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Newslenta · Nov 15, 2025

negócio de família

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Christian von Koenig · Newslenta

Naquele tempo, não tinha isso de MEI. Freelancer era, no máximo, uma marca de cigarros. Ralar pra sobreviver então se chamava fazer bico. Meu tio Chico, por exemplo, era um biqueiro profissional.

Até 1999, ele foi um pouco de tudo. Peão de obra, garçom, chofer de madame, auxiliar de padeiro, mecânico, estoquista, segurança, vendedor de lista telefônica, jardineiro… Se não pedisse diploma, era com ele mesmo.

Foi nessas que o chamaram pra ser animador de evento. E não qualquer evento. A primeira exposição Pokémon no Brasil. Chico fantasiado de Pikachu e tudo!

Imagem de uma fantasia de Pikachu em tamanho adulto.
Edição em imagem do eBay.

Pokémon estreou na Eliana e Companhia em maio de 1999 e logo virou uma febre entre a gurizada. Acontece que o evento era um golpe. Só a fantasia de Pikachu era real. Os organizadores embolsaram o dinheiro dos ingressos e nunca mais deram as caras. Nem o Chico pagaram.

Meu tio, que pra bobo nunca se prestou, transformou o calote em oportunidade de negócio. O Pikachu até que era bem feito. A pancinha do personagem disfarçava a barriga de cerveja cultivada em muitas festas infantis dos anos 1990. Festas como a do meu irmão caçula, que marcou a apresentação do Chico animador ao mundo.

Essa primeira aparição era uma amostra grátis, ele fez questão de avisar a cada pai e mãe presentes, enquanto entregava um folheto sobre o serviço. Pikachico, foi como chamou o empreendimento.

Só que daquele mato não sairia cachorro. Nossa família era cheia de pobres, cercada de gente ainda mais ferrada. Naquela época e naquele lugar, a animação de festa infantil era churrasco, gelada e um CD do É o Tchan! pras crianças dançarem.

Mas é como dizem por aí: quando Deus fecha uma porta, logo abre uma janela. E nela tava o Flávio.

***

Flávio é um primo de segundo grau, até onde sei, e quanto menos sei dele, melhor. Desde aquele tempo, a gente se referia a ele carinhosamente como “Azeite de Oliva”, porque tinha cara de extra virgem. Ninguém entendia como um sujeito com trinta e poucos anos, concursado, pudesse ter uma tara por bonequinhos de herói. Porra, o melhor filme da Marvel ainda era Blade e o Batman tinha batmamilos!

Enfim, meu tio contou que Flávio tava perguntadeiro. Quanto era o serviço, o que incluía, se era só pra criança… Mas Chico, já bêbado, não deu muita bola na hora. Apenas percebeu a dificuldade de mijar enquanto Pikachico. Tia Deia sugeriu pôr um zíper na parte de baixo. Ela sempre foi o melhor neurônio daquele par.

Dali uns dias, Flávio ligou pro Chico. Queria uma animaçãozinha.

— E lá Flávio tem filho? — pontuou tia Deia, alerta como de costume.

Ela mal imaginava a piscina de depravação em que seu marido ia entrar de cabeça. Digo, de Pikachu.

***

Vou pular pro que interessa. Chico apareceu fantasiado no apartamento do Flávio, que era cabaço, mas um cabaço com grana, ao contrário da pobretada da família. Entrou e lá esperavam três marmanjos — Flávio e outros dois — ao redor de uma mesa com peixe cru e uma pinga estranha, docinha.

Chico não deu muitos detalhes da história. Os caras só queriam abraçar o Pikachu. Nem precisava falar nada além de “pika pika” pra não estragar a brincadeira.

— Os cem contos mais fáceis que já ganhei na vida!

Arregalei os olhos.

Foi aí que Chico entendeu o verdadeiro público do seu novo negócio. E me chamou pra formar uma sociedade. Eu, que sabia de computador, ficaria responsável por encontrar clientes e receberia dez por cento dos ganhos.

— Vinte por cento — retruquei.

— Dez, porque não sei fazer conta direito e é mais fácil só tirar o zero do fim.

