Eu sempre tive um medo paralisante de envelhecer. Aos doze anos, eu me lembro de passar noites em claro encarando as estrelinhas que brilhavam no escuro no teto do meu quarto apavorada com a ideia de que o tempo iria passar para mim e eu me tornaria algo irreconhecível. Eu não tinha exatamente medo da adolescência que se aproximava, nem um apego a infância (foram, indiscutivelmente, os piores anos da minha vida), mas medo do futuro longínquo, de ter vinte, trinta, quarenta anos, de tudo que eu não conseguia ver após a parte que me parecia certa: terminar a escola, sair da pocilga infecciosa onde eu morava, me formar na faculdade. Enquanto o caminho estava traçado, eu não tinha medo, mas me apavorava a falta de controle sobre o que eu viria a ser depois.
O fato de que essa criança ansiosa e mórbida se transformou em uma adolescente auto-destrutiva e deprimida não deveria surpreender ninguém. Deitada no colo do primeiro garoto que eu amei, eu discorri sobre como queria queimar rápido, escrever algum tipo de livro brilhante aos vinte anos e então sumir antes dos trinta. Eu usei a palavra sumir, eu deixei que ele entendesse, eu deixei que eu mesma entendesse.
Tanta gente que eu conheci ao longo da vida não achou que eu chegaria até aqui. Ainda hoje, as pessoas brincam que eu vou viver mais do que todo mundo um pouco como o Keith Richards: não porque eu esteja trabalhando para isso, mas porque os deuses parecem ter me escolhido como experimento cruel. Eu nunca quis viver muito, eu ainda não quero, quando o Godard disse chega e morreu olhando os Alpes na Suíça, eu arquivei essa informação como um tesouro.
O que é curioso é que, apesar de tudo isso, eu nunca achei que o medo de envelhecer fosse qualquer coisa menos normal. Com certeza todo mundo anda por aí sentindo o tempo que passa como uma corda de forca que se aperta cada vez mais, não? Todo mundo tem a consciência aguda das próprias células se decompondo, do próprio rosto enfeiando, de que a vida vai te transformar em algo necessariamente pior e não é mais sábio só talvez acabar logo com isso? Fascinante, as coisas que nosso cérebro nos convence que não estão erradas.
Claro, eu sempre soube que minha particular falta de medo da morte, meu dar de ombros em relação a ela era peculiar (diagnosticado, medicado, onipresente), mas eu me convenci que os outros a temiam como uma alternativa pior, ou só uma falta de alternativa. Um pouco como ir ao dentista é horrível, conviver com uma cárie é pior ainda, algo assim. E então eu descobri que não, que as pessoas olhavam para os anos por vir e sentiam paz, curiosidade, ansiedade, que elas não achavam que se tornariam sempre versões piores delas mesmas a cada mês que passa.
Infinita, a lista das coisas erradas comigo.
A primeira das coisas que eu temo no envelhecer é o deslizar para fora do padrão estético. Eu fui uma adolescente feia e esquisita suficiente que ninguém nunca vai me convencer que a beleza não é um poder, não torna existir no mundo substancialmente mais fácil. Torna e qualquer um que disser o contrário está mentindo. Claro, a gente pode discutir se deveria ser assim, ou se o padrão deveria ser estreito como é, se essa verdade é igual para homens e mulheres, mil coisas. Todas essas discussões não mudam a realidade das coisas como elas agora são, nem que ter poder é sempre muito mais confortável do que não ter. Até meus dezoito, dezenove anos, eu não era bonita. A partir daí, eu passei a ser excepcionalmente bonita. Me angustia pensar em não ser mais, simples assim.
A juventude em si, para alguém ambiciosa como eu sou, não deixa de ser um valor. A pessoa mais nova a ganhar um prêmio tal, a fazer isso ou aquilo, a forma como a gente se encanta com as obras que nascem de um clarão de juventude: Perto do Coração Selvagem tão mais impressionante porque a Clarice Lispector tinha apenas 22 anos quando o escreveu.
A coisa sobre ser um artista precoce, me parece, é que a maior parte de nós (e eu já estou chegando ao ponto de ser uma artista tardia) encontra a própria obra no acúmulo: de experiências, de técnica, de recursos. A gente aprende a pintar, escrever, compor, o que quer que seja, conforme caminha, o artista jovem não, é como se ele nascesse com tudo isso, como se seus instintos já viessem perfeitamente afinados com suas vontades. Como se houvesse algo de mais puro em ser uma romancista de 22 anos que 37. Mas como se também houvesse algo de destino em ser assim, algo de uma vida que já veio imaginada, que é uma coisa que eu adoraria ter.
Esse ano eu faço trinta e oito anos. Minhas amigas começaram, de algum tempo para cá, a falarem casualmente que têm “quase quarenta", nós chamamos de novinho homens de trinta anos, os anos desde que eu defendi um doutorado, morei em Berlim, conheci aquela pessoa se acumulam como pó. Eu não sou mais jovem, isso é óbvio. Mas o que para mim não é nada óbvio é que isso iria, um dia, acontecer comigo.
