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Instituto Amuta · Aug 18, 2026

Quem é você na hora do conflito?

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Marcelle xavier · Instituto Amuta

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A maioria de nós nunca parou para olhar e muito menos compartilhar com as pessoas com quem nos relacionamos quais são as nossas crenças, o que herdamos da nossa família e da nossa cultura, e de maneira geral, como nos comportamos na hora de um desentendimento.

Mas, muitos dos nossos desencontros são permeados pela diferença de comportamento de cada pessoa na hora de viver um conflito, e principalmente, pela dificuldade de aceitar que muitas vezes a forma como cada pessoa vive o conflito pode ser radicalmente diferente.

Segundo estudos do Love Lab apresentados no livro Fight Right de John e Julie Gottman existem 3 estilos no conflito, sendo que nós ficamos sempre no espectro entre esses três. Embora ninguém seja 100% um estilo só, a descoberta do Love Lab nos ajuda a reconhecer onde nós e as pessoas com quem nos relacionamos nos encontramos na escala do conflito, e, também, qual o padrão de conflito de cada uma das nossas relações.

Existe um jeito melhor que o outro? Por muito tempo acreditou-se que existia um estilo melhor que o outro. Eu mesma, passei grande parte da minha vida adulta me culpando pelo meu estilo de conflito e tentando a todo custo me encaixar em qualquer um que não fosse o meu. Mas pesquisas mais recentes apontam que aquilo que torna um relacionamento mais saudável não é o estilo de conflito e sim a capacidade de manter-se na proporção de 5:1 em momentos de desentendimento e de 20:1 na relação de maneira geral.

Para cada interação negativa durante um conflito precisamos ter 5 interações positivas, isso porque interações negativas têm muito mais peso do que as negativas. Interações negativas nos colocam em estado de alerta, ativam nosso estado de defesa, geram distanciamento e podem minar a conexão e acabar com a abertura necessária para explorar um tópico importante de modo a aprender e evoluir a relação frente ao conflito.

Interações positivas durante um momento de conflito incluem um pedido de desculpas, uma troca de sorrisos, uma pergunta esclarecedora, uma piada e um momento de humor compartilhado, um aceno de cabeça concordando com o outro, dizer algo como “bom ponto, faz sentido, eu não havia visto dessa forma”, um toque físico tranquilizador, aquele momento que conseguimos verdadeiramente validar algo que a outra pessoa disse ou empatizar com a forma como ela se sentiu, falar em primeira pessoa e dizer como se sente, quando enfatizamos aquilo que temos em comum ou a nossa vontade de cuidar da relação a partir do conflito, quando assumimos responsabilidade pela nossa parte em um desentendimento, quando nos lembramos daquilo que funciona na relação e relembramos nossos sucessos e porque estamos junto, quando nos apreciamos, quando ouvimos de verdade o outro, quando espelhamos aquilo que ouvimos… Existem muitas formas de interagir positivamente em um conflito, e cada pessoa pode encontrar aquelas que mais funciona para si.

Já interações negativas incluem ignorar, diminuir ou fingir que nada está acontecendo quando o outro apresenta um desconforto, uma piada sarcástica, passivo agressividade, não expressar o seu desconforto e achar que a outra pessoa deveria adivinhar, invalidar as suas emoções e as do outro (principalmente quando eliminamos a possibilidade de sentir raiva), se apressar em chegar a uma solução sem explorar verdadeiramente o tópico em questão, a tentativa de persuadir o outro como se apenas o seu lado estivesse correto, o empilhamento de desconfortos e tópicos (em uma única briga trazer todos os problemas de uma só vez), criticar ou desprezar o jeito do outro, entrar em modo defensivo, não se vulnerabilizar e terceirizar o seu desconforto (todo mundo pensa isso, você sempre faz isso, você nunca faz aquilo), se inundar de emoções negativas e não conseguir se regular reduzindo sua capacidade de escuta, abertura e conexão.

Mas e aí? Quais são os estilos de conflito estudados pelo Love Lab e quais os pontos de atenção para cada um deles?

