Qual foi a última vez que você correu um risco consciente?
Se tem uma coisa que tem me instigado nos últimos tempos (seria melhor dizer anos?), é a definição e o impacto de correr riscos de forma consciente em nossas vidas.
E antes de te trazer a definição de “riscos”, é importante deixar claro que quando digo “riscos conscientes”, eu não estou necessariamente dizendo “riscos controlados”, mas sim situações em que temos consciência que nos tiram de nossa zona de conforto, que nos dão medo e que, ainda assim, há uma voz dentro de nós dizendo “vai com medo mesmo”.
A palavra risco vem do latim risicare, que significa “ousar” ou “navegar por entre rochas escarpadas”. O risco não é o naufrágio em si, mas o ato de colocar o barco na água sabendo que existem pedras escondidas sob a superfície.
Na psicologia, o risco é o gatilho da vulnerabilidade. Assumir um risco (seja mudar de carreira depois dos 40, terminar um relacionamento ou iniciar um processo de autodescoberta através da terapia) significa trocar o desconforto familiar da zona de conforto pelo desconforto desconhecido da incerteza. Como a gente costuma falar na análise Junguiana, nosso maior risco é passar a vida inteira sem correr risco nenhum, escolhendo a anestesia ao invés do crescimento.
Diferente do perigo que é uma situação ou elemento com potencial de causar dano, o risco é nossa sua exposição a esse perigo a partir de uma escolha.
Eu sempre me considerei uma pessoa de coragem por mais que, aos 46 anos, tenha tido cada vez mais clareza dos meus medos. Deixei meu país de origem aos 34 anos, aprendi a esquiar aos 35, abandonei minha carreira de produtora cultural aos 40, mudei de país de novo aos 42... e mais um monte de outras situações que prefiro deixar longe da minha “vida pública”.
Todas estas experiências e também a prática clínica me fizeram ter cada vez mais interesse em estudar a linha que separa o medo da coragem. Quem está comigo em terapia certamente já me ouviu falar sobre o urso grizly do medo e também sobre o conceito das zonas de desenvolvimento e crescimento pessoal, um modelo amplamente utilizado na psicologia comportamental.
Embora não se saiba ao certo a origem do modelo que apresenta uma evolução do conforto para o medo, passando pelo aprendizado e chegando ao crescimento (modelo que eu adoro e aplico), acredita-se que ele tenha sido uma evolução de um estudo proposto por Alasdair White em 2009.
Em seu trabalho sobre gerenciamento de performance, White diz como as pessoas transitam da “zona de conforto” para uma “zona de ótimo desempenho” através do manuseio do estresse e do medo.
Esse aqui é o modelo que eu aplico e com o qual mais me identifico.
A ZONA DE CONFORTO é nossa antiga conhecida e aliada. Ela é o nosso castelo de areia, o lugar onde a gente se sente segura e tudo é familiar. Aliás, vale lembrar que até mesmo o desconforto em determinadas situações das nossas vidas é confortável. Como diz uma cliente minha, a merda é ruim, mas é quentinha. (eu amo minhas clientes)
A zona de conforto me lembra bastante o Oito de Espadas do tarô (que aliás tem um castelo lá atrás). Apesar da gente ver uma mulher amarrada e cercada por espadas, as cordas que a prendem não estão tão apertadas assim. As espadas, por sua vez, representam nossa mente racional. Quando esta carta sai em uma tiragem é quando dizemos: “Está na hora de sair da posição de princesa sufocada e indefesa porque ninguém vai vir te salvar. As cordas não estão tão apertadas assim. Chega de drama. Foi você quem se colocou nessa situação e, portanto, sabe exatamente como sair dela.”
Já a ZONA DO MEDO é o fosso que circula nosso castelo de areia. Em outras palavras, não há outra forma de sair da nossa zona de conforto que não seja atravessando o medo. Aliás, guarda essa frase porque é o núcleo desse texto.
Quando a gente dá os primeiros passos para fora da zona de conforto, encontramos nuvens escuras e obstáculos desafiadores. O medo do fracasso, da incerteza e do desconhecido pode ser paralisante, mas é uma parte natural da jornada. A ponte sobre o rio representa a coragem necessária para atravessar essas dificuldades. No rio, os crocodilos e monstros simbolizam os desafios e perigos que a gente pode enfrentar ao longo do caminho, muitos deles totalmente imaginários.
É daí que quando a gente enfrenta nossos medos e vai, muitas vezes diz: por que demorei tanto? Por que não fiz isso antes? Foi menos assustador do que imaginei. Ou ainda: quanto tempo perdi imaginando monstros que simplesmente não existiam?
Passado o pior, entramos na ZONA DE APRENDIZADO... um ambiente mais vibrante e acolhedor, representado por um caminho aparentemente mais leve. Nos exemplos que dei lá em cima sobre minha própria história, a zona de aprendizado foi aprender a falar Francês quando morei no Canadá, me divertir e repetir pistas de ski com risco de avalanche enquanto ganhava confiança no ski ou ainda conhecer uma nova cultura ao desembarcar na Itália.
Na zona de aprendizado, a gente adquire novas habilidades, aprendemos com os nossos erros e desenvolvemos a resiliência. Cada desafio superado torna a gente mais forte e preparada para a vida. O problema é que a maior parte das pessoas não chega nesta fase porque quer pular o fosso do medo. E essa escolha simplesmente não existe.
Por último, a ZONA DE CRESCIMENTO. Adivinha o que tem nela? Todos os nossos sonhos, tudo aquilo que tem sentido e significado para nossas vidas, o Si-mesma do processo de individuação de Jung. Esta é a recompensa por toda a nossa jornada, onde a gente se conecta com o nosso verdadeiro eu.
Daí você deve estar pensando “Beleza. Depois de ler esse texto, vou lá enfrentar o medo XYZ (aposto que tem algo aí latejando na sua cabeça) e vou logo chegar nessa zona de crescimento tão desejada.”
Fico feliz por você, mas, desculpa te decepcionar...
Sabe o que acontece quando você chega na zona de crescimento? De repente, ela vira o castelo de areia da zona de conforto. E aí, muito em breve os monstros vão surgir na sua cabeça esperando você tomar coragem de novo para atravessar o fosso. Em outras palavras, viver é seguir constantemente o fluxo de conforto, medo, aprendizado e crescimento… conforto, medo, aprendizado e crescimento.
Chegou a hora de voltar ao tal núcleo desse texto: “Não há outra forma de sair da nossa zona de conforto que não seja atravessando o medo”. Quando a gente integra esse conceito em nossas vidas, começa a perceber que o que realmente faz a gente crescer está na raiz dos nossos medos.
Jung certa vez disse: “Onde está o seu medo, aí está a sua tarefa.”
Eu diria: agora dorme com essa.
Na psicologia analítica, o medo não é só uma emoção a ser evitada ou eliminada, mas sim um indício claro de onde reside o próximo passo pro nosso crescimento individual. Enfrentar o que causa temor se torna, assim, o caminho para a individuação.
Eu sei que tem um medo te atravessando enquanto você lê isso. Pode apostar que também tem um aqui, enquanto escrevo. Aliás, foi justamente esse medo que me inspirou a escrever…
Topa vir comigo enfrentar ele e descobrir o que está esperando a gente do outro lado do fosso de jacarés?
Com a sua ajuda posso manter uma frequência maior de produção de vídeos no YouTube e textos no Substack e seguir melhorando e aprimorando meus conteúdos de forma contínua. Se meus vídeos e/ou textos te inspiram ou te ajudam de alguma forma, fique à vontade para contribuir com meu trabalho.
Beijos, Let.

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