Toda semana, eu publico uma análise da conjuntura focada no cenário eleitoral: a contagem regressiva para 4 de outubro de 2026.
No já clássico The permanent campaign, de 1980, o jornalista Sidney Blumenthal registra a ascensão dos publicitários e consultores em geral na política dos Estados Unidos. Ele relata a campanha republicana contra Upton Sinclair, candidato democrata ao governo da Califórnia em 1934. Romancista famoso na época, hoje pouco lido, Sinclair se opunha ao poder das grandes corporações e, em seu programa EPIC (End Poverty in California, terminar com a pobreza na Califórnia), defendia um New Deal com inflexão socialista.
Presidente estadual do Partido Republicano, Louis B. Mayer obrigava que um “cinejornal” fosse exibido nos cinemas que quisessem receber os filmes da MGM. Em uma “reportagem”, uma senhora dizia apoiar o candidato republicano “porque minha casinha não é muito, mas é tudo que eu tenho”. Em seguida, um sujeito de aspecto desalinhado expressa sua preferência por Sinclair, falando com pesado sotaque estrangeiro: “O sistema dele funciona bem na Rússia”. Em outra, descreve Blumenthal, “um exército de mendigos é retratado saltando de um trem de carga e celebrando ruidosamente a chegada à Califórnia. ‘Sinclair diz que vai pegar as propriedades dos trabalhadores e dá-las a nós’, diz um dos vagabundos”.
Milhares de cartazes, que muitos eleitores acreditavam que tinham sido encomendados pelo comitê de Sinclair, mostravam o candidato democrata prometendo que “se eu for eleito, metade dos desempregados dos Estados Unidos pegarão o primeiro trem para a Califórnia”. Os jornais publicavam cartuns em que um fantasma, etiquetado como “comunismo”, pairava atrás de Sinclair.
Desinformação massiva, notícias falsas, anulação do debate político real, tudo aquilo que parece definir nosso admirável mundo novo já estava presente há quase cem anos. Até os benditos “cortes”: trechos descontextualizados dos livros de Sinclair eram reproduzidos e distribuídos aos eleitores. “Sinclair foi derrotado”, disse o publicitário que comandou a campanha republicana, “porque tinha escrito livros”. (Na elite política brasileira atual, este risco está quase extinto.)
A situação é mais grave agora porque os meios para difusão da desinformação se tornaram mais acessíveis e mais poderosos. Existe alguma regulação sobre a propaganda oficial de partidos e candidatos e sobre os limites da imprensa e também das igrejas, que no passado recente correspondiam às forças principais capazes de influenciar a opinião pública. Para dar um exemplo gráfico: um sujeito podia contar umas lorotas sobre um candidato na mesa do bar, mas isso era basicamente irrelevante e ninguém iria pensar que era necessário um controle para coibir esse tipo de coisa.
Hoje, o loroteiro pode ser o influencer com milhões de seguidores, com alcance superior ao de qualquer jornal, que espalha suas mentiras por ingenuidade, por militância ou, muito frequentemente, porque é remunerado para isso. E não há nenhum controle, nenhum código de ética, nenhuma deontologia. É uma terra de ninguém.
Não é só na eleição. Foi desvelado como Daniel Vorcaro desembolsou uma bela bolada para que influenciadores defendessem os interesses do Banco Master. Gabriela Prioli, que em dado momento foi a queridinha dos “liberais progressistas”, nega até hoje ter sido paga, mas aquele vídeo dela se fazendo de bobinha bem-intencionada para pregar a redução dos controles sobre o sistema financeiro e justificar o retorno exorbitante prometido aos investidores do Master – aquele vídeo é antológico, pela utilização dos estereótipos de gênero em favor de uma agenda mafiosa.
Ou podemos pensar no imbroglio no Maranhão, envolvendo o ministro Flávio Dino, sobre o qual falo mais abaixo. A situação é enquadrada como “segurança das autoridades vs. liberdade de imprensa”, mas qualquer pistoleiro que diga que está produzindo notícias merece a cobertura das garantias oferecidas à imprensa? Não é uma questão de fácil resolução, uma vez que existem jornalistas independentes que fazem trabalho sério e responsável, por vezes mais sério e mais responsável do que o das empresas de comunicação. Não é fácil distinguir o que é joio e o que é trigo. Mais difícil ainda é estabelecer critérios claros que permitam operar esta distinção em todas as situações.
