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Bobby Pins · Aug 23, 2026

Roma | O que visitar num dia?

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Inês Mota · Bobby Pins

Bem sei, a maioria das pessoas faria a aventura no sentido inverso: alguns dias em Roma, com uma day trip a Florença incluída. E estão a pensar bem; Roma é soberba na geografia e na informação a processar e visitar. Há tanto para ver e fazer que o difícil é pensar por onde começar a desfrutar de uma cidade onde tudo é exageradamente preparado para nos deslumbrar. Não nos podemos distrair com nenhuma esquina sob pena de sermos tomadas de assalto por uma fachada imponente, uma estátua impressionante ou um edifício que, sem levantar suspeitas, tira-nos o fôlego.

Mas o coração não escolhe destinos da mesma forma que a lógica, e o sonho era viver os dias de aniversário em Florença, desejo esse que ele ouviu e atendeu com carinho. Juntou-se a oportunidade de visitarmos Roma antes de descolarmos para casa. Quem recusaria?

Não deu para tudo, mas deu para muito e, acima de tudo, deu para muito com calma. Cada lugar que visitei, consegui aproveitá-lo como merecia, sem pressa para chegar ao outro, mesmo que isso implicasse um roteiro pequenino. Abriu o apetite para lá voltar: já muita gente viu, falou e fotografou Roma, sim, mas as nossas experiências são, e sempre serão, únicas.

São o nosso olhar sobre as coisas.

Basta clicarem nos títulos e vão parar às localizações exatas

Não dá para ir a Roma sem ver o Coliseu, não é? Faz parte do DNA da cidade e usámo-lo como ponto de partida para fazer o resto do roteiro. Inicialmente, era conhecido como o Anfiteatro Flávio. Como é que se tornou Coliseu, então? Muito provavelmente está relacionado com o facto de, ao lado do coliseu, ter existido uma estátua chamada Colosso de Nero. A expressão ‘Coliseu’ acabou por ficar conhecida por ser uma forma de identificar rapidamente qual era o anfiteatro.

Ainda de fora, conseguem também ver algo que deu origem a um dos maiores mitos sobre o Império Romano: o vomitorium. Muito se fala sobre os banquetes fartos onde os romanos se ausentavam momentaneamente para vomitar e esvaziar o estômago para poderem comer mais - e que o lugar onde faziam isso era o tal vomitorium. Isto não é verdade. Os vomitorium são as várias portas de passagem de acesso ao Coliseu, o que permitia que as multidões entrassem e saíssem do anfiteatro de forma ágil e organizada (um pouco aquilo que testemunhamos, hoje em dia, quando vamos a um concerto ou a um estádio). No caso dos romanos, as portas estavam organizadas de acordo com a escada social (claro!).

Existem outras coisas que podem admirar de fora ou, pelo menos, reparar na sua ausência. Achamos intuitivamente que as partes que faltam do Coliseu são fruto do desgaste e de catástrofes naturais, mas a verdade é que grande parte da razão pela qual o Coliseu tem partes em falta foi porque os romanos iam ativamente saquear a pedra para outras construções na cidade.

Se tiverem tempo, acho que vale muito a pena entrar para repararem em outros detalhes e estruturas do Coliseu; têm portinholas para gatos, têm o hypogeum (uma estrutura subterrânea à arena onde estavam os corredores, jaulas e outros mecanismos que permitiam a subida dos animais, gladiadores e outras estruturas) e muitas outras curiosidades.

Porém, se, como eu, só tiverem tempo de admirar por fora, este é o sítio com uma das melhores vistas para o Coliseu e também das mais tranquilas.

Mesmo ao lado do Coliseu, estende-se o Fórum Romano que eu acho que é um dos monumentos de Roma mais subvalorizado porque, sem contexto, é “““só””” um monte de ruínas (coisa que não falta em Roma). Esta é a minha tentativa de vos convencer de que, na verdade, este lugar merece a vossa atenção e carinho: estamos a falar do antigo centro político de Roma, o berço da cidade.

