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Dose de Ataque News · Aug 18, 2026

Dose de Ataque #194 - Vacinação de Sarampo em SP: Quem pode (e não pode) tomar?

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Yara Aline Silveira · Dose de Ataque News

E aí, tudo bem?

Essa semana a edição tem um fio condutor claro: o excesso de confiança nas nossas ferramentas padrão. Às vezes, prescrever o antibiótico mais amplo piora o desfecho do paciente. Outras vezes, a profilaxia que usamos há décadas já não atinge o alvo. E, em saúde pública, ignorar doenças eliminadas faz com que elas voltem com tudo.

➡️ Cobertura anaeróbica desnecessária: Dar Piperacilina-Tazobactam ou Meropenem para bacteremias sem indicação para anaeróbios aumentou a mortalidade em 90 dias.

➡️ Profilaxia com Levofloxacino: 750mg não estão sendo suficientes para pacientes onco-hematológicos devido a alterações de PK/PD e colonização por BGN resistentes.

➡️ Sarampo de volta ao radar: Surto recente nos EUA com sintomas gastrointestinais atípicos, e ampliação urgente da vacinação em São Paulo.

A pergunta: estamos ajustando nossa prática à realidade atual ou operando no piloto automático?

Bora.

Evidência: Subanálise do ensaio clínico randomizado BALANCE | Clinical Infectious Diseases

Na dúvida, a gente tende a prescrever o antibiótico mais amplo. Paciente grave com bacteremia? Piperacilina-Tazobactam ou Meropenem. O problema é que, quando não há indicação clara para cobrir anaeróbios, essa escolha tem um preço oculto.

Uma subanálise do estudo multicêntrico BALANCE avaliou pacientes com bacteremia sem indicação clínica para cobertura anaeróbica (como fontes intra-abdominais). Mesmo sem indicação, 74% receberam antibióticos com espectro antianaeróbico nos primeiros dias.

  • O uso de antianaeróbicos associou-se a maior mortalidade em 90 dias.

  • O risco é dependente do tempo: quanto mais dias de exposição, maior a mortalidade.

  • Microbioma destruído: Em subanálise de swab retal, houve redução significativa da abundância relativa de anaeróbios obrigatórios e perda de diversidade.

➡️ O “pecado por excesso” na UTI não é inofensivo. Cobrir anaeróbios sem precisar altera drasticamente o microbioma intestinal, reduzindo bactérias protetoras.

➡️ Quatro dias de tratamento antianaeróbico já demonstraram aumento significativo na mortalidade quando comparado ao grupo não exposto.

➡️ Descalonar é preciso: se a bacteremia é por um patógeno que não exige cobertura anaeróbica (ex: E. coli urinária), mude para uma terapia poupadora de anaeróbios (ex: Ceftriaxona) o mais rápido possível.

Evidência: Estudo prospectivo caso-controle | J Antimicrob Chemother

A profilaxia com fluoroquinolonas, especialmente Levofloxacino, é comum no manejo de pacientes hematológicos de alto risco com neutropenia prolongada. Mas, com a resistência de Gram-negativos (BGN) subindo, ela tem falhado mais. Culpa só da resistência?

Avaliando 120 episódios de neutropenia em pacientes hematológicos recebendo 750mg/dia de Levofloxacino. O foco foi ver se os pacientes atingiam o alvo Farmacocinético/Farmacodinâmico (PK/PD) adequado (fAUC/MIC ≥ 80).

  • Apenas 11.7% dos pacientes atingiram o alvo terapêutico padrão (fAUC/MIC ≥ 80).

  • A neutropenia profunda (< 100 cels/mm³) foi o maior preditor clínico de falha.

  • Falhar no alvo PK/PD esteve intimamente ligado à colonização prévia por BGN resistente ao Levofloxacino. Ou seja, a falha não é necessariamente subdose no sangue, mas uma MIC do patógeno colonizante tão alta que 750mg nunca vão atingir o alvo.

➡️ Pacientes com neutropenia profunda e colonização por BGN resistente a quinolonas praticamente não se beneficiam da profilaxia padrão.

