Olá! Que bom ter você por aqui! Vem comigo discutir um assunto muito importante. Vamos lá, são apenas 6 minutos de leitura!
Vou fazer uma pausa nas minhas reflexões puramente musicais para explorar um pouco os domínios da Arte de modo geral. Acho que é uma discussão relevante para termos nos dias atuais. Minha perspectiva é de um músico, é verdade, mas vamos elevar um pouco nosso olhar e pensar no plano geral dessa manifestação demasiado humana.
As primeiras pinturas rupestres pré-históricas foram descobertas nas cavernas de Altamira, na Espanha, no final do século XIX, e geraram um impacto grande na concepção que se tinha do homem primitivo. Acreditava-se até então que a capacidade criativa e a expressão estética do ser humano só viriam a se manifestar muito mais tarde.
Mas não.
Ao serem reveladas aquelas pinturas de cinquenta mil anos atrás ficou muito claro: sim, já éramos nós naquela caverna. A Arte sempre esteve presente ao longo da trajetória da espécie humana. Se há humanos, há Arte! É algo indissociável. É uma manifestação expressiva da nossa criatividade que permite com que nos sintamos conectados àqueles primeiros homo sapiens, como se um grande arco abraçasse o presente e o passado. O que mais seria capaz de representar o testemunho da natureza humana já em tempos tão remotos?
Se há humanos, há Arte!
Às vezes me pego pensando sobre essa grande jornada humana e minha mente vaga pelo tempo, desde os primórdios até os dias de hoje – estes que, francamente, me inquietam bastante. Quando poderíamos imaginar que chegaríamos a um momento tão paradoxal da civilização?
Nunca estivemos tão conectados (digitalmente, em nível global) e ao mesmo tempo tão sós em nossa experiência individual. O bombardeio incessante de informações que vêm parar na palma das nossas mãos e a velocidade frenética das transformações sociopolíticas, climáticas e tecnológicas trazem um certo temor pelo que está por vir, um senso de instabilidade. Eu pelo menos sinto isso.
A ascensão assustadora (e fascinante!) da Inteligência Artificial, por exemplo, nos leva a questionar a própria essência do que significa ser humano, do que nos torna especiais, únicos. Até que ponto somos substituíveis? É sequer razoável pensar nisso?
Neste cenário de fragmentação, ansiedade e busca por sentido a Arte desempenha um papel fundamental, não como uma mera válvula de escape, o que já seria muito nobre, mas como um ato de reafirmação daquilo que somos, desde sempre.
“A Arte é completamente inútil”, ressalta Oscar Wilde no prefácio de seu romance “O Retrato de Dorian Gray”.
De fato não devemos atribuir uma função específica para a Arte. No entanto, a noção de que seja, digamos, inútil não a diminui em nada. Na verdade a eleva! Ela não se presta a uma finalidade prática, mundana. Uma cadeira serve para sentar, um martelo para pregar – utilidades claras, mensuráveis. A Arte, por sua vez, transcende essa lógica funcional.
O valor da sua inutilidade não está atrelado a uma aplicação pragmática, mas sim à sua capacidade de tocar a alma, expandir a consciência, provocar reflexão, gerar prazer estético, nos conectar com emoções profundas e com nossa própria essência.
“A Arte é completamente inútil.”
A inutilidade da Arte é sua maior virtude. Livre da obrigação de "servir para algo” ela pode se dedicar ao sublime, ao belo, ao questionador, ao transcendente. Ao ser inútil para as demandas práticas do cotidiano, a Arte se torna profundamente útil e fundamental para nossa saúde mental e espiritual.
Não é preciso ser um artista para se valer do poder da Arte. Qualquer pessoa, de qualquer origem ou formação – não importa, contanto que seja um humano! – pode se beneficiar desse convívio. Basta ser um apreciador e permitir que ela ganhe espaço no seu dia a dia, seja vivendo mais experiências artísticas e culturais, seja meramente ouvindo música no sossego do seu lar. É muito simples, na verdade. E natural.
Eu poderia listar aqui uma série de benefícios da Arte, mas vou abordar isso no sentido inverso. Vamos pensar em dificuldades e desafios que todos nós, em maior ou menor grau, enfrentamos na vida e como a Arte pode ser uma aliada poderosa para lidar com esses problemas.