A situação é agravada pelo avanço das ferramentas de inteligência artificial generativa, que hoje colocam ao alcance de qualquer um a possibilidade de produção de falsificações praticamente indistinguíveis da realidade.
A propaganda política – pensada em seu melhor sentido, de instrumento de estímulo ao debate e de transmissão de ideias – pode, sim, se utilizar de elementos fictícios. Mas existe uma diferença significativa entre um esquete da Rede Povo, a brilhante comunicação da campanha de Lula na tevê em 1989, e um vídeo hiperrealista gerado por IA. Quando a atriz Cristina Pereira aparecia no supermercado com um Fernando Collor dentro do carrinho, estava denunciando, de maneira acessível, as técnicas de marketing que faziam do candidato um produto qualquer. Isso era imediatamente processado pelos espectadores como o que de fato era: uma encenação humorística. Mas, quando vemos depoimentos de “pessoas” sintéticas, somos levados instintivamente a entendê-los como reais, não importa que uma pequena rotulagem diga que é conteúdo gerado por IA. O resultado é tumultuar a apreensão por parte do público.
Nesses últimos dias, muita gente do campo lulista festejou um vídeo que mostrava Jair Bolsonaro discorrendo sobre os motivos pelos quais seu filho Flavio não podia ser presidente. O Jair do vídeo já começava reconhecendo sua posição de produto da inteligência artificial. Ainda assim, não creio que produtos assim sejam uma boa ideia, por mais bem feitos que sejam. Estamos naturalizando este tipo de estratagema e, portanto, enfraquecendo a possibilidade de denunciá-lo e criticá-lo quando for usado pela extrema direita. E será, fortemente, como todos nós sabemos.
A regulação existente é genérica e prevê poucos mecanismos para reprimir a desinformação em perfis extraoficiais e grupos privados. A situação piora porque, à frente da Justiça Eleitoral, está Kassio Nunes Marques, que já deu vários sinais na direção errada. Ele não é apenas um integrante da bancada bolsonarista no Supremo. Também é, talvez ao lado de Dias Toffoli, o ministro mais tacanho intelectualmente da corte. Faltam a ele, portanto, tantos os incentivos ético-políticos quanto o discernimento para tomar as decisões corretas.
As plataformas sociodigitais mostram, como esperado, zero disposição para construir um ambiente de debate mais saudável. A pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil envolve também garantir o “liberou geral” delas durante a campanha, que é também um veículo privilegiado de interferência do governo Trump na eleição. Está começando a fase crítica da campanha e, se os abusos não forem contidos, as consequências serão sentidas nas urnas, não apenas na eleição presidencial, mas para todos os cargos.
Upton Sinclair, não custa lembrar, era imensamente popular. Começou a corrida como favorito, mas o jogo pesado contra ele levou-o à derrota.
Em tempo: li um único livro do autor, faz muitos anos. Foi King Coal, sobre mineiros de carvão. Uma denúncia da exploração do trabalho, mas com o caráter pesadamente didático e esquemático de muito do romance social das primeiras décadas do século XX (pensemos nas obras iniciais de Jorge Amado, no Brasil). Como literatura, seu amigo e camarada Jack London está muitos furos acima.
DINO E BRANDÃO. Não dá para negar que pegou mal, para Flávio Dino e para Alexandre de Moraes, as medidas tomadas contra o blogueiro maranhense e sua fonte. Da maneira como o episódio apareceu na imprensa, a narrativa era clara: o ministro usou irregularmente automóveis do Tribunal de Justiça local e decidiu apelar para a intimidação de quem tinha feito a denúncia. Embora, em São Luís, Luis Pablo seja conhecido como alguém que aluga sua pena ao melhor preço, virou um mártir da liberdade de imprensa.
Fica pior ainda porque muita gente está farta do “dois pesos, duas medidas” que o Supremo usa quando se trata de proteger a privacidade, a honra e a dignidade dos seus ministros ou de todos nós outros, simples mortais. Quando um professor é espinafrado, trata-se de mera liberdade de expressão. Já um comentário maldoso sobre o penteado de Xandão é tratado como ameaça as instituições democráticas.
