O É Tudo Verdade é o maior festival nacional de documentários. Neste ano completou a sua 31ª edição, com sessões em São Paulo e Rio de Janeiro, com produções nacionais e internacionais que representam o melhor do estado da arte deste que é, para uns, um gênero do cinema e, para outros, nos quais me incluo, um tipo de registro audiovisual. Gostaria de tê-lo acompanhado com maior afinco do que este misto editorial, reflexão, que tive após assistir a Carcereiras, Apocalipse Segundo Baby e Sagrado.
Não há nada que relacione este filmes à primeira vista. Carcereiras retrata o cotidiano das agentes penitenciárias Ana Paula e Mariana. Já o biográfico Apocalipse Segundo Baby é a viagem em primeira pessoa pela trajetória da cantora Baby do Brasil, outrora, Baby Consuelo. Para concluir, o premiado Sagrado acompanha a rotina de professores e funcionários de uma escola pública em Diadema, São Paulo. O que poderia haver em comum entre estes filmes que não o tipo/gênero? A maneira com que o contraste, ou a oposição de forças, assenhora-se do sensível narrativo.
Carcereiras, de Julia Hannud, é bastante evocativo em convidar à reflexão sobre quem está encarcerado e quem não está. Em quem está atrás das grades e quem está à frente delas, abrindo-as ou fechando-as. Nos corredores da penitenciária, no pátio, nas celas, na enfermeira, as mulheres apenadas com a perda da liberdade. Mas será que Mariana e Ana Paula também não estão apenadas em permanecer atrás das grades que somente se revelam visíveis quando a direção de Hannud assim deseja encará-las? Há o convite a refletir o que é liberdade inscrito no desejo delas de serem removidas e de mudarem, de acordo com os interesses que possuem.
Apocalipse Segundo Baby, de Rafael Saar, parece à primeira vista somente a biografia documental protocolar, com o acréscimo de aderir à forma transgressora e ambígua de sua biografada, a cantora Baby Consuelo, hoje Baby do Brasil. Onde há o contraste, se é que há? O impulso imediato é em inscrevê-lo na história de Baby: a mais carioca dos Novos Baianos e a hippie naturalista e da contracultura, até a figura que ascendeu aos palcos do evangelismo neopentecostal e apoiou a candidatura de quem representava o que combateu na juventude. Baby é contrastes, sim, mas a narrativa também: a forma estilizada e avessa a convenção em contraste com a narrativa firmemente cronológica, convencional.
Sagrado também proporciona uma visão dupla dos contrastes narrativos: professores e funcionários visibilizados e alunos invisibilizados, senão na paisagem sonora ou na paisagem educacional. Atrás desta camada, o contraste mais sofisticado da narrativa de Alice Riff, pois fruto da continuidade histórica: se anteriormente, a comunidade e população local travaram batalhas política, midiática e revolucionária pelo direito às propriedades, agora esta batalha é travada no campo didático, dentro de escolas e de salas de aulas.
Há um eco atraente entre cinemas tão díspares, e que aludem à natureza do cinema, ou da dramaturgia de forma geral que sangrou no interior das telas quando tomadas pela narrativa. Ideias contrastantes e forças opostas tendem a provocar conflitos ou reflexões dramáticas mais eficazes em como desafiam nossos olhares e sensibilidade no encontro de padrões narrativos, formais e estéticos dentro ou fora da textura que os cineastas ambicionaram.
Cada um destes filmes, intencionalmente ou não, reproduziu contrastes com funções variadas. O contraste permitiu refletir sobre o que é a perda e restrição da liberdade; para além do sistema punitivista, mas já no capitalismo, dá para afirmar que cada um de nós é livre, de fato? O contraste convidou a refletir sobre como podemos ser nossa antítese, e como podemos arquitetar as nossas vidas para se tornar exatamente aquilo contra o qual combatemos. E, claro, o contraste nascido dentro do palco de conflito e da luta por direitos torna-se um signo da opressão: opressores, oprimidos e um campo de batalha, não mais físico, agora intelectual e espiritual.
Estes filmes estrearão em breve nos cinemas brasileiros.

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