Podemos perfeitamente promover momentos de calmaria e contemplação, seja através da música, pintura, literatura, dança… A Arte nos convida a desacelerar, a focar no momento presente, a respirar. Uma melodia serena, por exemplo, pode nos reequilibrar internamente, oferecendo um respiro mental e emocional que poucas outras coisas conseguem promover.
Por sorte temos ao nosso dispor a mais poderosa ferramenta de conexão humana. Ao nos depararmos com uma obra de Arte, estamos dialogando com a experiência, os sentimentos e as ideias de outra pessoa, às vezes de outra cultura ou de outro tempo. Sentimos na pele que não estamos sozinhos em nossas emoções, que outros lidaram com os mesmos sentimentos. Além disso, experiências artísticas compartilhadas (um show, uma peça, um clube do livro) criam laços reais com outras pessoas.
São questões da existência humana sobre as quais a Arte se debruça generosamente: amor, morte, perda, alegria, transcendência, pertencimento. Ela não oferece respostas prontas, mas nos estimula a refletir, a questionar e a encontrar nossos próprios significados. A beleza e a profundidade de uma obra podem nos lembrar que há mais na vida do que a rotina pragmática do dia a dia, reacendendo a centelha do maravilhamento com pessoas, ideias e, pode-se dizer, com o próprio viver.
A Arte tem uma capacidade única de nos colocar no lugar do outro. Um romance, um filme, uma música podem nos transportar para a realidade de alguém completamente diferente de nós, humanizando perspectivas diferentes das nossas e construindo pontos de entendimento onde antes havia muros. Ela nutre a empatia, que é a base para uma convivência mais pacífica. Esse é um poder da Arte, aliás, que tem sido fundamental para a sanidade do mundo nos últimos anos.
A convite da Arte mergulhamos mais fundo, aprendemos a apreciar a nuance, a complexidade e a beleza que exigem mais do que uma olhada rápida. Ela treina nossa atenção e nossa capacidade de interpretação, oferecendo um contraponto à cultura do instantâneo, do descartável, da deslizada hipnotizante nas telas.
Em sua essência criativa, emocional e intuitiva, a Arte reafirma qualidades profundamente humanas que (pelo menos por enquanto) as máquinas não alcançam e não conseguem reproduzir. Ela nos lembra da singularidade da imaginação, da subjetividade e da necessidade de expressão que nos definem. A capacidade de criar a partir do nada é um dos maiores testemunhos do poder irreplicável da mente humana.
A Arte não é uma cura mágica para todos os males. Gosto de pensar que é como uma caixa de ferramentas essenciais, ou mesmo um alimento vital para a alma, que nos ajuda a navegar pelas turbulências da existência.
Trazer a Arte para perto não é um luxo, muito menos uma opção. Faz parte da nossa natureza espontaneamente vivê-la e criá-la! Mas, sabe, podemos vivenciar isso de forma mais intencional, deixando essa experiência ainda mais poderosa e transformadora.
Que tal colocar mais Arte na sua rotina? Você já viu o que ela pode proporcionar na sua vida, certo? Os efeitos são poderosos… E inevitáveis quando a deixamos entrar.
Existem vários caminhos e possibilidades para se aproximar dela, mas – já que sou eu aqui escrevendo essas linhas – não tenho como escapar do impulso de falar de música. Que tipo de música? “A que mais te agradar”, eu poderia dizer. No entanto, venho aqui sugerir mais uma vez (quem me acompanha sabe que faço isso incansavelmente) que você desperte sua curiosidade e conheça novos universos, novas sensações: que tal experimentar a Nova Música Clássica?
É claro que eu ia falar nisso, né? Veja só como nomeei esse Substack aqui, afinal de contas. Tenho explorado sim esse mundo fascinante da música para piano do nosso tempo. Música viva, envolvente, feita hoje por compositores vivos espalhados pelo mundo! Se você por acaso caiu de paraquedas neste texto e não sabe do que estou falando, te convido avidamente a ler o seguinte artigo:
Nesse artigo você vai entender melhor do que estou falando e, inclusive, vai poder conhecer um pouco mais de perto algumas obras lindas que estão se espalhando pelos grandes teatros do mundo. Essa viagem pelo mundo do piano da atualidade é maravilhosa e surpreendente. Deixe-me te guiar por esse caminho! Aposto que você gostar e me agradecer depois!
Aguardo seu comentário, sua pergunta ou como preferir interagir. Vamos conversar melhor sobre isso, trocar ideias, compartilhar experiências. É fundamental que façamos isso!
Um abraço e até o próximo texto!
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