Tem uma frase que ouvi muitas vezes da minha avó e da minha mãe e que acabou ficando comigo: “Se é para fazer, faça bem feito. Além de o tempo ser o mesmo, você fica com a consciência de que deu o seu melhor.” Quando era mais novo, entendia aquilo quase como uma orientação sobre responsabilidade. Hoje percebo que havia ali também uma ótima lição sobre saúde emocional. Porque fazer o nosso melhor é algo que depende de nós. O reconhecimento dos outros, não.
Todos gostamos de ser reconhecidos. Um elogio, um agradecimento, uma promoção, uma mensagem dizendo que nosso trabalho fez diferença. Isso nos faz bem e é absolutamente humano. O problema aparece quando deixamos de desejar reconhecimento e passamos a depender dele. Quando precisamos da aprovação dos outros para confirmar que aquilo que fizemos teve valor. E essa é uma conta perigosa, porque colocamos nosso bem-estar nas mãos de algo sobre o qual temos pouco controle.
Podemos estudar para uma prova, mas não controlar exatamente o resultado. Podemos preparar uma ótima apresentação, mas não determinar como será recebida. Podemos nos dedicar ao trabalho, ajudar alguém, cuidar de uma amizade ou treinar muito para uma competição. Temos controle sobre a dedicação, o preparo, a disciplina e nossas atitudes. A reação dos outros pertence aos outros. Parece óbvio, mas gastamos uma quantidade enorme de energia tentando controlar justamente essa segunda parte.
Esperamos o elogio que não veio. Ficamos incomodados porque alguém não reconheceu nosso esforço. Comparamos nossa trajetória com a de quem recebeu uma oportunidade que gostaríamos de ter recebido. E, hoje, ainda temos um complicador: as redes sociais transformaram boa parte da vida em um grande placar. Curtidas, seguidores, visualizações, comentários. Tudo parece mensurável e comparável.
Só que viver permanentemente esperando aprovação cobra um preço. Frustração, comparação, sensação de injustiça e necessidade constante de reconhecimento alimentam o estresse. E aquilo que começa na cabeça chega ao corpo. O estresse crônico interfere no sono, aumenta a tensão muscular, dificulta a recuperação, pode contribuir para alterações da pressão arterial e ainda prejudica nossos hábitos. Dormimos pior, temos menos disposição para nos movimentar e ficamos mais vulneráveis a escolhas alimentares ruins. Por isso, aprender a lidar com expectativas também é cuidar da saúde.
Na atividade física vejo isso com frequência. Nem todo treino será excelente. Haverá dias em que você correrá menos, levantará menos peso ou jogará pior. Se a satisfação depender apenas do resultado, será fácil se frustrar. Mas, se você entender que naquele dia apareceu, treinou e entregou aquilo que era possível, existe uma vitória ali. A saúde é construída muito mais pela consistência do que por performances extraordinárias. Acho que podemos levar essa lógica para a vida.
Em vez de terminar um trabalho pensando apenas “será que gostaram?”, talvez devêssemos nos perguntar primeiro: “Eu fiz o melhor que podia com as condições que tinha?” Se a resposta for sim, existe uma tranquilidade importante nessa constatação. Isso não significa ignorar críticas. Precisamos ouvir, aprender, corrigir e melhorar. Feedback é fundamental. Reconhecimento também é gostoso e pode ser um grande combustível. O problema é fazer dele o único combustível.
Com o passar dos anos, tenho entendido melhor aquela frase que atravessou gerações na minha família. Minha avó dizia para minha mãe. Minha mãe repetia para mim. E percebo que ela nunca foi apenas sobre fazer as coisas direito. Era também sobre onde colocar nossa energia. Faça bem feito porque isso está sob seu controle. Prepare-se, dedique-se, seja responsável, trate bem as pessoas e tente entregar o seu melhor. Depois, aceite que uma parte do resultado já não pertence a você.

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