A leitura mais confortável sobre 2026 é também a mais perigosa: imaginar que a eleição já está decidida.
De um lado, há quem trate o sistema como uma máquina invencível, capaz de entregar a reeleição de Lula sem resistência. De outro, há quem acredite que esse mesmo sistema simplesmente apertará um botão e abandonará Lula no meio do caminho.
As duas leituras erram o ponto.
O establishment brasileiro não funciona como um bloco monolítico, com poder absoluto, capaz de mover todas as peças ao bel prazer. Se fosse assim, a Lava Jato jamais teria acontecido. Lula e vários envolvidos jamais teriam sido presos. Jair Bolsonaro jamais teria sido eleito presidente da República.
Tudo isso aconteceu. Em menos de dez anos. Dentro do mesmo sistema.
Quem trata o sistema como um deus onipotente não está fazendo análise política. Está fazendo teologia. E teologia de um deus falso, porque esse deus já perdeu várias.
O establishment brasileiro é outra coisa: uma coalizão de forças diferentes, que se unem por interesses em comum. No meio político, estão o PT e a velha oligarquia brasileira, o chamado Centrão. Em volta deles, o empresariado que orbita o Estado, a imprensa profissional, a casta de servidores públicos, a Academia e o meio artístico.
Só que há um detalhe decisivo: PT e Centrão não confiam um no outro.
Quer a prova? O impeachment de Dilma. Foi o Centrão que apertou o botão.
Hoje, o centro do poder mudou de endereço. O centro do poder é o Supremo. E isso torna o jogo ainda mais complexo, porque os ministros deixaram de ser meros representantes desses grupos. Eles têm interesses próprios, dado o poder que lhes foi entregue. E têm uma efetividade comprovada na blindagem geral do establishment, atingido duramente durante a Lava Jato.
O que cola tudo isso é um único instinto: sobrevivência.
Sobrevivência contra a revolta popular, que hoje atende pelo nome de bolsonarismo.
A estabilidade desse arranjo depende de duas coisas. Primeiro, a manutenção da blindagem. Segundo, o equilíbrio da luta interna pelo poder dentro do próprio establishment.
E é aqui que a eleição de 2026 começa a ficar interessante. Porque essa luta interna está crescendo, e os sinais estão à vista de todos.
O primeiro sinal foi a rejeição de Jorge Messias ao Supremo. Em abril, o Senado rejeitou sua indicação por 42 votos contra 34.
Foi a primeira rejeição de um indicado ao Supremo em 132 anos. Aquilo não foi um acidente de votação. Foi o Centrão negando ao PT mais espaço dentro da Corte.
O recado não podia ser mais claro.
O segundo sinal foi a pressão sobre caciques partidários. Segundo relato de Caio Junqueira, da CNN, caciques do União Brasil, do PP e do Republicanos foram avisados por ministros do Supremo e outros magistrados de que, se apoiassem a candidatura de Flávio Bolsonaro, investigações contra eles, principalmente as ligadas ao escândalo do Banco Master, andariam com mais celeridade:
O resultado: os três partidos declararam neutralidade na eleição presidencial.
Agora pense do ponto de vista de um cacique do Centrão. Você passou a vida acumulando poder. De repente, aparece um ministro da mais alta Corte do país mandando recado de ameaça pelo interfone. Você fica satisfeito? Óbvio que não.
Ser acossado por ministro é uma diminuição do seu poder.
Esses caciques não gostam e não confiam no PT. Têm reservas sérias em relação ao bolsonarismo também, é verdade. Mas ninguém gosta de viver de joelhos.
E sim, existe um acerto em curso entre Hugo Motta, Davi Alcolumbre e Lula. Motta declarou apoio à reeleição de Lula, mesmo com a neutralidade oficial do partido dele. Alcolumbre jantou duas vezes com Lula em agosto, falou em retomada da relação, e os jornais descreveram um acordo de sobrevivência: apoio mútuo para manter os dois nas presidências da Câmara e do Senado em 2027.
Mas há dois detalhes importantes.
O primeiro: o jantar da pacificação entre Lula e Alcolumbre aconteceu, segundo a CNN, na casa de Moraes, com mediação do próprio Moraes. O santo protetor do establishment costurando pessoalmente o acordo. Isso ajuda a medir quanto dessa aliança nasce de afinidade e quanto nasce de pressão.
O segundo: esse mesmo Alcolumbre, que hoje segundo a imprensa promete até fazer o L, é o mesmo que impôs a Lula, há quatro meses, a maior derrota da história das indicações ao Supremo. Em votação secreta.
