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Migraciones · Apr 17, 2026

[Migra #57] Meu (quase) encontro com o boto e outros seres amazônicos

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Natália Becattini · Migraciones

Ainda no ritmo da minha viagem ao Pará, reposto aqui, com alguma edição, uma crônica da vez que estive em Alter do Chão, em 2019, e publicada originalmente no 360meridianos.

“Na mata aqui atrás tem Curupira, meu filho já viu. Contou que era uma criança pretinha, mas não conseguiu ver se tinha mesmo os pés virados pra trás”. Morador da comunidade ribeirinha de Coroca, em Alter do Chão, Seu Onivaldo é enfático em dizer para qualquer um que duvide: os espíritos do folclore amazônico não são lenda, coisa nenhuma. Vivem na floresta e nos rios e fazem parte do dia a dia das pessoas da região. Ali, no pequeno povoado às margens do Rio Arapiuns, o Curupira, ente protetor das matas, é quem mais costuma dar as caras.

“Ela é danada. Ela despista a gente e espanta a caça. Faz um barulho de um lado, na hora que você olha, não tem nada. Ai faz o barulho do outro lado. Enquanto você procura, os bichos já fugiram todos”. Figura folclórica famosa em toda a região amazônica, o Curupira sempre fez parte da cultura dos povos dali, sendo um dos personagens folclóricos mais antigos do Brasil. Há registros sobre de aparições desde o século 16 e, embora a descrição física varie de acordo com a região, os relatos são unânimes em alguns pontos: de estatura baixa, pele escura, cabelos vermelhos e pés invertidos, esse danadinho aterroriza quem tenta derrubar árvores ou caçar animais.

Seu Onivaldo sabe bem. Era Curupira, ele garante, quem derrubava todas as noites as caixas de criação de abelhas instaladas em Coroca, que tem na venda do mel produzido ali uma de suas principais fontes de renda. Também era responsável por fazer com que mesmo os conhecedores mais experientes das matas andassem em círculos sem parar: “bagunça nossa cabeça e não tem quem consiga encontrar o caminho”.

Coroca

Mas quem vive com a constante presença do espírito já aprendeu a lidar com ele. Para cair nas graças de Curupira, é preciso deixar um pouco de fumo ou cachaça de presente. “Pode também fazer uma trança com algum pedaço de pano ou palha e deixar em cima de uma pedra, que ela fica distraída com a trança e esquece de você”, explica.

Ourimar, também morador da comunidade, relata já ter sentido a presença de Curupira, mas foi com outro personagem o seu encontro mais marcante. “Um dia eu estava pescando no barco e vi uma pessoa sair de dentro rio, com até a metade do corpo para fora. Como estava meio escuro, eu não consegui ver o rosto, mas dava pra ver a forma de um corpo certinho, e a pessoa parecia que usava um chapéu”, conta. “Será que era o boto?”, perguntei. Ele riu e deu de ombros: “Vai saber…”.

O boto é outra figura muito presente no imaginário local. Seja nadando nas águas próximas ao mercado de Santarém, onde eles passam para se alimentar dos peixes jogados pelos vendedores, ou protagonizando a colorida disputa da festa do Çairé, o animal e as lendas que o cercam fazem parte do cotidiano dos moradores de Alter do Chão.

Representação do Boto em sua forma animal e humana durante as apresentações do Çairé de 2019.

Na lenda, ele se transforma em um homem atraente que seduz mulheres solteiras nas festas e noites de lua cheia. Mas o personagem também já enganou os irmãos de Dona Neida.

Um dia, quando jogavam dominó, escutaram o assobio do boto e resolveram ir atrás para tentar encontrá-lo. Quando chegaram ao local de onde acreditavam vir o som, o assobio já soava em outro canto da ilha: “Na hora que ele assobia a gente arrepia todinha”.

Correram lá e, outra vez, o barulho tinha mudado de lugar. Ficaram nesse vai e vem, sendo feitos de bobos, até anoitecer, sem conseguir pegar nem um vislumbro do bicho.

A parte de mim que é cartesiana demais para acreditar sem ver e jovem mística demais para duvidar sem hesitar se decepcionou com a falta de materialidade dos relatos. Saí de lá prometendo voltar um dia para, quem sabe, ser seduzida pelo boto ou sequestrada por Curupira, e deixando, só por precaução, um pouco de fumo na beira do rio antes de partir.

Eu amo qualquer tipo de história sobrenatural e vou adorar saber as experiências de vocês com figuras folclóricas, lendas (ainda que urbanas) e aparições. Me conta aqui nos comentários!

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Nos vemos na próxima,

Até lá!

Read the original on natybecattini.substack.com

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