Oi, tudo bem?
O Lambrequim desta quinzena está contribuindo na desconstrução de binários. Eis o que preparamos para a edição 210 do nosso quinzenário incidental:
✨ Um convite para próxima feira no nosso calendário;
✨ Uma seleção de links para você buscar diagramas, curvar textos & ver ilhas obscuras;
✨ E um olá para a sua versão ciborgue.
É isso! Compartilhe o Lambrequim com seus amigos e boa leitura!
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PROJETOS DO LADO DE CÁ
por Edições Tempora
A 44ª Semana Literária e Feira do Livro do SESC está chegando — e nós estaremos lá!
De 13 a 17 de agosto, o Museu Oscar Niemeyer (MON) será a casa de um dos eventos literários mais tradicionais do Paraná.
Garantimos nosso lugar para acompanhar tudo de camarote, e desta vez vamos dividir o espaço com nossos amigos da editora Máquina de Escrever.
Nas próximas semanas, postaremos no nosso perfil do Instagram (@edicoes.tempora) novidades sobre nossas ações durante a Semana Literária e um preview do catálogo de livros que estarão disponíveis na feira!
NUM UPA!
⚡ Um mecanismo de busca para diagramas.
⚡ Deixe seus textos curvados.
⚡ Um site com notícias good vibes!
⚡ Veja esse mapa de ilhas “obscuras”.
SOBRE LIVROS
por Menin
A subjetividade, tal como herdamos da modernidade ocidental, está em ruínas. O “sujeito”. Esse ente racional, autônomo, originário e fundante já vinha sendo desconstruído há décadas pela crítica filosófica, e a figura do ciborgue talvez seja o golpe mais radical nessa longa operação de desestabilização. A Antropologia Ciborgue lê o presente como um campo já povoado por híbridos: corpos atravessados por fios, próteses, algoritmos, redes, políticas e desejos.
Inspirada principalmente no Manifesto Ciborgue de Donna Haraway, essa abordagem nos convida a repensar o que é ser humano em um mundo em que a fronteira entre o biológico e o técnico, o orgânico e o artificial, o natural e o cultural, já não se sustenta. O ciborgue dissolve a ideia de sujeito como unidade fechada e originária e, de certo modo, exige que pensemos em fluxos, intensidades, circuitos, e não mais em indivíduos isolados.
A Antropologia Ciborgue sugere uma ontologia do “embaralhamento”, em que os opostos tradicionais ocidentalizados se tornam interdependentes, borrados, híbridos.
Humano vs. Máquina/Animal: Ainda podemos nos considerar “puramente humanos” quando corpos são continuamente reconfigurados por tecnologias, de óculos a chips neurais, de implantes a avatares?
Corpo vs. Mente: A mente ainda está separada do corpo quando interagimos com ambientes digitais que afetam nossa percepção, memória e agência?
Natureza vs. Cultura/Tecnologia: Se somos feitos de técnicas desde sempre — da linguagem à escrita, do fogo ao código —, em que momento a tecnologia deixou de ser “natural”?
O até então, monstro do amanhã, é uma realidade. Somos todos, já, ciborgues — mistos de carne, dados e política.
Tudo aquilo que foi desenvolvido até aqui — a desconstrução dos binarismos clássicos, a recusa da pureza identitária, a compreensão do corpo como território tecnológico e a crítica à separação entre natureza e cultura — encontra fundamento e aprofundamento no livro Antropologia do Ciborgue: As Vertigens do Pós-Humano, publicado pela Autêntica Editora. Organizada por Tomaz Tadeu, a obra reúne textos fundamentais de Donna Haraway, Hari Kunzru e do próprio Tadeu, e constitui uma das principais referências para pensar as complexas relações entre humanos, máquinas, saberes e subjetividades no contemporâneo.
No centro do volume está o célebre Manifesto Ciborgue, de Haraway, que propõe uma figura teórico-política capaz de desestabilizar os alicerces da modernidade ocidental. Hari Kunzru, por sua vez, desloca esse debate para o plano da experiência cotidiana, mostrando como a condição ciborgue já se manifesta nos detalhes mais banais da vida urbana e mediada. Para Kunzru, o ciborgue é uma textura sensorial, uma forma de estar no mundo que mistura fascínio, controle, deslocamento e reconfiguração constante do eu. Tomaz Tadeu, como tradutor, organizador e autor, costura essas vozes com uma densidade crítica própria.
Ao propor o ciborgue como figura central para pensar o presente, o livro aponta caminhos possíveis para uma ética situada e uma política do entrelaçamento. A leitura proposta por Haraway, Kunzru e Tadeu ultrapassa os limites de uma crítica da técnica e propõe uma virada epistemológica. Abandonar a nostalgia da pureza, acolher a ambiguidade do presente e cultivar alianças éticas entre corpos, saberes e máquinas pode ser o gesto mais radical de nossa era pós-humana.
Assim, não somos entidades puras, separadas da técnica ou da cultura, pelo contrário, somos em diferentes graus, seres constituídos por camadas de dispositivos, redes e discursos. A subjetividade deixa de ser uma essência fixa e torna-se um processo contínuo de acoplamentos — entre carne e código, desejo e algoritmo, memória e máquina. Nesse sentido, ser humano hoje é, inevitavelmente, ser ciborgue.
Por fim, ao reconhecer que já habitamos uma condição híbrida, a Antropologia Ciborgue nos convida a abandonar definitivamente a ilusão de uma humanidade pura, autônoma e intacta. Ser ciborgue é uma uma constatação do presente: somos atravessados por redes técnicas, discursos, dispositivos e políticas que configuram nossos corpos, nossos afetos e nossas formas de existir.
Nesse cenário, pensar o humano é também repensar o político — não mais fundado em identidades fixas, mas em alianças situadas e provisórias. O corpo, antes visto como limite da individualidade, revela-se um território de inscrição tecnológica, onde memória, desejo e controle se entrelaçam em circuitos instáveis. A subjetividade, por sua vez, já não se constitui como essência interior, mas como efeito de acoplamentos entre carne e código, voz e interface, presença e mediação.

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