Pesssoal, aproveitando que estamos chegando ao último dia de CONARH onde o WallJobs está com diversas palestras e Workshops sobre IA para diversos temas de RH, estou liberando gratuitamente o prefácio abaixo da segunda edição do livro, onde temos participações especiais de diversos profissionais do setor.
Aproveitem para visitar e participar dos nossos workshops de IA para RH no Lab de IA do WallJobs, segue no link a agenda do dia:
https://walljobs-conarh-lab-ia-para-rh.lovable.app/
Agora segue abaixo o Prefácio:
Se você está lendo este livro com a preocupação de que a inteligência artificial vá esvaziar o RH e deixar tudo menos humano, posso adiantar a tese antes mesmo da história começar: é o contrário. Bem aplicada, a IA é o que devolve ao RH o lugar que ele sempre deveria ter ocupado, perto das pessoas e perto da estratégia, e não enterrado em currículos empilhados, planilhas intermináveis e processos que ninguém mais aguenta defender. Com a tecnologia certa, dá para entrevistar mais candidatos com mais profundidade, hiperpersonalizar a jornada de quem entra e de quem fica na empresa, e parar de gastar energia humana em tudo que não exige sensibilidade humana.
Antes de chegar nos prompts, nos sistemas e nas estratégias, quero dividir com você de onde vem essa convicção. Não é uma trajetória extraordinária, mas é a que explica a forma como penso sobre carreira, tecnologia e oportunidade. E talvez, se você está começando algo agora ou se sente fora do roteiro que parece pronto, ela sirva para lembrar que o caminho raramente é tão linear quanto parece de fora.
Comecei a faculdade de Relações Internacionais cheio de planos e logo bati de frente com uma realidade conhecida por muita gente: conseguir estágio era um pesadelo. Em vários processos, eu não passava nem das primeiras telas do cadastro. As empresas pareciam funcionar num código que ninguém tinha me ensinado, e eu não tinha o tal “QI”, o Quem Indica, que costuma abrir portas antes do currículo. No fim da graduação, tive a sorte de fazer a Harvard Summer School em marketing, e foi ali que minha cabeça virou. Voltei para o Brasil decidido a entrar como trainee numa grande empresa. Não entrei. Na maioria das seleções, eu sequer avançava nos testes de raciocínio, aqueles que privilegiam um perfil bem específico, em geral ligado às ciências exatas, e que hoje a gente já entende que dizem pouco sobre o potencial real de um candidato.
No último dia de 2011, com 21 anos, eu estava formado, desempregado, e via gente do meu círculo entrando exatamente nas vagas que eu queria. Foi um momento pesado. Eu me comparava muito naquela época, achava que carreira precisava ser uma linha ascendente e ininterrupta, e quando não era eu me sentia atrasado, fracassado, velho demais com vinte e poucos anos. Olhando para trás, percebo que boa parte desse peso vinha de conselhos de carreira tratados como verdade absoluta, quando na prática não existe fórmula única.
Decidi recomeçar. Voltei para a faculdade do zero, dessa vez em Administração, com o plano de concluir em dois anos e usar esse tempo para construir tudo que ainda faltava. O primeiro dia foi duro. Enquanto colegas da turma anterior já estavam em empregos que pareciam impressionantes nas redes, eu sentava ao lado de calouros recém-saídos do ensino médio. Foi constrangedor por uns dias, até eu lembrar de algo que tinha trazido dos Estados Unidos: deixar de lado o que os outros estão fazendo e focar no que precisa ser feito. Um passo atrás para dar dois à frente.
Fui ser estagiário de novo, agora na Novartis. Tentei tirar do papel várias ideias de empresa dentro da faculdade, e todas fracassaram. Foi quando criei um grupo no Facebook chamado Trampos ESPM, com uma proposta simples: reunir vagas de estágio e trainee num lugar onde qualquer aluno pudesse acessar. A motivação era pessoal. Eu tinha passado a graduação inteira sentindo que as oportunidades circulavam por dentro de redes fechadas, e queria mudar isso pelo menos para a galera ao meu redor. O grupo cresceu rápido, virou referência e atraiu gente de outras faculdades. Em paralelo, começou a circular o boato de que a universidade queria tirar o grupo do ar.