Quando olharem para a extensão desta área, imaginem uma praça onde existia um Parlamento, igrejas, bancos, tribunais, tudo concentrado ali!

A ruína mais bem preservada do Fórum Romano (que ainda tem colunas, inclusive) chama-se Curia Julia e, ironicamente, só sobreviveu até aos dias de hoje porque foi convertida, durante séculos, numa igreja. Antes disso, funcionava como um espaço parlamentar. Isto é um bom exemplo de algo que é um pouco visível em vários monumentos em Roma: a razão pela qual grande parte sobreviveu é porque foram readaptados para uma função diferente da original.

Tal como na Piazza della Signoria, em Florença, ainda existem alguns vestígios de propaganda política. Estamos a falar de uma época em que o povo não era alfabetizado e, por isso, a forma como os Imperadores passavam mensagens era através das estátuas ou dos arcos triunfais. É giro ver as estátuas, colunas e arcos desta forma e pensarmos que isto era a tentativa política de fazer com que os súbditos de um Imperador se lembrassem de quem venceu batalhas e guerras ou que linhagem é que edificou determinado espaço.

Convenci-vos de que não são só ruínas aleatórias?

Seguimos pela Via dei Fori Imperiali - onde somos acompanhados durante toda a caminhada pelas estátuas de Imperadores - em direção ao Panteão. Por este caminho, passamos pelo Monumento a Vítor Emanuel II (e eu sabia que era um monumento a larga escala, mas ver ao vivo é impressionante. É de uma dimensão absurda!).

Não é um monumento consensual (muitos Italianos, inclusive, chamam-no de ‘bolo de casamento’, por motivos óbvios 😂), mas tinha um propósito e uma mensagem a passar; foi edificado no séc. XIX para celebrar o primeiro rei de uma Itália unificada. É mais fácil entender a importância disto se pensarmos que, durante séculos, Itália não funcionava como um país, mas sim como um aglomerado de regiões autónomas.

A minha parte favorita deste monumento é o cavalo onde o rei está sentado ao centro. Em perspetiva, não parece assim tão grande, mas esta estrutura é tão enorme que, antes da inauguração, foi organizado um banquete de celebração dentro do corpo do cavalo. Tudo na dimensão desta estátua é muito maior do que aparenta: os bigodes do rei, por exemplo, medem 1 metro!

Estava fora de questão, para mim, deixar Roma sem entrar no Panteão, custasse o tempo que custasse nas filas, e sobre este tema tenho algumas dicas: existem três filas de entrada para o monumento e todas são pouco claras: uma para quem já tem os bilhetes (comprados online, que eu recomendo), outra para pagamentos a dinheiro e outra para pagamentos em cartão. Não têm nenhuma indicação de qual fila pertence ao quê, pelo que eu recomendo que perguntem aos seguranças e à organização antes de escolherem uma porque as três consomem muito tempo.

Enquanto esperam na fila, há coisas interessantes a reparar na fachada e a primeira delas é a inscrição que conseguem ler acima das colunas e que diz: “Marco Agripa, filho de Lúcio, construiu isto“. A verdade é que isto é uma imprecisão, uma vez que o Panteão que estamos a ver hoje já não é o original, que foi construído no final do séc. I AC. Este, que vemos hoje, foi reconstruído sob a tutela de Adriano, no séc. 125 DC, mas decidiram manter a inscrição original.

Uma vez lá dentro, a parte mais impressionante é, claro, a cúpula e o óculo. Ambos são um resultado de engenharia maravilhoso, em particular o óculo de 9 metros. Não só deixa entrar luz natural, como também resolve o problema de peso que a estrutura da cúpula teria se fosse totalmente fechada. Aliás, a estrutura da cúpula fica cada vez mais leve à medida que chegamos ao topo.

