E aí, tudo bem?
Essa semana a edição traz um cardápio focado em dogmas quebrados e propostas terapêuticas transformadoras. Vamos desmistificar o impacto de medicamentos sintomáticos antes da imunização, trazer esperança real para uma infecção do SNC historicamente letal, mapear a crise e a solução para o controle global das hepatites e relembrar apresentações clínicas inusitadas de uma velha micose conhecida.
➡️ Vacina da Gripe: tomar paracetamol ou AINEs antes da vacinação não reduz a eficácia imunológica e nem clínica do imunizante.
➡️ LMP e Imunoterapia: linfócitos T específicos de banco (terceiros) contra o vírus BK alcançam altas taxas de resposta no tratamento da leucoencefalopatia multifocal progressiva.
➡️ Hepatites virais nas prisões: diretrizes globais escancaram que a eliminação do HCV e HBV requer políticas agressivas de testagem e redução de danos no sistema prisional.
➡️ Paracoccidioidomicose (PCM): atenção redobrada com lesões palpebrais, genitais e osteoarticulares que mimetizam câncer ou outras DSTs.
Bora.
Tipo de evidência: Análise post-hoc de Ensaio Clínico Randomizado | The Journal of Infectious Diseases
Existe um receio clássico nos consultórios de que o uso profilático de analgésicos ou antitérmicos para prevenir dor local ou febre possa “cortar” ou atenuar a resposta do sistema imune à vacina.
Uma análise derivada do estudo PAIVED avaliou a soroconversão e a eficácia clínica da vacina contra a gripe (influenza) em adultos que relataram o uso de analgésicos (principalmente paracetamol e AINEs como o ibuprofeno) nas 24 horas anteriores à imunização.
O uso de analgésicos pré-vacinação não demonstrou nenhum impacto negativo na imunogenicidade. Não houve diferenças significativas nas taxas de soroconversão nem nas mudanças dos títulos de anticorpos. Além disso, a incidência clínica de síndromes gripais ou a infecção confirmada por influenza foi igual entre os grupos.
O estudo tranquiliza a prática diária: prescrever ou liberar o uso profilático de paracetamol ou ibuprofeno para pacientes com medo da reatogenicidade da vacina sazonal da gripe não prejudica a eficácia do imunizante.
➡️O uso de paracetamol ou AINEs 24 horas antes da vacina contra o influenza não afeta negativamente a resposta de anticorpos.
➡️A incidência de gripe confirmada laboratorialmente não foi maior nos pacientes que utilizaram os analgésicos profiláticos.
➡️A orientação sobre a vacina deve ser individualizada, focando no conforto e adesão do paciente.
Referência: SKELLINGTON, C. N. et al. The Effect of Prevaccination Analgesics on Influenza Vaccine Immunogenicity and Effectiveness. The Journal of Infectious Diseases, 2026. DOI: 10.1093/infdis/jiag334.
Tipo de evidência: Estudo Clínico de Fase 2 | Clinical Infectious Diseases
A LMP, infecção desmielinizante causada pelo poliomavírus JC (JCV), sempre foi uma das complicações mais temidas e implacáveis em imunossuprimidos. Até agora, a reversão dependia de medidas heroicas e frequentemente ineficazes de reconstituição imune.
Pesquisadores avaliaram a infusão de Linfócitos T específicos contra o vírus BK (BK-VSTs) de doadores saudáveis (terceiros), parcialmente compatíveis por HLA, em 37 pacientes com LMP sintomática e em progressão. Células T contra o vírus BK apresentam reação cruzada que combate eficientemente o vírus JC.
Uma taxa impressionante de 56,8% dos pacientes atingiu resposta global, sendo que 43,2% alcançaram resposta completa (eliminação virológica e estabilização/melhora neurológica). O clareamento do vírus do líquor foi rápido, com mediana de resposta ocorrendo no dia 23 pós-infusão.
Para os pacientes que atingiram reposta global logo após a primeira infusão (no D28), a sobrevida em 1 ano foi de avassaladores 93,3%, enquanto nenhum não-respondedor sobreviveu (0%). O tratamento foi seguro, não gerou doença enxerto contra hospedeiro (GVHD) e não exigiu produtos autólogos lentos de serem fabricados. É uma revolução iminente para o resgate de pacientes com LMP.
➡️O uso de células T alogênicas específicas para o vírus (BK-VSTs) prontas para uso (”off-the-shelf”) é seguro e potencialmente salva a vida de portadores de LMP.
➡️A redução da carga viral no líquor e a melhora radiológica na ressonância já ocorrem de maneira aguda, no primeiro mês de tratamento.
➡️Pacientes com LMP por malignidade hematológica e alta carga viral liquórica basal apresentam menor chance de resposta.
Referência: OLSON, A. et al. Treatment of Progressive Multifocal Leukoencephalopathy with Third-Party Allogeneic BK Virus T Cells. Clinical Infectious Diseases, 2026. DOI: 10.1093/cid/ciag404.
O episódio 200 do InfectoCast é uma celebração da nossa história e, principalmente, daquilo que nos une: a paixão pela infectologia.
Neste episódio especial, Beatriz, João, Klinger, Stefânia, Jordan, William, Carolina e Ayrton compartilham experiências pessoais, histórias marcantes e os motivos que fizeram cada um escolher essa especialidade. Ao longo da conversa, surgem temas como propósito, raciocínio clínico, comunicação, trabalho multidisciplinar, ciência, educação médica e o impacto social das doenças infecciosas.
