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Prescrita · Aug 6, 2026

Pai, pais, paz?

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Hupokhondría · Prescrita

Táscia Souza

Não me lembro de nenhuma festa de dia dos pais na escola; talvez, pensando aqui, porque minha mãe nem me levasse à aula (será isso?) para me poupar do constrangimento. Mas me lembro de num ano fazer o presente escolar da data para o meu padrinho, noutro para meu padrasto. Além deles, fui colecionando pela vida uma porção de pais afetivos: o Zé, meu professor de matemática; o Zé, meu orientador e diretor de teatro; o Zé, consultor jurídico da confederação em que trabalhei por 11 anos. Todos Josés, o pai-que-cria por excelência da mitologia cristã. Claro que a ausência me rendeu também paixões em troca de migalhas e um tanto de coisa que eu deveria um dia levar para o divã de um analista. Seja como for, esse tanto de coisa me faz acreditar também que apostar na boa relação do meu filho com o pai dele — embora seja cruel delegar esse trabalho (mais esse!) às mulheres para as quais é impossível fazer a mesma aposta — é também um jeito de cuidar dos vazios da criança que eu fui.

Gustavo Burla

Cresci brincando no clube, com amigos de tantos tempos e com outros dali mesmo. Tinha um amigo de escola, colega ainda na época, amigo hoje, que cresceu no mesmo clube. Quando ele estava no clube com os primos o carrossel ficava pequeno. Éramos dezenas de crianças onde deveriam estar, apertadas, doze. No centro, acelerando, ficavam quatro. Era o melhor lugar, ou o mais seguro, mas não se podia errar o tamanho do passo curto ou o empurrador de trás te chutava. Nos cavalos e nos banquinhos se apertavam as doze crianças permitidas, geralmente as menores nos bancos, esmagadas pela força centrífuga. De pé, agarrados aos ferros dos cavalos ou até pendurados no teto, com os corpos lançados para fora como roupa ventando no varal, outros tantos, por vezes mais oito ou dez. Quem tentasse entrar durante aquele giro veloz era geralmente arremessado para longe e ralava-se todo na areia do parque. Já fui. O jeito era levantar como quem não percebeu o que aconteceu e seguir mancando e sangrando para o balanço como se ele tivesse sido sempre a primeira opção. Estive em todos os lugares do carrossel. Estou vivo.

Levei meu filho para o clube. Tanto tempo depois daquelas brincadeiras no parquinho. Tinha um outro parquinho perto da piscina. De plástico, todo colorido. Explorei com ele o espaço. Quatro anos de idade, pede ajuda, tem receio de tudo no princípio. Acompanhei na escada. Sem subir, tudo de plástico, só para criança. Incentivei a escorregar, a descer pelo tubo. Depois a subir pelo escalador. Correu em cima, testou tudo. Era subir por algum lugar e descer por outro. Três ou quatro possibilidades de subida e outras tantas para descer. Cansou logo.

Lá em cima, no outro parquinho, tinha um trepa-trepa enorme. Enorme para crianças, o que eu era quando brincava lá. Realmente enorme, porque brincávamos de pique nele. A única regra era não colocar os pés no chão. Pelo menos não colocar os pés no chão do lado de fora. No chão dentro do trepa-trepa valia correr. Era um pegando e os outros fugindo, voando de ferro em ferro. No meio tinha uma escada até a parte mais alta, era a única parte regular. Nas outras, as barras horizontais e verticais faltavam vez por outra, deixando janelas de formatos e tamanhos distintos. Nossos corpos pré-adolescentes, como chamariam hoje, eram de crianças que conheciam cada caminho possível. Meu irmão escorregou lá do alto. Ou pisou em falso. O corpo infantil despencou bem pelo meio do trepa-trepa. A perna batendo em cada degrau da escada. Quando ele chegou no chão eu já tinha corrido em direção à quadra de vôlei para chamar meu pai. O menino ganhou gesso por uns dois meses, presentes de parentes, assinaturas de amigos. Está vivo para contar a história ou ler esta versão que pode ter erros.

Meu filho se cansou das limitações do brinquedo grande e colorido e chamou meu pai para brincar de castelo. Tinha um castelo de plástico do lado. Bem menor que o brinquedo colorido. E cinza, preto e azul. Quadrado, com quatro torres, duas entradas. Só. Ele entrou e saiu algumas vezes, se divertiu subindo nas torres e olhando o avô pelas janelas e pelo alto. E me chamando das janelas e do alto. Criou uma história ali, subindo e descendo das torres por degraus que pareciam feitos para aqueles pequenos pés de quatro anos de idade.

