Entrevista publicada originalmente em 28 de Maio de 1977 pelo jornal O Globo.
Por Márcia Villela.
Em um casarão da Rua General Dionísio 63, onde funciona o Atelier de Artes Plásticas Hélio Rodrigues, o desenhista Stil orientará, durante cinco meses, um curso de desenho animado.
Com vasta experiência no gênero, Stil tem se dedicado a produzir aberturas para a televisão e cinema, trabalhos internos em grandes empresas, publicidade, filmes didáticos e, através do curso, vem desenvolvendo um importante trabalho na formação de novos profissionais especializados.
Segundo Stil, o desenho animado, apesar de considerado por alguns como anti-comercial e anti-econômico, tem indiscutíveis possibilidades de manipulação, invenção e controle total das noções de tempo e espaço, já que sua característica básica é um ilimitado poder de síntese.
— Justamente por isso — diz Stil — é maciçamente empregado na publicidade. Por outro lado, pela falta de produtores, o desenho animado brasileiro ignora um imenso e avido mercado jovem, comprovado consumidor potencial do gênero, deixando de produzir filmes de animação nacionais, em curta e longa-metragem.
— O diretor de desenho animado é um deus. Suas possibilidades de linguagem são ilimitadas. Ele tem um controle total sobre imagem e som. Ele transporta o espectador para o mundo que ele quiser. Não há impedimentos de ordem econômica: uma sala em Marte custa o mesmo que um campo inglês. O animador é uma pessoa muito especial. Tem que ter um sentido crítico apurado em relação à sensibilidade do movimento, uma boa noção de timing. Para se fazer um animador completo seria necessário muito tempo.
A princípio tímido, o arquiteto Pedro Ernesto Stilpen, apelidado Stil por Ziraldo, vai aos poucos mostrando sua profunda afinidade com a linguagem de animação, que o fez largar o estável emprego no DNER pela aventura dos quadrinhos e do cinema.
— Amo a arquitetura, mas o desenho animado fala mais forte. Não há possibilidade de sair diferente do que eu quero. Tenho um controle total sobre o produto. Por ser uma linguagem sintética, posso dizer em cinco minutos o que diria em horas de filme normal. Justamente por isso é muito utilizado em publicidade - cerca de 90% -, sendo o que mantém os grandes profissionais.
Stil começou a trabalhar com desenho animado junto com um grupo chamado Fotograma, que se desfez devido ao ecletismo dos integrantes. Dele faziam parte Antônio Moreno, Rui Oliveira, que faz apresentações para a TV Globo, e Jô Oliveira, que fez um trabalho recente para a editora Codecri, Depois dessa experiência, Stil passou a produzir sozinho. Por falta de dinheiro chegou a desenhar em papel de embrulho com caneta hidrográfica.
— Depois veio uma fase abastada, tanto financeiramente como em solicitações. Na TV Globo, fiz trabalhos no “Satiricon”, “Faça Humor, Não Faça a Guerra”, “Fantástico”, “Viva Marília”, e outros. Em três anos, fiz três horas de animação, o que é um recorde para uma só pessoa. Ultimamente, fiz um trabalho para a IBM e um para o programa “Sandra & Miele”.
Além disso, Stil fez inúmeros quadrinhos e charges para veículos impressos.
— O que faço atualmente ainda não é o ideal. Minha vontade era manter um trabalho regular, construir um personagem e partir para um longa-metragem. Necessitaria de uma equipe grande, trabalhando regularmente, por ser um trabalho a longo prazo. Poderia ser feito se uma das TVs pensasse em fazer um seriado em desenho. Poderia acontecer se um dos grandes exibidores sentisse necessidade de reviver o que Tom & Jerry representou para a Metro. Quando se colocava a figura dos dois na porta do cinema, convidando para entrar, a audiência dobrava, tamanha era sua penetração. Isto levou as outras grandes companhias a fazerem seus próprios desenhos para poderem concorrer.
Segundo Stil, a filmografia em desenho animado é muito extensa:
— Uma dupla de rapazes, um do Kansas e outro de Chicago, sacudiram o mundo do desenho animado: Ub Iwerks e Walt Disney. A partir de trabalhos em publicidade, começaram a desenvolver técnicas próprias de animação, sendo que o artista dos dois era Ub. Ele é o pai verdadeiro de Mickey. A firma que criaram chamava-se “Disney-Iwerks”, mas como esse nome soava “Disney eye works”, todos pensavam que era uma ótica. O nome foi mudado para “Laugh-o-grams”. Eles deram ao público o que o público queria ver, popularizando enormemente o desenho animado. Ub ficou ao lado de Disney até a morte, com exceção de um breve período em que tentou se estabelecer por conta própria e quase foi à falência. O Disney era mais critico que qualquer outra coisa, tinha uma sensibilidade muito grande, sempre anos à frente de qualquer concorrente. Introduziu nos desenhos animados o Technicolor, a longa-metragem, o som estéreo e o áudio-animatrônico, que são os bonecos da Disneylândia, e muitas outras coisas.
Mas foi o escocês Norman McLaren, estabelecido no Canadá, o mais “insatisfeito” dos desenhistas. Sem se contentar com os resultados obtidos, pesquisa sem parar todas as formas e técnicas possíveis. Outra escola importante, atualmente, é a do Leste Europeu, que é principalmente influenciada pela UPA americana, constituída por ex-desenhistas da Disney.
— Historicamente, no entanto, o desenho animado não foi feito para crianças. Os primeiros cineastas eram mais cientistas que artistas. Essa tendência foi também para o desenho animado. Os filmes de Émile Cohl, por exemplo, eram feitos para adultos. Um deles fala dos horrores do alcoolismo. Os cineastas tendem a falar para pessoas de sua própria idade. É raro ver um filme sobre senilidade, assim como são poucos os feitos para crianças. Entretanto, 70% do Brasil é composto de jovens, e se no resto do mundo o número cai é muito pouco. Estamos num mundo onde o jovem é maioria absoluta. É um mercado enorme (o contador das empresas Disney não me deixa mentir) que os produtores ignoram, apesar da Embrafilme dar como incentivo 30% ou 40% de retorno do capital para filmes dedicados à infância. Existe medo em explorar um campo novo. Quanto a isso, o Brasil é um país surrealista.
— Um longa-metragem em desenho animado custa em torno de Cr$ 4 milhões. Está acima da média dos filmes brasileiros. Mas se render Cr$ 10 milhões, recebe-se Cr$ 14 milhões por causa do prêmio da Embrafilme, se for filme para crianças.
Entretanto, Stil não se limita ao desenho animado. Publicou um livro de biologia, todo em quadrinhos, chamado “Muito por dentro”, outro chamado “As máquinas mágicas do desenho animado”, e um terceiro, engavetado à espera do momento ideal de publicação, onde aborda, através de aventuras, os dilemas da comunicação e expressão.
Mas seu grande desejo é fazer uma tira semanal ou diária num grande jornal. Para isso, já tem pronto um ano de historinhas e vários personagens, dos quais destaca dois: “O Caramba”, uma jaguatirica cangaceira, e o “Rastaquera”, um índio preocupado com problemas ecológicos. Este foi desenhado junto com Flávio Colin, que Stil considera “o melhor desenhista brasileiro de todos os tempos”.
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