Muito além de discutir antibióticos ou microrganismos, este episódio mostra como a infectologia está presente em praticamente todas as áreas da medicina, exigindo curiosidade constante, colaboração e uma visão ampla do paciente.
Um bate-papo leve, emocionante e cheio de histórias que celebram os 200 episódios do InfectoCast e a comunidade construída ao longo dessa jornada.
Tipo de evidência: Diretrizes Globais Baseadas em Evidência (GRADE) | The Lancet Infectious Diseases
Globalmente, mais de 11,5 milhões de pessoas estão encarceradas, compondo uma população que concentra as maiores taxas mundiais de hepatite B e C. Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) traçar ousadas metas de eliminação até 2030, poucos países focam de verdade onde a transmissão e o reservatório gritam: dentro das penitenciárias.
A Lancet Infectious Diseases publicou as primeiras Diretrizes Globais de Prática para Hepatites em Prisões, elaboradas com revisão sistemática de 703 artigos e metodologia GRADE. O material crava 30 recomendações abrangendo testagem, terapia, redução de danos e monitoramento.
A diretriz estabelece que apenas políticas de “opt-out” (testagem universal automática na admissão do presídio) com testes rápidos (Point-of-Care ou teste reflexo de RNA) são eficazes em reverter a cascata de perdas no diagnóstico. Além disso, instituir programas de seringas limpas (NSPs) e terapia de substituição por opioides (OAT) nas unidades é obrigatório para reduzir a enorme taxa de reinfecção.
A eliminação do HCV requer a disponibilização de antivirais de ação direta (DAAs) pangenotípicos de fácil posologia para todos os infectados no presídio, caracterizando o “tratamento como prevenção”. Garantir que o paciente leve as medicações na mochila ou seja referenciado rapidamente ao ser libertado é a linha que separa o sucesso da falha terapêutica.
➡️Deve-se realizar testagem universal (opt-out) para HCV e HBV na admissão carcerária.
➡️O uso de exames rápidos e o início imediato de DAAs pangenotípicos precisam ser o padrão ouro.
➡️A continuidade do tratamento antiviral e da terapia agonista de opioides (OAT) após a soltura é crítica.
Referência: SHEEHAN, Y. et al. Best practice guidelines for viral hepatitis service delivery in prisons. The Lancet Infectious Diseases, 2026. DOI: 10.1016/S1473-3099(23)00630-9.
Tipo de evidência: Estudo Transversal Retrospectivo | Brazilian Journal of Infectious Diseases
O Paracoccidioides spp. causa nossa clássica doença fúngica endêmica, muito marcada por infiltrado pulmonar “em asa de borboleta” e lesões mucocutâneas periorais. Porém, o fungo é insidioso e também migra para áreas raras, confundindo os médicos e simulando câncer ou infecções sexualmente transmissíveis.
Os pesquisadores do Espírito Santo revisaram dados de 47 anos, filtrando 33 casos de paracoccidioidomicose (PCM) com envolvimento raro: palpebral (n=11), genital (n=10) e osteoarticular (n=12).
O acometimento palpebral e genital afeta predominantemente o mesmo perfil clássico: homens de meia-idade, agricultores e com histórico de etilismo/tabagismo. Curiosamente, todos os casos genitais e 72,7% dos palpebrais tinham associação com focos pulmonares. As lesões eram frequentemente úlceras de bordas irregulares e fundo necrótico. Já a forma osteoarticular afetou indivíduos bem mais jovens, cursando com lesões osteolíticas radiológicas que lembravam muito osteomielite e febre/emagrecimento graves.
➡️Sempre investigar PCM diante de úlceras genitais ou palpebrais atípicas persistentes em pacientes epidemiologicamente expostos.
➡️A forma osteoarticular pode ser o quadro primário de indivíduos muito jovens da forma aguda/juvenil da doença.
➡️O rendimento da histopatologia dessas áreas é alto (beira os 100%), sendo o padrão-ouro para afastar lesão neoplásica primária e fechar diagnóstico.
Referência: AGRIZZI, L. C. et al. Rare clinical presentations of paracoccidioidomycosis: Epidemiological, clinical, and microbiological insights from a Brazilian reference center. Brazilian Journal of Infectious Diseases, 2026. DOI: 10.1016/j.bjid.2026.105825.
➡️Vacina da Gripe: Usar paracetamol ou ibuprofeno antes da imunização não atenua o poder da vacina em adultos.
➡️LMP: Terapia inovadora com banco de linfócitos T de terceiros reverte uma doença fatal em mais de 40% das vezes.
➡️Hepatites: OMS não chegará à meta de erradicação sem adotar testagem universal e terapia rápida nos presídios.
➡️PCM: Mantenha alto índice de suspeita clínica para úlceras fúngicas mimetizando DSTs na genitália e lesões líticas atípicas.
Até a próxima Dose.
Dr. William Dunke
Diretor Científico | InfectoCast
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Nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo/SP, vamos reunir profissionais de saúde para dois dias de atualização científica, discussão de casos clínicos, workshops e muito networking em infectologia. Se você acredita que aprender também é trocar experiências, fazer conexões e discutir os desafios reais da prática, esperamos você no InfectoXpert 26.
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