➡️ Aumentar a dose ou fazer acompanhamento sérico de nível da droga não vai resolver se a MIC da bactéria colonizante for alta (> 2 mg/L).

➡️ Conhecer a ecologia local e os exames de vigilância de swab retal do paciente é fundamental. Profilaxia “one-size-fits-all” em onco-hematologia está com os dias contados.

Você saberia dizer se o seu paciente idoso com alteração mental e exame alterado realmente precisa de antibiótico?

O diagnóstico de infecção na pessoa idosa é cheio de pegadinhas no dia a dia. Sintomas inespecíficos e exames alterados levam diariamente a prescrições desnecessárias que poderiam ser evitadas.

Neste episódio do InfectoCast, William conversa com a Dra. Lígia Garcia ( Chefe departamento Geriatria do Hospital BP/SP) para desmistificar o diagnóstico e mostrar como o raciocínio clínico faz toda a diferença.

Só a gente te conta:

• Por que bacteriúria assintomática não é sinônimo de infecção urinária• Como avaliar delirium e alteração do estado mental no paciente idoso• A importância do estado funcional e cognitivo basal

• Quando realmente suspeitar de infecção e como evitar prescrições desnecessárias

• O papel do stewardship antimicrobiano na geriatria

• Erros diagnósticos frequentes e como aplicar evidências na prática

Evidência: Carta ao NEJM | Alertas do Ministério da Saúde (Agosto 2026)

A gente pisca, e as doenças erradicadas voltam. E voltam cobrando a conta de coberturas vacinais insuficientes.

Apenas entre 2025 e abril de 2026, um surto regional na Carolina do Sul (EUA) registrou incríveis 997 casos, apesar de cobertura vacinal regional em torno de 88,9% - o que mostra como o R0 do sarampo não perdoa falhas mínimas na imunidade de rebanho. O que chamou a atenção: mais de 25% dos pacientes apresentaram sintomas gastrointestinais, algo menos clássico. Houve dois casos graves de encefalite e grande taxa de infecções secundárias (pneumonia e otite).

O Ministério da Saúde acaba de determinar a intensificação da vacina Tríplice Viral na capital paulista, Guarulhos e São Bernardo do Campo. Motivo: aumento de casos na região. O foco é indiscriminado: 6 meses a 59 anos.

➡️ A Dose Zero: Bebês de 6 a 11 meses são o alvo mais vulnerável e DEVEM receber essa dose extra.

➡️ Quem NÃO pode tomar (vírus vivo atenuado): Gestantes, pacientes com imunossupressão grave (HIV com CD4 < 200, recém-transplantados, altas doses de corticoide) e oncológicos ativos (especialmente com tumores de medula/linfoma).

➡️ O que NÃO é contraindicação: Alergia a ovo! Pessoas com alergia a ovo podem e devem vacinar. Pacientes HIV+ controlados (CD4 ≥ 200) também devem ser vacinados.

➡️ Antianaeróbicos na bacteremia: Só use se tiver foco que justifique. Prescrever empiricamente para “cobrir tudo” aumenta a mortalidade em 90 dias destruindo o microbioma.

➡️ Levofloxacino na neutropenia: Dose fixa de 750mg falha flagrantemente no alvo PK/PD se o paciente tiver colonização por BGN resistente.

➡️ Sarampo: Sintomas gastrointestinais devem levantar suspeita em surtos. A vacinação em SP está intensa. Cuidado redobrado com a triagem de imunossuprimidos para a vacina de vírus vivo.

Se essa edição fez você pensar duas vezes antes de iniciar Tazocin para uma infecção urinária grave ou reavaliar o cartão de vacina do seu paciente, já cumpriu o papel.

Até a próxima Dose.

Dr William Dunke
Diretor Cientifco InfectoCast

O encontro presencial do InfectoCast está chegando.

Nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo/SP, vamos reunir profissionais de saúde para dois dias de atualização científica, discussão de casos clínicos, workshops e muito networking em infectologia. Se você acredita que aprender também é trocar experiências, fazer conexões e discutir os desafios reais da prática, esperamos você no InfectoXpert 26.

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Read the original on infectocast.substack.com

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