Eu também não era bom de matemática e ficamos assim combinados.

***

O problema era que eu não tinha acesso a um computador, além do único da escola, nem internet pra falar com os tiozões como Flávio.

Dei meus pulos e consegui um CD-ROM com discador BOL por três meses grátis. De quebra, criei um e-mail pra fazer o meio de campo: seuamigopikachico@bol.com.br, lembro até hoje.

O computador foi mais complicado. A mãe trabalhava no escritório de um supermercado e lá havia o equipamento. Aí menti que precisava usar pros estudos e todo sábado tava metido nisso. A velha ficou até orgulhosa de me ver tão empenhado na escola, em vez de vadiar com os guris na rua.

Entrei nos bate-papos aqui da cidade e comecei a puxar assunto com os malucos. E põe malucos nisso, porque uma coisa era ser fã da Tiazinha, outra era gamar num rato amarelo imaginário.

Sim, arranjei uns contatos pro Chico, mas logo quis desistir. Meu estômago não prestava pra essas coisas.

Meu tio jurou de pé junto que os caras não pediam grandes doidices. Teve um que queria levar um tapa, e não passou disso.

— É só pika pra cá, pika pra lá. E outra, sua tia botou na cabeça que precisa ir pra Porto Seguro desde que viu numa revista que isso tá na moda. Se eu não fizer essa mulher feliz, não sei o que vai ser de mim. Ela é minha vida!

Golpe baixo do Chico. Como poderia desistir depois dessa?

Print da tela de cadastro no BOL em 1999
Bons tempos.

Quem deu ré foi ele, pra minha surpresa.

Os negócios iam bem. Eu marcava os encontros, ligava pra avisar que “um colega da escola tava interessado” e Chico tocava a partir daí. Ele tinha até o esquema de passar na padaria e trazer de volta uma fatia de bolo ou uns docinhos pra tia Deia não desconfiar.

— Foi a gota d’água!

Aconteceu de um sujeito pedir pro Pikachico mijar nele.

— Mijar?

— Mijar…

— E mijou?

Chico negou por tudo que é mais sagrado, com a voz doída, como se tivesse uma espinha de peixe presa na garganta. O cara ofereceu quinhentos reais, mas não, nunca. Honra não tem preço.

Esse foi o fim do Pikachico.

***

Nos meses seguintes, sempre perguntava de pirraça, na miúda:

— Então, mijou ou não mijou?

Chico me encarava fulo da vida e não dizia palavra. Depois, a coisa perdeu a graça e deixei o assunto pra lá. Mas, na virada do ano, o tio mais a tia foram de avião pra Porto Seguro. Hotel de luxo.

Mesmo Chico me devendo cinquenta contos, também aproveitei a grana do negócio. Assim que completei 16 anos, fui ao puteiro me batizar no sexo. Então Verinha, na flor dos seus 47, me mostrou o que Pikachu algum poderia mostrar.

Aproveitando a nostalgia, que lembranças de festas infantis fariam sua família ser cancelada?

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Outros contos de mentirinha:

Sabe quem também tocava naquelas festas? Miriam Batucada, Eliana Pittman, Marisa Gata Mansa e outras cantoras que hoje quase ninguém ouve.

Em homenagem a elas, criei a playlist Esquecidas no churrasco. Já conhecia alguma?

  • A Belisa. me impressiona igualmente como escritora e como artista visual. Agora ela também está por trás da Editora Vela, que se propõe a ser a menor editora do mundo, mas não vou deixar e faço aqui meu convite para a conhecerem.

  • O fotógrafo Eduardo Ortiz falou sobre a paciência de ver: “More often than not, scenes are not ready the moment you arrive; they need care, attention, and a trained eye to recognise the potential that has not yet unfolded”. Isso é algo que pratico nas minhas fotos.

  • A Ana Rüsche escreveu o interessantíssimo Mataram o tédio. E quem morreu?

  • Viva o cinema de rua! Vi The Mastermind (de Kelly Reichardt) na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, a sala mais bonita do Brasil. O filme é jazz puro e tem enquadramentos inspiradores para quem ama fotografia.

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Um abraço do Chris

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