Para muita gente, este teria sido o primeiro ponto de passagem para evitar os aglomerados de gente, mas não foi a prioridade para mim. Acho importante enquadrar, no entanto, que na altura em que fui, a Fontana di Trevi ainda era totalmente gratuita. Hoje em dia, com as novas logísticas, eu recomendo que consultem os horários para decidirem a melhor opção de visita!

Quem é o protagonista desta fonte, bem ao centro? Se pensaram em Neptuno, estão erradas, mas não é uma resposta incomum. Na realidade, é uma interpretação do oceano, aqui humanizado. Toda esta fonte celebra a água e o domínio deste elemento através de uma engenharia que a distribui até nós.

Em cada lado do oceano, temos também duas estátuas de cavalos, um mais revolto e outro mais calmo. Ambos representam os dois humores mais comuns do mar e, se repararem em toda a composição - a postura dos cavalos e a pose dos tritões - o objetivo é reproduzir o movimento de uma onda.

Não vou mentir, o turismo em massa assoberba um pouco muito a experiência, mas recomendo-vos um grande poder de abstração (ou horas mais favoráveis - normalmente, de madrugada) para conseguirem admirar esta obra que é, sem sobrevalorização nenhuma, extraordinária. Levou 30 anos a ficar concluída e nem o próprio arquiteto (Nicola Salvi) chegou a vê-la concluída.

É tradição lançar uma moeda para garantir que regressam a Roma: o ritual é ficar de costas para a fonte e atirar a moeda com a mão direita por cima do ombro esquerdo.

Atualmente, as moedas são recolhidas e o valor é doado a projetos sociais através de um protocolo entre a Roma Capitale e o Vicariato de Roma, com utilização associada à Caritas.

Não faltam pratos típicos em Roma, mas para uma refeição principal, tinha que ser a carbonara, para mim. Mas há várias receitas tradicionais na região que vocês podem pedir: cacio e pepe, gricia (não é uma receita tão popular entre turistas, mas é uma receita local que leva guanciale, pecorino e pimenta. Eu diria que é uma prima da carbonara e cacio e pepe), amatriciana (que é curioso porque a receita, originalmente, vem de Amatrice, mas ficou completamente associada a Roma), pasta alla zozzona (é uma das minhas favoritas de fazer em casa porque mistura elementos das outras três receitas - mas não costumo adicionar salsicha na minha versão caseira), penne all'arrabbiata e rigatoni con la pajata (é das mais tradicionais, mas pesquisem antes de pedir porque Itália é um pouco como Portugal: tivemos de saber aproveitar todas as partes dos animais para combater a fome).

Para mim, é giro também reparar na diferença de épocas entre os pratos ‘brancos’ e os pratos com molho de tomate. Em Itália, os pratos com molho branco são muito mais antigos porque o tomate chegou à Europa muito mais tarde, trazido pelos Espanhóis quando colonizaram os Astecas. Não é curioso?

Não quis dispensar, nesta visita a Roma, a minha passagem pelo Vaticano e pela Basílica de São Pedro. A entrada é gratuita, embora faça filas grandes com muita facilidade (dá para reservarem um horário de visita online, mas aí já pagam bilhete).

Já se passaram 10 meses desde que a visitei e, honestamente, continuo sem conseguir concretizar ao certo o que sinto sobre este lugar. Os pensamentos contraditórios e paradoxais não ficaram mais arrumados desde então. Acho que, se precisar de resumir o que sinto sobre a Basílica, é que acho que é o epitomo do horror vacui: um princípio estético que se rege sobre a necessidade de preencher qualquer espaço disponível com detalhes. Tudo é imensamente rico e saturado em várias dimensões, e estar lá dentro dá-nos uma sensação de pequenez e significância, em partes iguais. É tudo isto que o ser humano é capaz de construir. Mas, ao mesmo tempo, é uma soberba de riqueza quando tantos têm tão pouco. Um passeio que, a certa altura, me pareceu chegar às fronteiras da imoralidade e onde me perguntei se somos mesmo capazes de construir isto tendo uma consciência presente sobre a miséria dos outros.

