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Dose de Ataque News · Jul 28, 2026

Dose de Ataque #191 - A injeção que dói mais, o fungo invasivo, o antibiótico inovador e a enzima da Amazônia

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Yara Aline Silveira · Dose de Ataque News

E aí, tudo bem?

Essa semana a edição traz um panorama que nos lembra de que não existe “receita de bolo” pronta na infectologia: as características individuais do paciente e do patógeno são absolutamente determinantes.

➡️ CAB+RPV injetável: Pessoas atribuídas mulheres ao nascer descontinuam o tratamento de longa ação para o HIV muito mais que pessoas designadas homens. Reações no local da injeção, barreiras logísticas e gravidez puxam a fila dos motivos.

➡️ Isavuconazol em infecções fúngicas invasiva: Em um estudo de mundo real, o Isavuconazol apresentou menor mortalidade ajustada que o Voriconazol e menos toxicidade que a Anfotericina B.

➡️ Cefiderocol: Não temos no Brasil essa droga, mas não podemos esquecer dela - Pegamos um estudo de vida real, pra entender por que essa cefalosporina funciona muito bem para Pseudomonas e CRE, mas o cenário clínico com Acinetobacter ainda exige cuidado.

➡️ Deficiência de G6PD no Norte: A variante africana A- domina os casos de deficiência enzimática na região endêmica para malária, variando conforme a ancestralidade.

Tem estudo de coorte na Itália avaliando a vida real dos injetáveis, comparação de antifúngicos na prática clínica, estudo genético na Amazônia brasileira e revisão sobre um “velho” antibiótico para termos “saudade do que a gente não viveu” .

Bora.

Tipo de evidência: Estudo de coorte observacional retrospectivo de mundo real | International Journal of Infectious Diseases

A terapia injetável de longa duração Cabotegravir + Rilpivirina (CAB+RPV) é uma grande promessa. Mas será que funciona igual para todo mundo? Esse estudo investigou as diferenças de sexo designado no nascimento na persistência do tratamento no mundo real.

Foram avaliadas 289 pessoas vivendo com HIV virologicamente suprimidas que iniciaram Cabotegravir + Rilpivirina de longa duração (CAB+RPV LA) em Milão, Itália. O tempo mediano de acompanhamento foi de 28,8 meses.

  • A taxa geral de descontinuação do tratamento foi de 12,4%.

  • O sexo feminino (atribuído ao nascimento) foi independentemente associado a um maior risco de interrupção em comparação ao masculino (25,9% vs 9,1%).

  • A principal causa de descontinuação relacionada ao tratamento foram reações no local da injeção, que ocorreram mais frequentemente nas mulheres atribuídas ao nascimento (10,3% vs 3,5%).

  • A falha virológica foi extremamente rara, ocorrendo em apenas 1,0% de toda a coorte.

A percepção da dor, a espessura do tecido subcutâneo, a gravidez e as barreiras estruturais (como a logística de ir à clínica) impactam desproporcionalmente a pesssoas designadas mulheres ao nascimento e devem ser antecipadas pelo médico assistente.

➡️ A terapia injetável de longa duração tem altíssima eficácia virológica no mundo real.

➡️ O sexo feminino (atribuído ao nascimento) apresenta um risco significativamente maior de abandonar o uso do CAB+RPV LA.

➡️ Reações adversas locais, barreiras logísticas e gravidez são os principais fatores para a descontinuação.

➡️ O suporte ao paciente ao iniciar a terapia injetável precisa ser individualizado e proativo.

Referência: COSSU, M. V. et al. International Journal of Infectious Diseases, 2026. DOI: 10.1016/j.ijid.2026.109001.

Da virologia para a micologia: como escolher o melhor antifúngico em infecções invasivas?

Tipo de evidência: Estudo de coorte observacional retrospectivo de centro único | European Journal of Clinical Microbiology & Infectious Diseases

As infecções fúngicas invasivas (IFI) continuam sendo uma causa significativa de morbidade e mortalidade. Isavuconazol (ISA), Voriconazol (VCZ) e Anfotericina B (AMB) são os pilares do tratamento. Mas como eles se comparam no mundo real?

Foram avaliados 299 pacientes com doença fúngica invasiva provada ou provável na prática clínica de rotina. Os pacientes receberam Isavuconazol (n=40), Anfotericina B ou derivados (n=33) ou Voriconazol (n=226).

  • A mortalidade bruta em 42 dias foi de 5,0% (ISA), 24,2% (AMB) e 12,8% (VCZ).

  • Após o ajuste para desequilíbrios basais e patógenos, o Isavuconazol foi associado a uma mortalidade significativamente menor do que o Voriconazol em 42 e 84 dias.

  • Os pacientes tratados com ISA apresentaram taxas menores de eventos adversos renais e hepáticos em comparação com os tratados com formulações de AMB.

  • Na análise focada em Mucormicose, o Isavuconazol também demonstrou atividade clinicamente significativa, sendo uma opção viável para esses pacientes.

➡️ O Isavuconazol associou-se a uma menor mortalidade ajustada do que o Voriconazol na prática do mundo real.

➡️ Apresenta um perfil de segurança superior, com menos eventos adversos hepáticos e renais que a Anfotericina B.

➡️ Para Infecções Fúngicas Invasivas, o Isavuconazol oferece um balanço muito favorável entre efetividade e tolerabilidade.

Referência: QIU, Y. et al. European Journal of Clinical Microbiology & Infectious Diseases, 2026. DOI: 10.1007/s10096-026-05598-y.