Não porque eu acreditasse em algum tipo de feitiço de Peter Pan que ia me libertar dos meus medos, mas porque, sendo absolutamente direta, eu não achei que ia chegar até aqui. De um jeito ou de outro, pela minha mão ou a do mundo (que não deixaria de ser a minha), eu acreditei profundamente que a meia-idade era algo que não era para mim. Que o longo prazo, o futuro, o tempo, nada disso me cabia. Que eu iria, como tinha previsto aos dezesseis anos, queimar logo.
Mas eu não queimei. E um belo dia eu acordei e eu era uma adulta, de verdade, completa. E eu jamais tinha pensado em como fazer isso.
Minha própria morbidez psicológica à parte, eu acho que parte dessa dificuldade de me imaginar no futuro não foi só minha, mas uma reação à narrativa de existência que me estava sendo oferecida. Eu nunca quis ter filhos, eu nunca sonhei com encontrar uma pessoa com quem eu passaria a vida, eu queria escrever livros e viajar e beber até de madrugada e era isso, coisas que, a narrativa me dizia, são para gente jovem.
Eu sei que algum leitor está revirando os olhos e me achando terrivelmente conservadora, mas olhe em volta: pense em todas as opiniões e textos e histórias que dizem que você já passou dos trinta e precisa gostar de lençol e jogo de panela e não de balada e ketamina? Claro que as pessoas vivem diferente disso, eu vivo diferente disso, mas hoje, ainda, essa vida é uma espécie de exercício de imaginação. Eu penso bastante em Either/Or, da Elif Batuman e de como a narradora diz que em parte tinha escolhido ir para Harvard porque achou que lá encontraria pessoas interessadas em outras formas de viver, mas todo mundo só parecia conformado com as formas já estabelecidas. A gente enquanto sociedade não educa ninguém para pensar que a vida é algo totalmente mole e livre e seu para fazer o que quiser. Nós educamos dizendo que a vida é algo com um caminho e uma narrativa e marcos e tempos e eu não estava interessada em nenhum deles. Eu tinha detestado ser criança, não queria o que me contavam que era ser adulta, então talvez a coisa toda só não fosse para mim mesmo.
Acontece que, ano a ano, ela foi sendo e então eu olhei para o abismo escuro que até aqui tinha sido a “não juventude” e decidi que talvez eu não quisesse me jogar nele, pelo menos não ainda. Então eu me vi aqui, tendo seguido um caminho que acabava, sem saber o que desenhar depois dele.
Meu primeiro movimento foi absolutamente clichê: eu comecei a reler as memórias da Simone de Beauvoir. Parece contraditório, ler sobre ter quinze, dezessete, vinte anos quando eu estou diante de como ser uma pessoa daqui para frente. Talvez, eu mesma considerei, fizesse mais sentido eu ler só do segundo volume para frente, talvez só o último. Mas eu não precisava aprender a ser alguém que vive com uma vida atrás, eu precisava entender como ter um futuro. Ironicamente, na hora que eu deixei de ser jovem, eu precisei entender como todas as outras pessoas fizeram.
Porque essa coisa, de se sentir cheio de promessas, de ver suas escolhas como experimentais, de sonhar a pessoa que você vai ser, eu nunca tive. Às vezes me perguntam porque eu tomei uma ou outra decisão e a única justificativa que eu tenho ainda é “eu não achei que fosse importar, eu não achei que eu estava construindo nada, eu achei que estava só empilhando lixo". E de repente eu não estava, então o que fazer com isso?
A Beauvoir me pareceu o primeiro passo porque se eu pudesse escolher uma vida eu queria a dela e não a parte de ser genial, mudar o mundo, etc (embora sim, claro, tudo isso também), mas a absoluta radicalidade da imaginação dela em relação a como as coisas poderiam ser, ao que a vida poderia ser. Ainda hoje, eu não olho para outra vida e enxergo uma versão mais livre, mais rica, mas honesta e, sim, divertida até o fim. Se eu não quero a vida imaginada para mim, então eu me debrucei em quem teve a coragem de imaginar a dela.
O segundo passo tem sido um pouco olhar em volta, ver como os outros fazem, medir meu tempo um pouco pelo tempo dos outros. Não de uma forma competitiva, mas só observar alguém que com a minha idade estava indo morar em um país tão estrangeiro, ficou lá por tantos anos, e então voltou e ainda está aqui, existindo, fazendo novas escolhas. Porque a questão de ver meu caminho como tão breve é que tudo me pareceu sempre muito definitivo, o que eu não fiz nunca seria feito, os livros que eu não escrevi nunca seriam escritos, as cidades onde eu não morei eu nunca moraria, as relações que eu não tive, os lugares que eu não vi. Eu corri tanto nos meus vinte anos, eu tentei acumular tanta coisa antes do fim e agora, paradoxalmente, eu pareço ter todo o tempo do mundo, tudo é tão menos final.
Eu ainda acho muito difícil, isso de ter um futuro. Esses dias, tarde da noite em uma mesa de bar, alguém me perguntou com toda a honestidade o que eu queria. “Eu não sei", eu disse, “eu nunca me permiti querer nada", era mentira e não era. Minha cabeça estava zumbindo de coisas que eu não ousava confessar em voz alta, lotada de desejos que eu ainda não sei se são possíveis ou não, se eu quero mesmo ou se, como disse Sylvia Plath de todas as pessoas, querer tudo é tão próximo de querer nada. Mas eu tenho olhado em volta.
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