Foi aí que peguei R$ 3.500 que tinha guardado e construí a primeira versão do WallJobs. O nome veio do mural do Facebook, o “wall”, onde tudo tinha começado. No início, só entrava quem tivesse e-mail acadêmico da ESPM, e os próprios alunos podiam compartilhar vagas diretamente na plataforma. O marketing dos primeiros meses foi totalmente de guerrilha. Eu colava adesivos do WallJobs nos banheiros das festas universitárias, distribuía panfletos, organizava adesivaços nas faculdades e levava uma lousa para dentro dos campi convidando as pessoas a escrever ali o sonho profissional delas. Era barato. Era manual. E funcionava. Logo apareceram pedidos de gente da FGV, Insper, USP, Mackenzie e outras, e criamos um sistema de pré-cadastro com representantes locais para liberar cada nova faculdade. Junto vieram sinais claros de que estávamos no caminho certo: notificações extrajudiciais de quem queria manter vagas restritas a uma ou outra faculdade de elite, e até uma estagiária de uma grande empresa de tecnologia falando em processo porque vagas internas dela apareciam no nosso grupo. Cada um desses episódios reforçava o motivo do projeto existir: a escola que alguém cursou não deveria definir o acesso dela às oportunidades.
Foi conversando com candidatos, empresas e universidades que apareceram dores maiores. A documentação de estágio, por exemplo, era feita em papel, em quatro vias, e levava entre um e dois meses para sair. Em 2015, lançamos o primeiro sistema do Brasil a digitalizar contratos de estágio com assinatura eletrônica. O que durava semanas passou a ser resolvido em um dia. A ESPM, que apoiou o WallJobs desde o começo, foi uma das primeiras instituições a usar o sistema, ao lado da Belas Artes. A pandemia depois acelerou tudo, porque éramos uma das poucas empresas do segmento já totalmente digital. De lá para cá foram mais de onze anos, mais de 500 empresas clientes, mais de 2 milhões de candidatos na base, e a convicção crescente de que o RH é o coração de qualquer empresa que funciona de verdade.
A virada mais recente veio no dia 9 de dezembro de 2022. Foi o dia em que o Brasil perdeu para a Croácia na Copa, e foi também o dia em que recebi de um primo um convite de casamento escrito pelo ChatGPT, com um aviso de que aquela era a primeira mensagem gerada por IA que ele estava mandando para a família. Fui testar a ferramenta na hora. Foi quase um reconhecimento. Encontrei algo que eu estava esperando sem saber. Em 2024, criei o WallJobs AI Labs, um laboratório interno de inteligência artificial. A regra era simples: pegar cada processo operacional e perguntar se a IA podia fazer aquilo melhor, mais rápido ou com menos erro. Se a resposta fosse sim, a gente construía. Não usamos IA por IA. Cada solução nasceu de uma dor real, de algo que tirava o sono de alguém da equipe. O resultado foi 40% de otimização na operação, zero demissões por causa da IA e várias promoções de gente que antes vivia em tarefa repetitiva e foi liberada para pensar, planejar, liderar.
Em 2025 veio a decisão mais difícil. Cortei diversos produtos de consultoria em recrutamento e seleção que geravam mais de 2 milhões de reais por ano em receita. Produtos consolidados, com clientes satisfeitos, que pagavam as contas. Cortei tudo para apostar em IA. Foi o ano mais duro da história da empresa. Teve noite sem dormir. Teve mês apertado. Teve muita gente me dizendo que eu estava jogando fora o que funcionava. Mas o futuro do WallJobs não estava em consultoria manual, e sim em ser infraestrutura de IA para o RH. Daí veio o primeiro entrevistador speech-to-speech do Brasil, funcionando por WhatsApp, telefone e vídeo, ferramentas de hunting para busca ativa, o Wally, que é um ChatGPT do RH disponível no WhatsApp e em outras plataformas, e projetos de agentes de IA dentro das empresas. Hoje nos consideramos a “AWS do RH”, fornecendo a tecnologia que empresas e consultorias do setor usam para operar. Fomos uma das primeiras companhias do nosso segmento a assumir a postura de IA First, e é justamente essa mentalidade que este livro quer ajudar você, que trabalha em RH, a desenvolver.
O que veio antes da IA importa. Foram anos aprendendo na prática como o mercado de trabalho funciona, onde ele falha e como a tecnologia pode reduzir a distância entre quem busca oportunidade e quem oferece. O que você vai encontrar nos próximos capítulos parte desse acúmulo e de uma promessa concreta: ao virar a última página, você deve estar conseguindo desenhar processos em que cada candidato receba a entrevista profunda que merece, cada colaborador tenha uma experiência hiperpersonalizada do primeiro contato até a saída, e você ocupe o lugar estratégico, perto da diretoria e perto das pessoas, longe daquilo que máquina já faz melhor do que ser humano.
O paradoxo é simples: quanto mais IA bem aplicada entra no processo, mais espaço sobra para o que só uma pessoa consegue fazer. RH bom nunca foi sobre processo. Sempre foi sobre gente. A IA, bem usada, é o que finalmente devolve o RH para esse lugar. Quando o WallJobs começou, eu queria que o candidato sem QI tivesse a mesma chance dos outros. A IA permite que isso vire regra em qualquer empresa.
Este é o livro que eu gostaria de ter tido em mãos quando estava começando.
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