Lá em cima, no outro parquinho, tinha uma roda gigante. Impensável isso fora de um parque de diversões com tudo elétrico. Pois havia. Era uma roda bem grande com seis cadeiras de balanço. Cadeiras de ferro, iguais às do balanço um pouco à frente, mas com correntes curtas, porque não podiam balançar muito. A roda era alta. Seis cadeiras, onde crianças deveriam ser erguidas com força. Importante era equilibrar quando havia poucas. Uma subia, levantávamos a roda com nossos pesos até ela estar no alto e outra crianças se sentar na quarta cadeira. A oposta. A cada metro que a criança sozinha subia o pavor crescia nos olhos. O mesmo na hora de sair, nenhuma das duas queria ficar para o final. Uma vez, uma só, vi as seis cadeiras preenchidas. Meus primos e meu tio estavam com a gente. Ele e meu pai nos levantaram e fomos seis por uma vez naquela roda gigante. Para a principal brincadeira da roda gigante bastávamos dois. Cada um segurava na roda de um lado e, em turnos alternados, um puxava para baixo e o outro subia. A cada puxão o outro ia mais alto. Até onde subir só descobríamos quando vinha o desespero de passar direto, de passar por cima, de soltar e cair de muito alto. Semana passada um colega de trabalho falou que brincava lá também, da mesma queda de braço com o corpo todo. Está vivo.

Meu pai precisou ir encontrar os amigos para conversar antes do almoço. Faltava um tempo ainda para comermos, chamei meu filho para conhecer o outro parque. Queria tentar colocá-lo numa cadeira da roda gigante e subir o tanto que ele quisesse, até pedir para descer. Com quatro anos ainda se é leve. Depois íamos brincar juntos no trepa-trepa. Bem devagar e aos poucos, meus braços sempre perto dele, para testar o equilíbrio e as extensões do pequeno humano. Apresentaria para ele o carrossel e ali ousaria um pouco mais de velocidade com ele sentado na cadeirinha. Pais são covardes, mesmo tendo sobrevivido. Queria mostrar para ele onde poderia se arriscar à medida que crescesse.

De longe não consegui ver o trepa-trepa, estava mais preocupado em contar as histórias dos brinquedos para o pequeno. Subindo a escada do parque, achei estranho não ter visto ainda a roda gigante. Felizmente o carrossel estava na nossa frente. Os outros dois brinquedos não estavam lá. Alguém deve ter achado que eram muito perigosos. Ou lido os históricos dos brinquedos que por décadas estiveram ali e deduzido: nunca houve mortes aqui, melhor retirá-los antes que ocorra alguma.

Subimos no carrossel. Mostrei os quatro cavalos e os quatro banquinhos. Ele pediu para sentar no banco de coelho. Falei que ia rodar um pouco para ele conhecer, bem devagar. Desci, mas fiquei ao lado do banco, me apoiei no coelho para empurrar. Só a mão colocada na orelha, suficiente para caminhar ao lado deles, coelho e menino. O carrossel não se moveu. Puxei com um pouco mais de força e um rangido ensurdecedor veio antes do movimento. O rangido se transformava em grito à medida que acelerava, chegando a uma quase imobilidade constrangedora fazendo força com os dois braços apoiados. Muito barulho. Demais. Tudo duro, uma graxa grossa na parte de baixo. Parecia um freio de mão puxado no carro acelerando. Meu filho gostou, pediu mais giros e mais velocidade. Meu cardiologista e meu personal também adoraram. O menino queria mais, mas havia um limite físico e moral. Parei. Mostrei onde deveria estar a roda gigante e onde ficava o trepa-trepa e descemos para almoçar. Eu estava morto.

Maristela Meireles

Na saída da escola:

— Maristela, seu avô chegou pra te buscar!

— Não é meu avô, é meu pai!

— Nossa... ele é velho...

Ao longo de nossa vida juntos, construímos um hiato. Agora que estou pronta para fazer as perguntas, o senhor não está mais aqui. Resta uma construção de respostas em cima de memórias e gestos de carinho. Acho que eu ia gostar muito de ser adulta ao seu lado, para tentar nos entender melhor. Mas também não sei que tipo de adulta eu seria se o senhor não tivesse partido tão cedo. Coisas que não podemos mudar.

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Mariana Virgílio

Uma das primeiras palavras que disse, ainda que de forma truncada, foi “flamengo” e “gol”, resultado das horas em que passava em frente à TV com seu pai. De tanto ouvir suas histórias de futebol, do capitão e bom batedor de pênalti que foi, decidiu que queria jogar também e era com orgulho que via seu velho na arquibancada, assistindo seus jogos, mesmo sabendo que não fazia nem um terço de tudo o que ele já tinha feito com a redonda nos pés.