Pessoas evitativas em conflitos não têm muitas discussões, na realidade elas não entendem muito bem porquê brigar e se percebem que há divergência largam rapidamente o tópico porque acham que divergir é perda de tempo. Elas não querem convencer ninguém de nada e por isso preferem “concordar em discordar” para não ter nenhuma perturbação na relação.

São pessoas que podem ter relações muito estáveis e satisfatórias, pois se satisfazem com o que tem e fogem de questões que ameaçam a estabilidade da relação - o que pode também levá-las a correr menos riscos. São muito boas em respeitar e conviver com as diferenças, e fogem daquela armadilha de muitas relações que é a tentativa de mudar o outro para se encaixar nos seus próprios modelos.

Pontos de atenção:

Para evitar o conflito, muitas vezes “se misturam” menos com o outro - aceitam menos influência, preferem fazer coisas sozinhas, gostam de ter o seu território separado o que no extremo pode levar à solidão e isolamento. Podem também ser percebidas como distantes, frias, indiferentes e desapegadas principalmente por pessoas que são predominantemente voláteis em conflito e o excesso de foco no positivo pode evitar que questões importantes sejam exploradas e conduzam a uma evolução e aprofundamento na relação.

Diferente das pessoas evitativas, as validadoras não têm dificuldade em divergir e aceitar a influência do outro - elas não se satisfazem em “concordar em discordar” porque para elas o mais importante em um conflito é justamente chegar a compromisso, solucionar o problema, achar meios de dar o próximo passo. E fazem isso de maneira colaborativa, tentando ao máximo considerar todos os pontos de vista.

De maneira geral, são pessoas que vão conseguir manter bem a proporção de 5:1 pois são capazes de ouvir, espelhar aquilo que ouviram e evitar a desregulação emocional. Justamente por isso, por muito tempo esse foi o estilo percebido como ideal, o jeito “correto” de viver um conflito.

Pontos de atenção:

Como são bastante racionais e lógicas, são pessoas que podem ter medo de acessar as suas emoções e com isso perder o seu pragmatismo, por isso podem ter dificuldade de sair de uma empatia “treinada” e até mesmo “mecanizada” e permitir que as emoções façam parte da conversa. O excesso de foco na solução pode também levá-las a abandonar o humor e a conexão, além de diminuir sua capacidade de explorar a questão antes de pular para uma solução - o que pode levar a soluções não duradouras.

Pessoas voláteis não tem problema em expressar suas emoções, na realidade, isso é muito natural para elas. Elas são muito boas em trazer suas emoções e acolher as dos outros, e por isso, quando são capazes de se co-regular, são muito boas em viver as conversas de maneira integral, de corpo inteiro (pensar, sentir e agir).

Segundo estudos do Love Lab, todas as brigas que dão errado tem um denominador comum - descartar as emoções negativas uns dos outros. Por isso, a capacidade de viver as emoções é a maior força de pessoas voláteis, elas conseguem verdadeiramente se conectar e se expressar de maneira inteira e autêntica uns pros outros. Além disso, ao contrário das pessoas evitativas, como elas não têm medo do conflito, elas conseguem colaborar e se aproximar muito do outro - costumam ter papéis, responsabilidades e vidas mais compartilhadas.

Pontos de atenção

Por viver discussões tão acaloradas, dramáticas e intensas têm mais chance de ser inundadas por suas emoções, além de ativar o estado de defensividade do outro. O maior risco é que rapidamente ambas as partes vivam o conflito não como uma conversa, mas como uma guerra, o que leva a agressão exponencial.

Se não existe jeito certo de viver um conflito, a melhor forma é validar e reconhecer o seu próprio estilo, o do outro e o da relação, partir de onde estamos para entender aquilo que cada uma de nós precisa para manter a proporção de 5:1 durante um conflito, e desenvolver o repertório e as ferramentas necessárias para viver o conflito como uma oportunidade de aprendizado e evolução da relação.

Até breve,

Marcelle Xavier

Fonte: Fight Right: How Successful Couples Turn Conflict Into Connection - por Julie Schwartz Gottman PhD e John Gottman PhD

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Read the original on marcellexavier.substack.com

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