A palavra ritual sempre me assustou um pouco. Cheira a incenso e a gente de túnica fazendo círculo, e eu sou cético demais pra isso. Por muito tempo achei que ritual era coisa de quem precisava acreditar em alguma força pra dar conta do dia.
Aí eu fui morar no interior e, sem planejar nenhum, acabei com sete.
Ninguém me ensinou. Fui copiando de coisas que já aconteciam sozinhbas. A luz que muda, a chuva que chega, a árvore que floresce na mesma semana todo ano. A natureza tem uma agenda própria, mais velha e mais confiável que a minha, e em algum momento eu parei de brigar com ela e comecei a pendurar a minha vida nos ganchos que ela oferece.
Vou te contar os sete, e no fim como adaptar cada um pra quem mora em apartamento, porque nenhum deles depende do mato de verdade. O mato só me ensinou.
Eu acordo cedo, quase sempre antes do despertador, porque aqui o dia começa barulhento. O galo primeiro, e depois o cachorro se espreguiçando na varanda com aquele bocejo comprido que parece reclamação.
A primeira coisa que eu faço, antes de qualquer outra, é sair de casa. Não pra trabalhar em nada. Saio com a caneca de café na mão e fico uns dez, quinze minutos do lado de fora, vendo o que a noite fez no terreno e o céu decidindo a cor do dia.
O celular fica dentro de casa nesse tempo. Essa é a única regra do ritual, e é a que segura ele inteiro. A primeira hora da cabeça é diferente das outras, ela ainda está macia, sem defesa, e o que entra nela primeiro dá o tom do resto. Se o primeiro conteúdo do dia é notícia ruim e mensagem acumulada, o dia inteiro nasce reagindo.
Eu descobri isso por acidente, numa semana em que o celular quebrou e eu passei cinco dias saindo pra varanda porque não tinha o que fazer com as mãos. Quando o aparelho voltou do conserto, eu já tinha entendido, e nunca mais devolvi a primeira hora pra ele.

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