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Do interior · Aug 19, 2026

A graça é o mistério

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Luca Brandão · Do interior

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Se a gente pudesse prever as paixões, talvez não se apaixonasse. Se a gente soubesse aonde o amor ia dar, talvez nem fosse.

A graça da vida é o mistério.

O leitor não sabe o que quer. Essa também é a graça da leitura: não saber o que a gente quer quando abre um livro. Não saber o que esperar. E ser surpreendido por uma história ou um texto que eu não poderia prever jamais.

É com isso que uma pessoa escritora deveria ficar ao se sentar para escrever algo. É impossível saber o que o leitor quer. E então escrever o que, enfim, se quer muito escrever. E investigar esse desejo, a história, o acontecimento, a palavra, até de fato escrever algo.

É por isso que a gente abre um livro: pela surpresa. Se soubéssemos exatamente o que o livro guarda, se o mistério fosse revelado antes, ninguém leria nada.

As histórias são escritas para sentir essa sensação de espanto. Por isso, por exemplo, é tão difícil escrever a sinopse de uma obra, pois ela precisa contar sem contar, sem estragar o mistério. Ainda que o segredo não seja um grande acontecimento. Pequenos eventos também podem ser grandiosos num texto.

Digo isso agora, especialmente, para quem gosta de escrever: se nem o leitor sabe exatamente o que quer, não pense nele antes de começar. Pense em si escrevendo. Pense no que você quer, no que deseja muito, no que te faz realizar essa tarefa tão solitária.

É assim que acredito que uma boa escrita pode ser desenvolvida: mirando em nós mesmos, nas pessoas que escrevem. O que quero dizer é que a boa escrita é mesmo ensimesmada, mas de um universo imenso, repleto de paixões e acontecimentos que vão nos fazer investigar mais as histórias, refletir sobre elas, aprofundar e escrever os textos que realmente podem surpreender o leitor. Um texto jamais visto.

O leitor quer a surpresa. E se descobrimos nossas histórias únicas, se descobrimos as histórias que ninguém mais pode contar, se desenvolvemos o texto sem o interesse de nos relatar ou delatar a alguém, mas de entregar ao leitor um bom material escrito, cumprimos o papel da surpresa.

Se aprendemos a gostar desse percurso que é o da boa escrita, cumprimos o papel de pessoas escritoras, que não sofrerão mais do mal de não saber sobre o que escrever. E não irão para as redes perguntar: “Leitores, o que vocês querem que eu escreva?” Escrever-se é imenso. É assim que todo autor e autora fizeram antes, conscientemente ou não. É partindo desse lugar próprio, de um olhar particular que mira ao mesmo tempo para dentro e para fora, que a palavra ganha o mistério.

Conheço muitos autores que não têm consciência sobre suas ficções e repetem que escrevem ficções porque gostam de inventar histórias. Chegam a dizer que a boa literatura é isso, a invenção. E ainda repercutem o erro que ouviram de outros, que “Escrever de si não é literatura”, pois não há imaginação, enquanto escrevem de si em suas ficções.

Eu adoro essa contradição. Do outro lado, tenho paixão por autoras e autores que não me canso de repetir os nomes, como Elena Ferrante, Annie Ernaux, Adélia Prado, Mario Quintana e tantos e tantos outros que se gastaram ou ainda se gastam escrevendo. Ou seja, que criaram as ficções, que imaginaram as histórias que só eles conseguiriam criar. Sem receio de usar seus repertórios de vida nos livros que publicaram.

Quando leio mais de um poema de Adélia, eu vejo uma mulher, eu imagino a poeta, eu sei pensar numa pessoa. Tudo fruto da minha imaginação de leitor em contato com a imaginação da poeta. Uma fricção de histórias.

Não sei se estou sendo claro. Me sentei para escrever uma coisa e já estou escrevendo outras. Eu só queria falar da surpresa. De que nem o leitor sabe o que quer... Como nós escritores saberíamos?

Como eu saberia ao começar a escrever esse texto? Que boa surpresa!

Sobre investigar o próprio universo

Como encontrar as histórias únicas e sustentar uma escrita viva com os leitores? Como escrever para uma comunidade? Na segunda turma do curso Crônicas e Newsletters, que acontece em setembro, vamos investigar e aprender sobre esse universo imenso de escrever a partir de si. É um curso para ajudar escritoras e escritores a descobrirem mais sobre seus universos literários e ganharem fôlego para criar: de onde nascem os temas? Como dar continuidade ao trabalho sem perder o ritmo? Como a crônica pode alimentar melhor esse caminho? As primeiras vagas já estão disponíveis com valor promocional, aqui > > >

“Somos responsáveis por preservar essa bagagem de histórias graças às quais amadurecemos e criamos. Por meio do fio generoso que une nossas vidas às gerações do futuro, herdamos o antigo compromisso de conservar os refúgios mágicos que abrigam os livros.”

Trecho do livro “Manifesto pela leitura”, de Irene Vallejo (ed. Dublinense e Seiva)

Um beijo,
Luca Brandão

Read the original on lucaoescritor.substack.com

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