Na saída da pandemia, quando parecia que todo mundo tinha virado um pouco nômade graças ao trabalho remoto, li uma reportagem da BBC que falava sobre pessoas que tinham dado uma chance ao estilo de vida e, ao não se adaptarem, faziam agora o caminho inverso de pendurar as mochilas e ter um lar.
Os motivos listados eram sempre os mesmos: dificuldade de estabelecer uma rotina de exercícios, de se alimentar de forma saudável, de bancar o aluguel em dólar – inflado justamente pelos, vejam só vocês, nômades digitais que parecem sempre querer correr para os mesmo lugares. Burocracias em outra língua. Fuso horário.
Na época, o texto me deixou bem irritada porque ele usava alguns poucos exemplos de gente que não se adaptou, mas com uma entrelinha generalizante que dava a entender que o nomadismo não é um estilo de vida sustentável a longo prazo. Assim, pra todo mundo mesmo.
Cá pra nós, acredito a narrativa fazia parte de uma ofensiva contra o trabalho remoto que perdura até hoje. Ofensiva essa que nós, membros da classe trabalhadora que precisa ir ao escritório para fazer chamada via Teams, estamos perdendo amargamente.
A reportagem parecia ignorar a existência de pessoas que, apesar de todos os percalços e dificuldades, tinham, sim, se adaptado àquela vida em movimento. Gente que bancou a escolha com seus ônus e bônus e conseguiu ver beleza no desenraizamento. Que estavam aí a 5, 10, 15 anos na estrada, e que poderiam até parar, sim, em algum momento, porque nenhuma escolha na vida é pra sempre, mas que jamais iriam negar que aquilo fez muito sentido pra eles, e durante um bom tempo.
Gente como eu.
Quando resolvi abrir mão da vida nômade, em meados do ano passado, não o fiz porque estava cansada (apesar de estar, sim, um pouco), mas por necessidade. Foi um daqueles momentos em que a gente escolhe o caminho que faz mais sentido, não necessariamente o que a gente quer mais.
Dito isso, preciso admitir que — e com algum custo para o meu ego de viajante —, há beleza na rotina e na estabilidade.
Ir sempre à mesma academia me tira o fardo de ter que adaptar o treino à cada espaço, e me impede de faltar com a desculpa de que o lugar é quente, fedido e velho. Desculpa que, convenhamos, eu usei mais vezes do que deveria.
Não ter que me mudar a cada três meses me permitiu, finalmente, montar um apartamento do meu jeito. E o conjunto de panelas de cerâmica e as facas afiadas que escolhi têm me ajudado a cozinhar mais.
Parece um detalhe besta, mas pouco se fala sobre a qualidade dos utensílios de cozinha deixados nos Airbnbs mundo afora. Já fiquei em lugares que, inclusive, se esqueceram de disponibilizar talheres e panelas. E os espaços para se preparar comida estão ficando tão diminutos nos novos projetos de construção civil que devem desaparecer muito em breve.
Por falar em Airbnb, agora pago o mesmo tanto para morar em um lugar melhor, um pouco maior e mais bem localizado que a média dos meus lares temporários. E posso ter coisas: enfeites de velhas viagens que estavam guardados em caixas passaram a decorar minha sala, meu armário tem uma capacidade muito maior que uma mochila de 50L e meu cabelo e unhas estão finalmente tendo o cuidado que eles merecem.
Os porteiros sabem meu nome, estou a um ônibus de distância da casa dos meus pais e finalmente posso estar presente em aniversários, casamentos, chás de bebê.
E, claro, temos o trabalho… Depois de 15 anos trabalhando, na maior parte do tempo, como frila e por conta própria, muitas vezes o caminho profissional se tornou solitário. Tive que me adaptar um montão com essa coisa de horário; de ir presencial duas vezes na semana; de participar de uma equipe… não encaro isso como negativo, no entanto, mas como um grande aprendizado de uma experiência que todo mundo costuma ter e que, porque até eu então eu não tinha tido a vida mais cartesiana de todas, eu ainda não tinha.
(E, claro, depois do caos financeiro que foi 2024, ter um salário pingando na conta todos os meses é ainda melhor do que eu esperava que fosse)
Escrevi esse texto de Belém, pra onde fui passar o feriado de Semana Santa. Em breve, pego meu vôo de volta pra São Paulo, um Uber para meu bairro, onde vou dormir no meu quarto, na minha cama.
E, aos poucos, vou entendendo que também pode ser bom voltar pra casa.
Responde pra mim com um comentário aqui na Migra!
… eu amei Belém e acho que posso considerar minha capital brasileira favorita até agora. Tá pra nascer um povo mais simpático que o paraense, viu?
… o único ponto negativo da viagem foi que era semana santa e não tinha muita festa de aparelhagem rolando, não consegui ir em nenhuma. Mas fica aí um motivo pra voltar.
… esse fim de semana vou participar de um seminário para produtores de conteúdo de viagem da ABBV (Associação Brasileira de Blogs de Viagem), que acontece todos os anos, em abril. Essa é uma ótima oportunidade de rever as pessoas, conhecer gente nova e falar um pouco sobre como anda esse mercado e sobre creator economy. Se você ainda não conhece o trabalho da ABBV, clique aqui.
Olá, Viajeros!
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Continuem explorando!
Nos vemos na próxima,
Até lá!

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