Se é verdade, como parece ser, que o blogueiro ganhou uma nota preta para divulgar as informações contra Dino, temos um elemento importante na história, que deixa de ser um caso de liberdade de imprensa e se torna um capítulo na baixa luta política local. Se houve monitoramento do ministro para mapear seus movimentos, colocando em risco sua segurança, a situação se torna mais complicada ainda.
Se o uso do carro oficial era permitido por um convênio, isso deveria ter sido explicado desde o início. E nada disso justifica as medidas extraordinárias contra o blogueiro e seu informante.
Mas as reais circunstâncias só ficam desveladas quando se coloca na equação a investigação de assassinato envolvendo tanto o informante do blogueiro, Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança, quanto o governador, Carlos Brandão, ex-vice e hoje desafeto de Dino. O objetivo, ao atingir o ministro, seria impedir o avanço dessa investigação, que os aponta como mandantes.
Se é assim, fica uma lição. O Supremo deve entender que sua imagem perante a opinião pública, mesmo a parcela favorável à democracia, não é nada boa. Portanto, convém cuidar da maneira como expõe e justifica suas ações. Sobretudo medidas extraordinárias, que levantam suspeitas de arbitrariedade.
CAMPOS E O PSOL. Para quem vê a política brasileira com os olhos do Centro-Sul, João Campos parece ser o marido de Tabata Amaral. Mas ele é uma águia da política. Mal tendo passado dos 30 anos, foi prefeito de uma das dez maiores cidades do Brasil e é presidente nacional do partido que ocupa a vice-presidência da República. Lula o citou entre seus possíveis sucessores.
Deslizando entre a esquerda e direita como um peixe ensaboado, surfando nas águas rasas das redes sociais com auxílio de uma bem azeitada equipe de comunicação, credenciou-se como uma espécie Eduardo Paes nordestino, mais jovem, menos agressivo, mais palatável.
Seu bisavô Miguel Arraes nunca foi um político ingênuo ou purista, mas não sei o que diria de seu descendente tão invertebrado.
O problema é que toda esperteza de Campos não está sendo suficiente para fazer frente à governadora Raquel Lyra, que vem de sua própria oligarquia, que também passeia com desenvoltura entre direita e esquerda e que também não é nada desprovida de esperteza.
Com a eleição para o governo tendo passado de “quase certa” para “improvável”, o candidato do PSB (quando a gente lembra que o S da sigla significa “Socialista”, não sabe se ri ou se chora) adota duas estratégias. A primeira é se grudar na imagem de Lula. Mas sua capacidade de pressão sobre o presidente é pequena. Lula não tem nenhum motivo para empurrar Lyra na direção do Bolsonaro. E, para Campos, afastar-se dele seria suicídio político.
O outro esforço é reunir em torno de si toda oposição ao governo estadual e todos os partidos apoiadores de Lula. Para isso, está pressionando o PSOL a retirar a candidatura de Ivan Moraes, ainda que ela seja eleitoralmente inexpressiva. Caso isso não ocorra, ameaça, em represália, retirar o apoio do PSB a Manuela d’Ávila, no Rio Grande do Sul, e Áurea Carolina, em Minas Gerais – as duas esperanças psolistas para o Senado.
Como o PSOL local obviamente não topa, a chantagem de Campos é para que o diretório nacional intervenha no estado. Caso isso aconteça, estará sacramentado a transformação do partido em um PT 2.0, apenas carente da história de lutas do petismo original.
Mas confesso que fico curioso para saber como reagiria o youtuber “radical”, aquele que trocou seu partido revolucionário e suas críticas ao “desvio eleitoreiro” por uma vaguinha na chapa do lulo-reformismo.
IMBECILIDADE ECUMÊNICA. Recém-empossado presidente da Colômbia, poucos dias depois devastada por um terremoto, o ultradireitista Espriella só aceitou o auxílio de equipes de socorristas de países governados por direitistas hidrófobos como ele: Estados Unidos, Israel, El Salvador, Equador. Recusou oferecimentos não apenas do Brasil, mas também do México, que é experiente em desastres do tipo.
Mas, para evitar que a pecha de imbecilidade ficasse só com a direita, a deputada Sônia Guajajara falou em público que existe uma relação entre os terremotos e a ascensão da direita ao poder, citando os casos da Venezuela e da Colômbia.
Há quem diga que foi uma piada. Na Venezuela, a contagem de mortos já está chegando na casa dos 7 mil. Na Colômbia, são centenas. Definitivamente, não é matéria para piada.

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