Comecei O Leitor em novembro de 2024. Dois meses depois eu tinha pouco mais de cem assinantes, e se eu fosse honesto comigo mesmo, talvez uns oitenta fossem gente que eu já conhecia. Família. Amigo da faculdade. Colega da biblioteca que assinou por educação. Uma ou outra pessoa do Threads que tinha clicado por curiosidade e provavelmente nunca abriu um e-mail. Era humilhante, no sentido literal. Toda semana eu escrevia um texto, mandava e o número não mexia.
Eu já tinha mais de cem mil seguidores no Threads. Já tinha presença no Instagram. E mesmo assim, o gráfico do Substack era uma linha quase reta. Aquela coisa de achar que audiência em outro lugar ia se converter automaticamente em assinante de newsletter — desmoronou no segundo mês
Lembro de pensar, várias vezes, que talvez eu não tivesse o que era preciso ter. Que talvez minha escrita fosse boa pra Threads, onde post curto basta, mas não funcionasse no formato longo. Que talvez quem me seguia em outras redes me seguisse pelo motivo errado, ou pelo motivo certo que não se traduzia em querer me ler de verdade.
A maioria dos textos desse período eu nem releio mais. Não porque sejam terríveis. É que eles eram, todos, tentativas de parecer alguma coisa. Parecer culto. Parecer profundo. Parecer alguém que tinha razão pra escrever. Aí veio o texto que mudou tudo, e ele era exatamente o oposto disso.
Era um texto sobre rituais de fim de semana. Coisas pequenas, banais, que tavam me salvando de uma fase ruim. Café feito de um jeito específico. Uma caminhada que eu fazia no sábado de manhã. Um caderno que eu tinha começado a usar de novo. Coisas que não tinham nenhuma profundidade aparente, nenhuma referência intelectual.
Cheguei a apagar do rascunho três vezes antes de mandar. Restaurei três ou quatro vezes também. Achava que ninguém ia se importar. Que ia parecer pessoal demais. Que ia parecer que eu não tinha nada melhor pra dizer. Mandei numa segunda de manhã, de cabeça baixa.
Foi o primeiro texto com resposta orgânica significativa. Gente que eu não conhecia começou a aparecer na lista. Pessoas respondiam o e-mail contando os próprios rituais. Uma leitora me mandou uma foto do caderno que ela tinha comprado depois de ler. Isso nunca tinha acontecido com nenhum dos textos “sérios” que eu tinha publicado antes e demorei um tempo pra entender o que aquilo queria dizer.
A leitura fácil seria: as pessoas gostam de coisa pessoal, então escreva mais coisa pessoal. Mas não era isso. Tem um monte de gente escrevendo coisa pessoal e não funciona. O que tinha de diferente naquele texto não era o tema. Era a posição de quem escrevia. Eu não tava tentando convencer ninguém de nada. Não tava performando inteligência. Tava só dizendo o que era verdade pra mim naquele momento, do jeito que era e aparentemente isso é raro o suficiente pra ser notado.
Eu queria poder dizer que aprendi a lição e nunca mais tentei parecer alguém. Não foi assim. Voltei a escrever textos pretensiosos várias vezes depois. Toda vez que eu queria impressionar, voltava. Toda vez que tava inseguro com o nível dos textos da semana anterior. A vontade de parecer culto não some, ela só vai diminuindo conforme você percebe, de novo e de novo, que ninguém liga.
O que mudou foi que eu passei a reconhecer mais rápido quando tava fazendo aquilo. Hoje, quando começo um texto que parece um ensaio acadêmico, paro. Apago. Recomeço de algum lugar mais baixo, mais próximo, menos defendido.
Os primeiros cem assinantes serem quase todos conhecidos foi o melhor que podia ter acontecido. Porque me obrigou a uma pergunta que eu tava evitando: por que alguém que não me conhece deveria querer me ler? E a resposta, quando finalmente chegou, não tinha nada a ver com o que eu achava.
Não era ter algo importante a dizer. Era estar disposto a dizer coisa pequena de um jeito honesto.
Se isso aqui te tocou em algum ponto e você também escreve, ou pensa em escrever — escrevi um livro sobre essa história inteira. Como cresci no Substack saindo de quase nada, os erros que custaram caro, o que funcionou e o que ninguém te conta. Chama-se De Zero a Leitores Que Pagam. Link tá aqui
Não tô garantindo que o caminho é o mesmo pra todo mundo. Tô dizendo que o que funcionou pra mim contradizia quase tudo que eu tinha lido sobre o assunto antes.
— O Leitor ♟️

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.