Neste episódio do InfectoCast, reunimos dois dos maiores nomes da infectologia brasileira para discutir a verdadeira origem do HIV e a história por trás da epidemia global. Recebemos o Dr. Mauro Schechter e o Dr. Ricardo Diaz, referências em pesquisas sobre HIV/AIDS, para uma conversa esclarecedora sobre como o vírus deu o salto evolutivo dos primatas para os seres humanos.

Ao longo da conversa, os dois médicos infectologistas desconstroem o estigma e o mito de que a transmissão ocorreu por relações sexuais entre humanos e macacos, demonstrando que o contágio original se deu por inoculação durante a caça e o manuseio de carne de primatas. Eles traçam a linha do tempo do vírus, desde o seu surgimento na década de 1920 na África até a sua expansão impulsionada pela urbanização acelerada, guerras civis e o uso de seringas de vidro não esterilizadas em tratamentos médicos da época.

O episódio também explora as complexidades biológicas dos retrovírus, explicando as origens distintas do HIV-1 (derivado dos chimpanzés) e do HIV-2 (derivado dos macacos mangabey). Além disso, os especialistas analisam como a diversidade genética e os diferentes subtipos do vírus (como os subtipos B e C) impactam diretamente a precisão dos diagnósticos, a eficácia dos tratamentos antirretrovirais e a barreira genética contra resistências.

Com a autoridade de quem acompanha e molda a pesquisa científica há décadas, Schechter e Diaz revelam os fascinantes detalhes epidemiológicos e filogenéticos que transformaram uma zoonose local em uma das maiores questões de saúde pública do mundo.

Saindo da micologia e indo para as bactérias MDR, onde um novo “velho” antibiótico também mostra que conhecer o patógeno é tudo.

Tipo de evidência: Revisão narrativa de ensaios clínicos e estudos de mundo real | Journal of Infection

O Cefiderocol age como um “cavalo de Troia”, usando o próprio sistema de captação de ferro da bactéria para invadi-la. Mas onde ele realmente brilha no mundo real?

  • Em ensaios clínicos, o Cefiderocol mostrou não inferioridade em relação aos tratamentos padrão para infecções do trato urinário complicadas (cUTI), pneumonia nosocomial e infecções de corrente sanguínea por Gram-negativos.

  • Na vida real, a droga tem se mostrado um excelente recurso para pacientes críticos, apresentando resultados clínicos mais consistentes para Pseudomonas aeruginosa e Enterobacterales resistentes a carbapenêmicos (CRE).

  • Contudo, há heterogeneidade e mortalidade mais alta em certos subgrupos, particularmente nas infecções por Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos (CRAB) e microrganismos produtores de metalo-beta-lactamases (MBL).

➡️ Cefiderocol é uma ótima escolha para infecções graves por Pseudomonas e CRE quando há poucas opções.

➡️ É prudente ter cautela ao utilizá-lo contra Acinetobacter baumannii, reservando-o para casos onde outras terapias falham ou são inviáveis.

➡️ O início precoce do tratamento com Cefiderocol parece estar associado a melhores desfechos clínicos.

Referência: DI BARTOLOMEO, F. et al. Journal of Infection, 2026. DOI: 10.1016/j.jinf.2026.106821.

E para fechar, um olhar para nossa realidade amazônica.

Tipo de evidência: Estudo transversal observacional | Brazilian Journal of Infectious Diseases

A deficiência de G6PD pode causar hemólise severa quando o paciente toma medicamentos antimaláricos. O mapeamento genético regional é essencial para tratar a malária com segurança.

  • Pesquisadores avaliaram variantes genéticas da G6PD em populações endêmicas dos estados do Acre, Amazonas e Rondônia, incluindo 481 indivíduos.

  • Nesse grupo de base populacional, as frequências alélicas foram de 7,0% para 376G e 3,2% para 202A.

  • Entre os pacientes com deficiência enzimática detectada préviamente, 95,8% carregavam a variante africana A- (mutações 376G/202A).

  • As maiores frequências foram registradas em Porto Velho, refletindo a maior ancestralidade genética africana nessa subpopulação.

➡️ A variante africana A- é a principal responsável pela deficiência de G6PD nas áreas avaliadas da região Norte do Brasil.

➡️ A vigilância genética constante e a triagem populacional são passos fundamentais para políticas de tratamento de malária mais seguras.

Referência: LANDEIRA, L. F. L. et al. Braz J Infect Dis. 2026. DOI: 10.1016/j.bjid.2026.105893.

As particularidades do paciente.

➡️ CAB+RPV no HIV: Excelente eficácia, mas mulheres sofrem mais com reações no local da injeção e descontinuam o esquema com maior frequência.

➡️ Isavuconazol: Bateu o Voriconazol na mortalidade ajustada em vida real e tem perfil renal e hepático mais seguro que a Anfotericina B.

➡️ Cefiderocol: Excelente contra Pseudomonas e CRE. Contra Acinetobacter, prefira outras vias se possível.

➡️ G6PD na malária: Variante africana A- domina os casos de deficiência enzimática no Norte do Brasil. Triar antes do antimalárico segue indispensável.

Se essa edição te fez lembrar de verificar o acesso logístico do seu paciente antes de prescrever injetáveis ou de considerar o Isavuconazol pela segurança, já cumpriu o papel.

Até a próxima Dose.

Dr. William Dunke

Diretor Científico | InfectoCast

O encontro presencial do InfectoCast está chegando.

Nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo/SP, vamos reunir profissionais de saúde para dois dias de atualização científica, discussão de casos clínicos, workshops e muito networking em infectologia. Se você acredita que aprender também é trocar experiências, fazer conexões e discutir os desafios reais da prática, esperamos você no InfectoXpert 26.

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Read the original on infectocast.substack.com

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