Ganhou chuteira, caneleira, uniforme e tudo mais que tinha direito e, mesmo a promessa de ser uma “nova Marta” ficando totalmente no passado, continuou firme, sendo a fiel escudeira durante os jogos de domingo na TV.

Tinham, juntos, incontáveis camisas de “mantos sagrados”, com uma família inteira apaixonada pelo vermelho e preto e ela, sempre que alguém vinha para tirar onda sobre seu time, prontamente dizia: “Eu não sou Flamengo, sou o time do meu pai”, quebrando qualquer réplica.

E foi assim que se criou sua relação com o futebol, conectada ao seu vínculo paterno. Certo dia, enquanto passeava com ele, viu uma criança que vestia a camisa do Vasco, enquanto gritava pelo pai que vestia o manto rubro-negro. Surpresa, indagou:

— Pode isso pai? Uma filha vascaína?

— A democracia é assim.

Naquele dia não compreendeu, mas anos depois entendeu que ali estava a maior qualidade de seu pai.

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Gustavo Diolindo

Sou eu que vou seguir você do primeiro sorriso até onde a vida me deixar.

Essa foi a promessa que fiz a nós dois logo que você nasceu e te segurei em meus braços. E o primeiro sorriso, claro, foi o meu. Mesmo ouvindo seus estridentes gritos de quem acabou de conhecer o mundo — e, de fato, ele é assustador.

Marquei meus dias acompanhando suas primeiras experiências. A primeira vez que me olhou nos olhos. A primeira vez que segurou meu dedo. A primeira vez que balbuciou a palavra “pai”. A primeira vez que peidou gargalhando e se assustou. A primeira vez que te coloquei com a camisa do meu time. A primeira vez que te levei ao cinema. A primeira vez que te contei uma história da minha infância. Você me mostrou o mundo, não o contrário.

Depois vieram as últimas vezes, e eu nem percebi. A última vez que pediu colo. A última vez que atravessou a rua segurando minha mão. A última vez que me chamou para brincar. A última vez que dormiu no banco de trás do carro e eu te carreguei até a cama. A gente nunca sabe quando uma última vez acontece. Se soubesse, talvez tivesse demorado um pouco mais.

Você foi crescendo e eu fui acreditando que criar um filho era ensinar a andar sozinho. Acho que confundi isso com me afastar. Meu pai também não falava muito. O amor dele chegava em forma de trabalho, de comida na mesa, de conselho atravessado, puxão de orelha e um aperto no ombro que dizia mais do que qualquer abraço. Passei a vida achando que era assim que se amava. Talvez fosse o jeito que ele encontrou. Sei que foi o único jeito que aprendi.

Às vezes invejo a relação que eu tive com ele. Outras vezes percebo que também não era tão bonita quanto a memória insiste em contar. É curioso como a saudade lixa as arestas das pessoas. Nós dois brigávamos, discordávamos, passávamos dias sem trocar uma palavra. Ainda assim, de algum jeito, eu sabia onde encontrá-lo. Com você, nem sempre sei. Estamos perto, mas existe uma distância que não cabe no espaço entre os bancos do carro.

Também errei. Disse coisas que não devia, deixei de dizer outras tantas. E você também. Nesses dias, pensava que o tempo resolveria tudo por nós. O tempo nunca resolve. Só muda o tamanho das coisas. A vergonha vira costume, o silêncio vira idioma, e a gente começa a chamar de rotina aquilo que, no fundo, incomoda.

Não sei se algum dia seremos aqueles pais e filhos que conversam por horas, que se abraçam sem motivo ou que dividem as coisas banais da vida. Nem sei se nós gostaríamos disso. Passamos tempo demais aprendendo a esconder o afeto para agora fingirmos que sabemos outro jeito de caminhar juntos.

Te aplaudo, celebro suas conquistas, torço pela sua felicidade e vivo na espera de um abraço em aniversários ou festividades. Não imagina o quanto isso me dá forças para seguir os dias. Você cresceu e eu fiquei. Acompanho seus passos como se ainda fosse um bebê e sinto orgulho da pessoa que você se torna a cada instante. Não falo, apenas sinto. É como nos acostumamos a viver. Mas, do nosso jeito, eu te amo e sei que você também me ama.

Só peço a você um favor, se puder: não me esqueça num canto qualquer.

O livro da pesquisadora Marina Speranza, do Instagram @omeninoeofeminino, traz reflexões sobre gênero para famílias e educadores. Uma ótima obra para pais que querem ser bons inclusive em ajudar meninos a serem bons pais.

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