Não tenho respostas certas para as minhas perguntas, mas sei que a beleza, aos poucos, foi dando lugar ao desconforto. Lentamente, fui-me sentindo como se estivesse a conhecer a mansão de alguém e sem saber propriamente qual era a etiqueta apropriada para vaguear numa casa destas.

O meu favoritismo nesta Basílica foi, sem dúvida, a Pietà. Não deixa de ser um pouco humorístico pensarmos na ironia que é esta estátua estar aqui: não é uma estátua grande, é absolutamente simples e foi originalmente, concebida para estar num espaço funerário e não ali.

Se a idade com que Michelangelo esculpiu a Estátua de David não foi suficiente para vos deixar com uma Síndrome do Impostor preocupante, deixem-me tentar outra vez: é que o Michelangelo esculpiu a Pietà com 20 anos e terminou-a aos 24 (!!!!!!!!!).

É uma obra que tem uma particularidade praticamente única por estar assinada pelo próprio Michelangelo (que não tinha o hábito de assinar as suas obras). A assinatura está no peito de Pietà (deixo as interpretações e observações ao vosso critério). Diz-se que ele se arrependeu de o ter feito e que é por isso que não encontramos outras obras assinadas.

Um outro pormenor muito inteligente é que, embora a estátua não seja particularmente grande, se conseguíssemos colocar as figuras de Maria e Jesus em pé e lado a lado, perceberíamos que Maria é absurdamente desproporcional em relação ao filho. É um detalhe propositado porque Jesus, sendo um homem adulto, jamais conseguiria ser sustentado naquela posição. Mas assim, daquela forma, parece-nos natural.

O detalhe mais importante desta obra, na minha opinião, é a mão esquerda de Maria. A direita sustenta o corpo de Jesus, enquanto que a esquerda apresenta-se com a palma voltada para cima. Existem várias interpretações possíveis, mas a maioria está em concordância de que é um sinal discreto de luto e conformação. Um símbolo de aceitação da perda do filho e de entrega da alma ao criador, deixando o corpo (o elemento terreno e humano) perto da mãe.

A nossa curtíssima visita a Roma terminou em Trastevere para procurarmos o Harry Styles. É um bairro típico e colorido repleto de pequenas lojas, placas antigas, cafés, ruas paralelas e alguma vida local (embora cada vez mais gentrificada). Foi a forma que encontrámos para desfrutarmos um pouco mais da cidade na sua essência, para pararmos num café pitoresco para recarregar energias e para iniciarmos, lentamente, a nossa despedida desta que foi uma das minhas viagens favoritas da vida.

É também um sítio estratégico para procurarem por uma pizza! Tal como as massas, as pizzas italianas têm também receitas e ingredientes típicos de região para região. A pizza romana, por exemplo, diferencia-se da Napolitana por ser extremamente fina e crocante. As mais típicas da cidade são pizza bianca con la mortadella, pizza rossa (que surgiu depois do tomate chegar, mas não leva queijo), pizza con patate (sim, é uma pizza com batata e é super típica), pizza com fiori di zucca (a curgete é uma grande protagonista de muitas receitas romanas) e, em versões mais contemporâneas, pizzas alla amatriciana, carbonara ou cacio e pepe. Para quem é fã da combinação clássica de pizza com figos, acho que vão ficar contentes porque Roma é o berço dessa receita - aproveitem!

Espero que a vossa visita à Roma seja farta em dias e pratos, com tempo para absorver a beleza daquela cidade e muito mais. Mas se, como eu, este for todo o tempo que tiverem, espero ter conseguido ajudar! Estou certa de que, um dia, irei regressar para uma visita como a cidade merece.

Continuaremos a passear pelas aulas de História e, no próximo postal, viajamos ainda mais no tempo.

Juntam-se a mim nessa odisseia? 🏛️

Até ao próximo postal,

Inês

Read the original on innmartinsm.substack.com

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