limites; é uma tolice, nada mais.”
Em Freud, a compulsão de repetição é o que leva o sujeito a retornar, repetidamente, ao ponto de onde o trauma veio. Isso não acontece por masoquismo, mas porque o trauma não elaborado exerce uma atração que excede o princípio do prazer. A paciente é atraída para o lugar do crime com a lógica da obsessão: ela sabe que é perigoso, sabe que pode não voltar, e vai assim mesmo.
Clinicamente, a fronteira é mais do que política: é psíquica. Ela é o limite entre o que pode ser sabido e o que deve permanecer ignorado, entre o que o Estado reconhece como real e o que apaga, entre a história oficial e o detalhe menor que a paciente se recusa a deixar morrer. Atravessá-la é um ato — no sentido lacaniano pleno — o movimento que o sujeito faz quando não há mais outra saída que não implique a traição de algo essencial.
A paciente não atravessa o checkpoint após deliberar cuidadosamente sobre os riscos. Ela atravessou porque não atravessar seria trair a jovem sem nome, trair o detalhe que a encontrou, trair a tarefa que o trauma transmitido lhe impôs sem pedir permissão.
“... de repente estou com medo [...] talvez ele nunca tenha me abandonado, está dentro de mim o tempo todo, mas vem à tona quando quer [...] o medo se estabeleceu em todos os meus membros, que parecem se tornar tão leves a ponto de desmanchar. [...] estou cansada das minhas condutas inconsequentes e das situações de medo e angústia em que me enfio. [...] antes que o medo aproveite a oportunidade de ficar a sós comigo.”
O estilo narrativo da paciente merece atenção clínica.
Ela descreve tudo com uma precisão que beira o excesso: as cores, as texturas, as distâncias e os objetos. Há nessa atenção ao detalhe algo que o discurso usa como dispositivo formal e que é, ao mesmo tempo, o sintoma mais visível da estrutura.
O pensamento obsessivo funciona pela via do detalhe, conforme Freud explicou: o sujeito se concentra no específico, no concreto, no mensurável como forma de manter a angústia à distância. Enquanto há detalhes a registrar, enquanto há precisão a manter, o sujeito permanece coeso. É quando os detalhes cessam, isto é, quando o Real irrompe sem mediação, que a estrutura vacila.
A paciente me descreve o cotidiano de Ramallah com a mesma atenção com que depois descreve o percurso até o lugar do crime. Não há diferença de registro entre o trivial e o traumático. Essa ausência de diferença é, ela mesma, um dado clínico: para um sujeito habitado por um trauma que não tem contornos precisos, tudo é potencialmente carregado, tudo pode ser o ponto em que o Real irrompe.
A atenção ao detalhe é a tentativa de manter o controle sobre um campo que, a qualquer momento, pode se tornar insuportável.
O detalhe menor do título é, então, também uma hipótese clínica: é nos detalhes que o trauma se esconde, é nos detalhes que ele retorna, é nos detalhes que a narradora o persegue. É, em um detalhe, a data de nascimento coincidente, que ele finalmente a encontra.
Ler a narradora sem nome de Detalhe Menor como paciente é escutar um sujeito organizado em torno de um trauma que não viveu diretamente, mas que herdou, pela posição que ocupa no campo histórico e político, como missão subjetiva inescapável.
O trauma transmitido não é metáfora: é uma forma real de organização psíquica, em que o não elaborado de uma geração, no caso: o crime apagado, a vítima sem nome, o detalhe que a história oficial recusou registrar, se instala no sujeito que vem depois como presença que não se anuncia mas que reorganiza tudo. A narradora não escolheu ser habitada pelo crime de 1949. Ela foi escolhida por um detalhe, a data, que funcionou como ponto de contato entre o trauma histórico e a ferida subjetiva que ela já carregava sem saber nomear.
A identificação com a jovem beduína sem nome é o núcleo clínico mais preciso dessa estrutura: ela testemunha. E ao fazê-lo, ela realiza o que o trauma transmitido sempre exige do sujeito que o herda: que alguém, finalmente, veja.
Na narradora sem nome de Detalhe Menor, o trauma não é passado: é presente permanente, transmitido através das gerações como uma ferida que não fecha porque nunca foi reconhecida. O detalhe menor que a captura não é acidente: é o ponto em que o real histórico e o real subjetivo se encontram, e produzem no sujeito uma obsessão que excede a escolha.
Ela atravessa a fronteira não porque decidiu, mas porque o trauma que a habita não lhe deixou outra saída. E o que a paciente me ofereceu nesse discurso foi de uma precisão que dói, é algo que a clínica e a política raramente conseguem dizer juntas com essa clareza: há sujeitos para quem testemunhar não é escolha ética, é estrutura psíquica, é uma neurose obsessiva. É o único movimento possível quando o que foi apagado insiste, pelos detalhes menores da vida, em ser visto.
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Você leu Detalhe Menor, de Adania Shibli? O que a atenção obsessiva da narradora ao detalhe produziu em você, seja como leitor ou psicanalista? Concorda com a hipótese do trauma transmitido como estrutura que organiza o sujeito em torno do que não viveu diretamente? E o que você pensa sobre o ato de atravessar a fronteira: é coragem, obsessão, ou as duas coisas ao mesmo tempo?
Se houver um personagem literário que insiste, retorna, inquieta, não se deixa esquecer, você pode indicá-lo por aqui nos comentários (ou mandar um email para: marilda.piccolo@gmail.com) junto com o título do livro, para que venha deitar no meu divã!
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