Abri o whatssap e dei de cara com três mensagens, de três amigas diferentes, que falavam sobre um assunto em comum: dor de amor. Uma delas me pegou: “Tenho que ir para uma reunião agora, às 17h, e parece que tem um buraco no meu peito”.
Reparei que ela não pensou em adiar ou desmarcar a reunião. Ela sequer disse que não sabia o que fazer sobre o buraco no peito. Não pediu ajuda. Apenas constatou que seria preciso fazer o que precisava, apesar do buraco no peito. O que me fez pensar em quantas vezes eu também segui trabalhando apesar de um buraco no peito, e quantas outras mulheres seguem fazendo o que precisam fazer, apesar de um buraco no peito.
Se o buraco não fosse metafórico e nós passássemos a enxergar pessoas caminhando por aí com um buraco no peito, quantas delas ainda estariam tentando sorrir em disfarce?
Há algumas semanas, comecei a ler o livro A Jornada da Heroína, de Maureen Murdock, porque estava interessada no que seria o contraponto feminino da narrativa da Jornada do Herói, de Joseph Campbell. E não é curioso como alguns livros moram por anos na nossa estante, mas pedem para ser lidos só no momento exato em que estamos prontas para absorver o que eles guardam?
Em vez de me deparar com uma estrutura narrativa interessante para explorar nos meus processos de escrita, o que encontrei foi um caminho semelhante pelo qual as mulheres parecem caminhar há décadas. Histórias, padrões e comportamentos repetidos por muito mais que três mensagens parecidas no whatssap. Mulheres falam. Portanto sei que todas pensamos e sentimos as mesmas coisas, ainda que em momentos diferentes. E é nessa nossa fala que os buracos parecem se preencher, mesmo que timidamente. Porque apesar da falta de originalidade no que sentimos, a identificação traz um alívio genuíno. Algo que só o acolhimento feminino parece ser capaz de fazer.
Só que os homens dessas histórias também tinham seu algo em comum: silêncio, reclusão e problemas de comunicação. Principalmente entre si, porque não trocam, não acessam, não elaboram ou demonstram o mínimo de interesse em se escutar e se compreender. Eles também andam por aí com o buraco no peito, mas parecem não ligar.
Afinidade importa, mas o que é que nos preenche afinal?
Eu quase deixei que essa fosse a terceira semana sem news.
Fiquei sobrecarregada de trabalho na primeira semana, doente na segunda, sigo doente nesta terceira e várias vezes me peguei pensando em escrever, mas fui vencida pelo mal estar e deixei os pensamentos de lado. Nem sequer anotei alguns deles! O que acho um absurdo porque vivo dizendo aos meus clientes para não deixar de anotar as próprias ideias. Escritores têm dessas coisas. Às vezes, o menor dos estímulos nos faz perseguir toda uma linha de pensamento que não leva a lugar algum, mas que é bastante criativa. Somos curiosos por natureza.
Só que ontem atingimos a marca de 155 inscritos nessa newsletter e por mais que esse número não pareça expressivo para muitas pessoas, para mim, foi o suficiente para me lembrar do que me faz sentir viva. Cento e cinquenta e cinco pessoas que aceitam receber, toda semana, textos meus em suas disputadas caixas de entrada. Textos vivos. Sem desconto ou promoção. Textos sobre vidas. Sem tarefas ou cobranças. Textos reflexivos. Sem marketing ou indução.
Então eu senti que precisava escrever. Por mim — para desafogar a mente dos pensamentos acumulados — e por você, que às vezes encontra nessa news uma pausa para o seu dia corrido. Pelo menos é assim para mim nas newsletter que eu assino: os poucos e-mails que eu gosto de receber.
Obrigada por estar aqui. É importante pra mim.
Essa semana fiquei sem convidada para Um café entre amigas, mas o projeto continua!
Quer participar desta coluna? Se você é mulher, escreve, se identificou com esta news e gostaria de enviar um texto para ser lançado aqui, entre em contato comigo pelo e-mail: mayara@historiasbemcontadas.com (ou já manda o link para aquela sua amiga que pode se interessar!)

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.