Obsessão (2026), longa-metragem dirigido pelo youtuber e cineasta Curry Baker, com um orçamento de apenas 750 mil dólares, é considerado um dos melhores filmes de terror do ano e não é à toa. Acompanhamos Bear (Michael Johnston), um jovem rapaz que compra um amuleto mágico capaz de realizar um único desejo. Apaixonado por sua melhor amiga Nikki (Inde Navarrette), ele deseja que ela o ame mais do que qualquer coisa no mundo. O pedido funciona, porém de uma forma aterrorizante, transformando o afeto dela em uma possessividade extrema.
O filme é realmente assustador, pois vemos Nikki agir completamente fora de si. Mas não é bem assim que funciona. A “Nikki pré-desejo” ainda está em seu corpo, apesar de sua nova versão tomar conta a maior parte do tempo. E em alguns momentos, podemos perceber de forma sútil, e/ou conscientemente. Em uma de suas primeiras cenas, assim que Bear faz o pedido, Nikki transita entre a “nova Nikki” e si mesma. É o primeiro contato que temos com as mudanças de consciência dela. O filme conta com outras cenas, em que ela se assusta com o que está acontecendo e volta ao seu novo “normal”.
O principal momento em que a verdadeira Nikki consegue se comunicar com Bear, é quando a outra versão está dormindo. Nisso, ela aproveita sua consciência que estava acordada e pede que Bear a mate. Ele em seguida diz a frase mais assustadora do filme inteiro: “o que tem de tão ruim em estar comigo?”
O verdadeiro horror de Obsessão não está no afeto de Nikki, e sim no egocentrismo e covardia de Bear. Em muitos momentos ele age com passividade diante de situações embaraçosas e doentias ocasionadas por Nikki, pelo simples fato dele querer continuar com ela. Ele a usa, e a mantém presa nesse feitiço da devoção. Ela o adora, ela o serve, ela o protege… ela, literalmente, mata por ele.
Se a “Nikki pré-desejo” gostava de Bear romanticamente, é um caso à parte. O problema da história está centrado em ele ver a situação se agravando, ter ciência do que está acontecendo, e agir como se nada de errado estivesse acontecendo. Ele tirou o livre arbítrio da própria amiga. Vale lembrar que, quando telefonou para a empresa do amuleto, tentou perguntar se poderia diminuir a intensidade do desejo ao invés de o cancelar. Ele se sente muito confortável com o fato de estar sendo amado pela pessoa que ele sempre foi obcecado. Sarah, outra amiga do grupo de Bear, sempre gostou dele da forma que ele torcia que Nikki gostasse, mas estava tão fissurado na possibilidade de sair com Nikki, que nem reparou que Sarah sempre esteve ao seu lado (ou melhor, na sua esquerda).
Na mesma ligação que Bear faz a empresa do amuleto, ele descobre que Nikki está condenada a viver em devoção dele até o fim de sua vida. Ao final da história, ele toma várias pílulas com a intenção de ter uma overdose e escapar da situação que ele criou, e de certa forma romper o pedido. Ele se arrepende por um instante da ideia e tenta vomitar as pílulas, mas Nikki usa outro amuleto comprado por Bear (que pretendia desejar que nunca tivesse desejado pelo amor de Nikki) e deseja a mesma coisa que ele fez a ela. Por alguns segundos, os dois estavam apaixonados na mesma intensidade, até que os efeitos dos comprimidos começam em Bear.
Nikki acorda do desejo de forma instantânea e se depara com o estrago que sua outra versão fez: seus 3 amigos mortos e seu corpo sujo de sangue. Apesar de estar livre de qualquer feitiço, ela foi abandonada na realidade onde ela terá que lidar com injustas consequências que eram responsabilidade de Bear. Um ponto que eu observei, foi que ele tomou a decisão de se matar não apenas para fugir do problema, mas também por ele ter perdido todas as pessoas que ele tinha em sua vida: morava na casa de sua falecida avó, perdeu sua gata (que comeu seus remédios), perdeu seus amigos, e sua melhor amiga (que mesmo viva, já não seria quem era antes).
O filme retrata muito bem temas como a dependência emocional, possessividade e a extinção de individualidade dentro de uma relação. O novo mundo de Nikki girava em torno de Bear, a vida dela se moldou a dele. A única responsabilidade que ela tinha era amar seu namorado, enquanto ele vivia sua vida normalmente, não ligando pra como ela estava, e as coisas que ela fazia.
Ao mesmo tempo que há o terror sobrenatural, pode se dizer que Obsessão mira definitivamente no terror psicológico, fazendo com o que o espectador se sinta mal pela personagem, que está sendo colocada como a vilã na vida do protagonista. Bear era obcecado por Nikki, e obcecado com a ideia de ter ela ao seus pés. A moral da história está muito longe de ser “cuidado com o que deseja”, pois é o filme é uma reflexão sobre amores em que o controle se sobrepõe à liberdade de ambos.
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