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Do interior · Aug 24, 2026

O prédio | Capítulo 1

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Luca Brandão · Do interior

Eu não tinha reparado que esta seria a minha news de número 100 aqui no Substack. Na verdade, já tem mais de duzentas por aqui, e antes eu escrevia em outra plataforma… Enfim, mas esta é a centésima que escrevo exclusivamente para os apoiadores entusiastas no substack. Que maravilha! Escrevo muito porque amo, tenho paixão pela palavra, por poemas, crônicas e romances. Não paro, como estou fazendo neste parágrafo que já deveria ter terminado.

Não tinha reparado como esta edição da news seria simbólica até escrever #100 no subtítulo. Justo na news em que decidi começar a publicar uma pequena novela que estou escrevendo. Uma ficção que se passa num prédio.

Ela nasceu de um experiência deliciosa que vivi no prédio em que morei, colado a outro prédio. Assisti a tantos acontencimentos… Fui um voyeur confesso. Estou com isso na cabeça desde que me mudei. Enquanto escrevo outros romances, achei que essa história se encaixaria bem aqui.

Então hoje, na news de número 100, que vou deixar aberta por alguns dias, compartilho o começo dessa história, que estou chamando provisoriamente de O Prédio. Hoje sai, abaixo, o Capítulo 1: voyeur, e será publicada habitualmente na news exclusiva aos apoiadores.

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O prédio
Capítulo 1: voyeur

Quando me mudei, não me incomodei com o prédio que ficava de frente à minha varanda. Uma construção recém-terminada, ainda sem moradores.

Nos primeiros dias, vi pintores do lado de lá fazendo acabamentos nos apartamentos que seriam entregues em breve. Eles apareciam uma hora do dia, em alguma das muitas janelas que eu conseguia ver da minha varanda, pintavam os cômodos e eu me impressionava como estávamos próximos. Conseguia assistir a tudo com muita nitidez.

Quando eles iam embora, antes do anoitecer, deixavam o prédio apagado, vazio, sem barulho, sem vida.

Por quase três meses, me acostumei a tocar a rotina sem me preocupar com vizinhos, sem pessoas do outro lado, a não ser os pintores que, de vez em quando, ainda voltavam. Não me importava, inclusive, em andar de cueca pela casa.

Meu apartamento era pequeno. Uma sala em “L” dividia o ambiente em dois cômodos: um para a TV, outro para o escritório. Ao lado da TV, a varanda, dividida por uma porta de vidro grossa, que eu mantinha sempre aberta; pois a varanda também era fechada por vidros, com uma fresta que eu jamais fechava. Do escritório, eu acessava a cozinha, o quarto e o banheiro. A cozinha era estreita, mas funcional: um corredor com espaço justo para a geladeira, a pia, poucos armários embutidos e, no fundo, uma janela pequena, um tanquinho com pia e um espaço para a máquina de roupas. Saindo da cozinha, do lado direito ficavam as portas do quarto e do banheiro.

Foi depois de três meses que a rotina começou a mudar. Numa sexta-feira, quando cheguei de um encontro com amigos num bar perto de casa, no Centro de São Paulo, antes de ligar a luz, notei outra luz forte vindo da sacada. Eram os primeiros moradores do prédio vazio. Um casal de jovens sentados na varanda de lá parecia ocupar a minha casa. Tomei um susto. Dava para ver seus rostos, para ouvir a conversa, a música tocando ao fundo, as caixas de uma mudança recém-terminada espalhadas pelos cômodos.

Não liguei a luz da sala. Fui direto para o banheiro. Depois, no quarto, tirei a calça, a camisa, coloquei um short e, devagar, voltei para a sala. Estiquei a cabeça antes de virar a esquina que dava para a varanda. Eu precisava espiar para entender o que estava acontecendo. Eram mesmo os primeiros moradores? Parecia que sim. As caixas, a bagunça, eu conhecia aquela dinâmica.

Estou escondido dentro do meu próprio apartamento? Que ridículo! Foi esse pensamento que me trouxe à realidade de novo.

Antes de ligar a luz, voltei ao quarto e vesti uma camiseta. Um pouco de decência no nosso primeiro encontro seria bom. Voltei à sala, acendi a luz, meus vizinhos me viram, eu tenho certeza. Caminhei devagar até o sofá tentando não olhar para eles. Me sentei, peguei o controle da TV e comecei a mudar de canais sem prestar atenção a nada. Eu só pensava: será que estão me olhando?

Ajustei a coluna, cruzei as pernas como um intelectual faria, peguei meus óculos no aparador ao lado, consertei a pose, diminuí o volume da TV para tentar escutá-los. Não estavam falando de mim.

Peguei no sono minutos depois. E quando acordei de madrugada, eles não estavam mais na varanda. Talvez, escondidos atrás da parede do quarto, num ângulo que eu não conseguia alcançar.

Foi quando comecei a sentir falta.

Antes de ir

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Até breve,
Luca Brandão

Read the original on lucaoescritor.substack.com

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