Hoje varri baratas. Umas três mortas no quintal. Um grande passo para o time dos que tem catsaridafobia. Ontem, uma delas ainda viva andava até o muro em passos lentos, enquanto eu tentava sair de casa. Curioso. Já que a agilidade delas é justamente uma das coisas que mais me apavora.
Lembrei então de uma vez quando ainda morava com os meus pais em que quase disparei o alarme de casa por conta de uma dessas que ia sem pressa. Eu tinha descido de madrugada para tomar um copo d’água e tinha vinte segundos para desarmar o alarme. Congelei na escada. Ela desfilando no corredor que ia da cozinha até a porta, eu sem conseguir descer. Pensei em arremessar um livro pesado que estava no pé da escada, mas corria o risco de acordar a casa toda, estragar o livro e ainda por cima incitar um voo. E convenhamos que nem os mais corajosos querem baratas voando.
O alarme me acelerava. A barata no ritmo dela. Eu congelada. A mente a mil por hora já imaginando a seguradora ligando ou tocando na porta. Como é que eu ia explicar que a invasão era de uma barata? Ela então finalmente passou mais à frente da caixa do alarme. Eu saltitei para desarmar, rearmar e voltei para o quarto para dormir com sede. Os vinte segundos mais lentos de toda a minha vida. Preferia fazer um minuto de prancha isométrica.
Um mês atrás foi uma na gaveta da cozinha. Em pleno domingo às quatro da tarde. O turno delas não é o noturno? Desesperei. Sozinha em casa, puxei uma cadeira um pouco distante e vigiava a gaveta enquanto ligava pedindo socorro. O namorado no trabalho; a sogra longe de casa; a cunhada não atendeu e minha mãe na estrada voltando de um velório. Eu respirava tão ofegante que fiquei tonta e pensei que fosse desmaiar. Então imaginei que se eu estivesse desfalecida no chão ela poderia passar em cima de mim e achei mais prudente me manter consciente e alerta. Que fique aqui registrado: quando eu morrer quero ser cremada porque não fugi delas uma vida inteira para depois ser entregue de bandeja.
Já quase me afoguei na piscina, já me joguei na frente de caminhão, já fiquei 48 horas fora de casa depois que uma passou no meu pé no banheiro e talvez eu pudesse escrever um livro de contos baratais de tantas situações triviais que se transformaram em cenas de terror por conta desse medo. Irracional. Ilógico. Paralisante. Desesperador.
Verões são sempre difíceis para mim.

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