Duas décadas depois da bem-sucedida adaptação do livro homônimo de Lauren Weisberger conquistar público e parte da crítica, O Diabo Veste Prada 2 desponta como mais uma prova do esgotamento cultural da indústria de cinema hollywoodiana. Um apelo à nostalgia e, ao mesmo tempo, uma tentativa de reinscrever suas personagens em um contexto contemporâneo, no qual o jornalismo está mantido refém de click baits e matérias sensacionalistas, e tenta sobreviver dentro de um meio regido pela lógica do digital que privilegia a velocidade, o engajamento e a diluição da autoridade e identidade editoriais, em favor da pasteurização. Com o roteiro de Aline Brosh McKenna, que já havia adaptado o original e Uma Manhã Gloriosa, esta continuação livra-se da obrigatoriedade de dar sequência à história dos livros, a fim de encontrar a sua voz original, ainda que seja o subproduto da mesma pasteurização de conteúdo cultural que critica.
O foco da continuação permanece deslocado da moda, que é só a superfície, ao jornalismo, que é a estrutura. E a abordagem de McKenna evita qualquer leitura apressada que havia enquadrado o anterior como comédia romântica ou sátira do mundo da moda, quando era um estudo sobre ambientes de trabalho e as exigências desproporcionais impostas às mulheres nos ambientes corporativos. Para além disto, é ainda um estudo sobre o momento de transição, em que a tecnologia digital e a ganância corporativista têm reconfigurado o ambiente editorial. Agora, a jornalista idealista e recém-demitida Andy Sachs (Anne Hathaway) retorna à Runway após um escândalo ter abalado a reputação de sua editora, Miranda Priestly (Meryl Streep). Na função de editora, Andy até é capaz de apagar o incêndio do cancelamento digital da revista, mas não de inserir a sua linha editorial dentro de uma lógica contemporânea algorítmica de engajamento. Retornam o adorável Nigel (Stanley Tucci) e a reptiliana Emily (Emily Blunt), agora representante à frente da Dior.
Entretanto, a atualização temática da narrativa não está acompanhada da atualização das personagens. Há uma incoerência estrutural que se manifesta, sobretudo, na forma como as suas personagens são regredidas a estados emocionais e comportamentais bem próximos aos que haviam superado no desfecho do original. Repito: há 20 anos. Andy Sachs retorna não exatamente ao ponto de partida, mas a mesma zona de insegurança à procura de validação e legitimidade, ainda que agora com mais recursos à sua disposição. Miranda Priestly, por sua vez, parece desconsiderar nuances adquiridas anteriormente, voltando a operar quase exclusivamente como arquétipo de poder insensível e frio, sem que o filme consiga – ou talvez sequer tenha tentado – reequilibrar essa representação com o que havia sido sugerida ao final do anterior.
Essa escolha pode ser parcialmente justificada por uma lógica de ciclos, para os quais estamos fadados a retornar. Andy, ao reencontrar Miranda, revive não só o trauma que havia sobrevivido, como também um estado psicológico e profissional que reflete a instabilidade e insegurança do jornalismo contemporâneo. Esta profissão, tal como apresentada aqui, não está morrendo, mas atravessando o processo de metamorfose (que Andy havia atravessado no original) e que exige, novamente, repensar o papel do jornalismo nos dias de hoje. Um aspecto bastante análogo ao que tem acontecido com o cinema, não em conteúdo, mas em forma, no sentido de que é também arte em transformação.
O roteiro ainda retorna à sua vocação original: a de observar como as mulheres continuam sendo compelidas a negociar, de uma maneira desigual, suas ambições profissionais e suas vidas pessoais. A trajetória de Emily, por exemplo, ecoa a de Miranda, tanto na negligência da maternidade – que, no filme, existe apenas na tela do celular – quanto na necessidade de adotar uma postura predadora para obter o que deseja. O sistema corporativista perpetua-se mesmo quando se reinventa, internalizando as mesmas lógicas de poder que antes eram alvo de crítica. Mas o roteiro é falho, e sabota a intenção e essência de seus personagens com sua execução atrapalhada. Nigel exemplifica isto. Sem entrar em spoilers: ainda que entenda o desejo de McKenna em tornar claro ao espectador o que Nigel fez por Andy (o conteúdo), a forma que o roteiro comunica isto literalmente traiu a essência do personagem. Havia muitas formas de o roteiro comunicar o que queria, e escolheu a forma menos coerente com o personagem habituado a atuar nos bastidores e a disfarçar a sua bondade.
O caso de Miranda é ainda mais emblemático. Se, no primeiro filme, sua construção se apoiava fortemente naquilo que não era dito: nos sacrifícios revelados quando tirava a maquiagem e que expunham a mulher por trás do poder, aqui há uma tendência à explicitação, para que não reste dúvidas. O roteiro parece desconfiado da capacidade do espectador de inferir ou interpretar, optando por verbalizar medos e conflitos de forma didática, que antes eram sugeridos mais elegantemente. Neste aspecto, é até contraditório com o tema de resgate e defesa do jornalismo contido no centro do filme.
Mais problemático, contudo, é o movimento de tentar, em certa medida, justificar ou ao menos suavizar o ambiente tóxico que Miranda constrói ao seu redor. Se o original jamais absolvia as suas práticas, ainda que as contextualizasse, a sequência flerta perigosamente com uma legitimação desse modelo, como se a permanência no topo exigisse, inevitavelmente, a reprodução de estruturas abusivas. Trata-se de uma escolha que enfraquece o comentário crítico do filme e que, paradoxalmente, reduz a complexidade da própria personagem que pretende defender.
E, no entanto, O Diabo Veste Prada 2 permanece um filme adorável. Não no sentido de estar isento de críticas, mas no que evoca como experiência afetiva. Reencontrar as personagens, revisitar os seus conflitos e o ambiente do mundo da moda ainda exerce um certo tipo de encantamento, que opera quase como um conto de fadas contemporâneo. E não é à toa que o filme tem, até mesmo, a sua própria fada madrinha (ou o seu deus ex machina), capaz de salvar o dia quando tudo parecia perdida. E faz sentido que o filme acredite, talvez com uma dose de ingenuidade, na persistência de um ideal nobre: o de que histórias bem contadas, reflexões críticas, investigações ou análises aprofundadas ainda têm lugar no mundo digital ultraprocessado.
E foi justamente essa crença, ainda que articulada de uma forma imperfeita, embora apoiada em atores que sabem exatamente bem o que têm que fazer, que sustenta o filme em seus momentos mais frágeis. O Diabo Veste Prada 2 parece propor um gesto de resistência dentro da fábrica do cinema comercial em sua recusa em aceitar que práticas, valores e sensibilidades estejam obsoletos. Pode ser contraditório e certamente é inconsistente e até incoerente, mas não quero ignorar que, ao término, eu me senti bem em retornar a Runway.
Minha crítica em vídeo:

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