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Camera Lucida/Camera Obscura · Jul 11, 2026

063. A função poética

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Lucas Baptista · Camera Lucida/Camera Obscura

O texto a seguir é uma tradução minha do ensaio “Qu’est-ce que le cinéma expérimental? Sa situation en France”, de Dominique Noguez, publicado em 1976 no catálogo da mostra Une histoire du cinéma, organizada por Peter Kubelka no Centro de Cultura Georges Pompidou, em Paris.

A mostra foi um evento significativo na história das “duas vanguardas” por defender o cinema experimental como uma tradição central – talvez a tradição central – na história do cinema. Uma publicação do próprio museu, feita no ano seguinte, reconheceu o fato de que os valores representados pelos filmes ali exibidos desafiavam as normas do pensamento crítico sobretudo na capital mundial da vanguarda narrativa:

Através de exibições distribuídas ao longo de dois meses, a mostra apresenta uma antologia de filmes não-comerciais. Porque o cinema, como muitas vezes fingimos esquecer, é antes de tudo uma indústria de entretenimento. No entanto, desde os primeiros filmes abstratos de Hans Richter e Viking Eggeling (em 1921), cineastas têm trabalhado contra esse sistema, produzindo um cinema que foi chamado de “experimental” por rejeitar as restrições de um formato limitado. Este rico e estimulante conjunto de obras, entretanto, luta para encontrar o seu caminho nos circuitos tradicionais, e ninguém, ao menos em Paris, compreendê-lo verdadeiramente enquanto a exibição desse tipo de filmes permanecer clandestina.

No catálogo da mostra, além de um panorama histórico de P. Adams Sitney, de um relato de Jonas Mekas e de uma intervenção crítica de Annette Michelson, constam textos de nomes como Claudine Eizykman e Guy Fihman (cujos filmes foram incluídos na programação), e de Marcel Mazé (fundador do Collectif Jeune Cinéma). Esse conjunto traça as coordenadas para que o cinema experimental seja pensado em diferentes frentes, desde as condições específicas de produção na França e nos Estados Unidos – os dois principais campos ali considerados – até as premissas e os termos utilizados pela crítica.

A contribuição de Noguez, nesse sentido, organiza algumas linhas de força presentes no livro. O texto inicia com uma exposição etimológica, provavelmente a mais completa já feita sobre o tema, e segue para uma analogia com as funções linguísticas propostas por Roman Jakobson, onde a função poética ganha prioridade sobre as funções fática e referencial. No caminho, uma série de exemplos é composta com filmes de países e estilos variados, e observações pontuais são feitas sobre as diferenças de contexto, terminando com uma breve consideração sobre as possibilidades de um cinema independente na França.

As aulas do curso As duas vanguardas: novos cinemas, nova crítica têm muitas vezes girado em torno de questões ainda não respondidas, de lacunas ou pontos cegos entre diferentes concepções de cinema moderno, e do próprio sentido do termo “vanguarda”. As pesquisas sobre o tema sugerem, cada vez mais, um território amplo e que ainda deve ser explorado. O fato de que Noguez representou um contraste à vertente dominante na França, e que sua obra é repleta de livros dedicados ao cinema experimental (das quais só pude ler um, justamente o que mais se assemelha a esse texto: Éloge du cinéma expérimental, de 1978), pode significar que nele se encontra uma via de acesso aos problemas desse quadro.

Read the original on lucbapt.substack.com

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