Com esse pessoal, compromisso vale até a próxima votação secreta. Acordo de sobrevivência não é lealdade. É seguro. E seguro se cancela quando o risco muda de lado.
Até onde essa aliança é real e até onde é para inglês ver, para despistar a pressão do Supremo? Essa é a pergunta certa. E ninguém em Brasília sabe a resposta. Nem eles.
Em paralelo, há ainda um terceiro movimento: a absorção do próprio bolsonarismo pelo establishment. Basta olhar para Valdemar Costa Neto na presidência do PL, o partido do movimento que nasceu justamente contra a velha política.
Por cima de tudo isso, existe a variável que ninguém controla: a economia.
Lula está levando o Brasil para o buraco. Não por incompetência acidental, mas porque essa é a natureza de qualquer partido socialista revolucionário como o PT. E o Centrão não quer esse caminho. O Centrão não tem a mesma raiz totalitária do PT. Ele gosta da proteção contra revoltas populares, claro. Mas sabe de uma coisa que aprendeu na pele: crise econômica grave é combustível para revolta popular.
E revolta popular ameaça a posição da própria oligarquia.
A Lava Jato não teria acontecido sem a crise econômica que a precedeu. Eles sabem disso. Eu sei disso. E agora você também sabe.
Então vamos comparar os dois cenários.
Em 2022, o sistema estava unido a favor de Lula e contra um Bolsonaro. Moraes estava à frente do TSE. A imprensa operava na mesma direção. O Supremo era a muralha. O Centrão tinha interesse em encerrar a experiência Bolsonaro. Aquela eleição, sim, tinha o sistema inteiro de um lado só.
Em 2026, o cenário é outro, já que o sistema está dividido.
A própria Globo, centro nervoso do sistema de propaganda do regime, está deixando o público saber dos escândalos. Noticiou o contrato de R$ 129 milhões do grupo de Daniel Vorcaro com o escritório da esposa de um ministro do Supremo. E vem noticiando, semana após semana, o escândalo envolvendo o filho de Lula.
Há ainda outro fator revelador: integrantes do próprio sistema começaram a demonstrar receio da concentração de poder e do autoritarismo crescente. O caso do jornalista que teve o sigilo da fonte quebrado por ordem do Supremo deixou isso claro. A imprensa profissional olhou para aquilo e entendeu o recado: a máquina que ela passou anos aplaudindo não distingue mais aliado de adversário.
Concentração de poder é assim. Uma hora, sobra até para quem ajudou a construir.
E existe, por fim, o fator Donald Trump. O governo americano expôs o regime de exceção brasileiro para o mundo. Isso muda o cálculo de todo o establishment. Um arranjo de repressão completa da oposição ficou mais caro e mais difícil. Perseguir opositor agora tem preço internacional. Sanção, visto, mercado. A conta chega em dólar.
Quando o centro nervoso da propaganda começa a vazar contra o próprio protegido, quando a imprensa descobre que a censura também serve contra ela, e quando a repressão total passa a ter preço em dólar, isso não significa que alguém decidiu abrir uma porta para tirar Lula.
Significa apenas que a proteção que Lula tinha em 2022 não existe mais do mesmo jeito.
E janela aberta, na política, não precisa de dono. Basta alguém disposto a pular.
É aí que entra o espaço para Flávio Bolsonaro se apresentar como aquilo que parte da oligarquia procura: um pacificador.
O sistema não é um bloco, e ele já perdeu antes. Não é impossível Lula perder; em 2022 era quase, em 2026 não é. E ninguém aperta um botão para descartar Lula, porque esse botão não existe.
O que existe é cada fração da coalizão fazendo o próprio seguro.
E quando todo mundo faz seguro ao mesmo tempo, o resultado prático é o abandono.
Foi assim com Dilma. Ninguém decidiu o impeachment num salão secreto. Cada um pulou do barco olhando para o outro.
Atenção: eleição aberta não é eleição ganha. O sistema não virou contra Lula. Ele apenas deixou de ser um muro. E isso muda tudo.
Em 2022, o sistema era um muro. Já em 2026, o sistema é um campo de batalha.
Nesse campo de batalha, Flávio Bolsonaro tem a tarefa mais difícil da política brasileira hoje: sinalizar ao establishment que não é uma ameaça, ao mesmo tempo em que não desmobiliza o eleitorado que enxerga nele um sucessor do projeto antissistema.
É nesse fio que esta eleição vai se decidir.

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