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Labe Cinético · Dec 24, 2024

Crítica: "Nem Doeu", de Otto Guerra

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Labe Cinético · Labe Cinético

Isso aqui é o primeiro texto de uma série em que pretendo trazer resenhas (ou quase isso) de livros que abordam de alguma forma a animação nacional. Mas não confunda, não são livros nacionais sobre animação; são livros sobre animação nacional!! Para inaugurar a série, apresento-vos a autobiografia do animador e cineasta Otto Guerra, intitulada “Nem Doeu - Autopornografia”, publicada em 2021 pela editora MMarte, e o motivo pelo qual estou começando por este livro é o seguinte:

Apesar de não ter nascido a tempo para ter sido um leitor da deleitosa revista “Chiclete com Banana”, posso dizer que fui apresentado aos “Los Três Amigos” com grande estilo. Em uma sexta-feira qualquer do ano 2016, cheguei em casa após a faculdade, e fui conferir se os meus torrents haviam terminado de baixar. No meio das obras experimentais de Godard que eu nem ao menos possuía a capacidade de compreender, e outros filmes “cults” que eu assistia para parecer minimamente “”“intelectual””” nos bares do centro de São Paulo, estava lá algo um tanto diferente. Sem saber exatamente o que esperar, dei play em “Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll”. Que barato, bicho! Vidrado naquele mosaico lisérgico de frames e mais frames de personagens altamente pirados com uma trilha sonora absurda, eu só conseguia pensar algo como: “Então quer dizer que dá pra fazer animação no Brasil... quero fazer também.”. E foi assim que pela primeira vez tive contato com a obra do mestre Otto Guerra, um dos principais nomes da animação nacional.

Capa do filme “Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll”

A verdade nua e crua é que não existe uma indústria de animação bem estabelecida no Brasil, tudo é muito instável para quem quer viver da animação fora do mercado publicitário, e é por isso que este pequeno livro é importante! Cada página são doses homeopáticas de inspiração, só que essa inspiração é na verdade uma droga muito viciante, e você está dividindo uma seringa de procedência duvidosa com um amigo ao som de Pink Floyd e Velvet Underground, conversando talvez sobre poesia Beat (?). Leiam! Vale à pena.

Enfiei o pé na jaca e pior, gostei. Foda-se. Bêbado, decidi produzir “Rocky & Hudson: os caubois gays”, longa-metragem que adaptamos das HQs do meu amigo Adão Iturrusgarai. Não sabia que era impossível fazer, fui lá e soube. Pensamos em três episódios, conseguimos fazer apenas dois. Como dizia Zé do Caixão, quis fazer uma trilogia mas acabei fazendo uma biologia. Hoje “Rocky & Hudson” é meu filme preferido.”

Através de um humor (muito) autodepreciativo, de maneira bem escrota (no bom sentido), somos apresentados a vida de Otto Guerra. O cara mescla acontecimentos pessoais e profissionais, tecendo essa grande rede de intrigas melodramáticas e loucuras alcoólicas que vem sendo a sua existência.

No começo do livro, Otto nos conta um pouco da sua infância e adolescência. Confesso que me decepcionei em primeiro momento. Vai se foder, Otto! Não quero saber sobre seu fracasso sexual! Me fale de animação, cara! Animação! Mas logo entendi, o livro nos apresenta o essencial para compreendermos o processo que levou o mestre Guerra a ser quem ele é. O que seria de um grande cineasta sem seus traumas? A animação talvez tenha sido uma fuga para o jovem Otto, o que deve ter resultado em uma vida um tanto disfuncional, mas extremamente criativa, prolífera e inspiradora!

Mas basta virarmos algumas páginas para nos depararmos com os primeiros instantes da carreira do garoto. Passou alguns anos absolutamente vendido à publicidade (sinto muito, Otto) até que se atirou de vez na produção de seus filmes autorais. Aí é que está! Fazer animação não é pra qualquer um, e posso dizer que Otto é um cara especial nesse sentido. Se tem algo que essa biografia deixa claro, é como a sua carreira foi de certa forma penosa, talvez um pouco hedonista, mas com certeza penosa. Era possível fazer animação no brasil nos anos 90? Claro que não, mas Otto Guerra, e outros como José Maia, foram lá e fizeram. Otto é um punk por essência, fez o que quis, e fez do jeito que deu.

Pra fazer meu primeiro longa, apelei à inconsequência e irresponsabilidade, mas sobretudo à anarquia e ao álcool. A impossibilidade de fazer o filme desaguou em milhares de estranhas circunstâncias que se agregaram ao próprio filme. A impossibilidade virou linguagem”

Esse livro é essencial para toda a pessoa que queira conhecer um pouco mais sobre os bastidores da produção de animação no Brasil, ou apenas dar boas risadas com anedotas da vida artística e boêmia de um Bukowski Gaúcho. Através de um ponto de vista íntimo e ácido, verá que fazer cinema é uma parada tensa. Quer produzir animação? Você vai se foder, mas no final valerá a pena. Viva Otto Guerra!

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